4 O PROCESSO DE GRAMATICALIZAÇÃO E SUA COMPLEXIDADE
6.8 A (inter)subjetivdade de se (eu) não me engano: um jogo duplo?
As análises que serão empreendidas neste ponto da dissertação partem da noção de
(inter)subjetividade proposta por Traugott (2010) e do cline que se segue (também proposto
pela autora)
não/menos subjetivo - subjetivo - intersubjetivo
Como já foi mostrado nesta dissertação
32, para Traugott (2010) a subjetividade é
entendida como a relação entre o falante e suas atitudes e crenças, e a intersubjetividade está
relacionada com a preocupação do falante com a autoimagem de seu ouvinte.
O objetivo principal das análises é verificar os graus de subjetividade que se (eu) não
me engano pode apresentar. Coloca-se especialmente em questão se essa condicional propicia
uma leitura intersubjetiva em contextos específicos.
A própria forma da condicional se (eu) não me engano indica subjetividade, uma vez
que o “eu” está presente. Essa subjetividade, no entanto, não se restringe à forma da
condicional, ela também se manifesta na indicação de atitude do falante diante do que
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enuncia. Como foi mostrado nas análises que avaliaram se (eu) não me engano como um
modalizador epistêmico, essa condicional imprime marcas de incerteza sobre uma proposição.
Em alguns usos de se (eu) não me engano o seu valor ultrapassa a marcação de dúvida
(intencional ou não). Em tais usos essa condicional tem uma dupla função: marca a
preservação da face
33do falante (GOFFMAN, 1967) e a preservação do ouvinte e de sua
autoimagem (TRAUGOTT, 2010).
A necessidade de o falante preservar a sua face torna-se particularmente relevante em
situações em que ele se dirige de forma direta ou indireta ao seu interlocutor, como na
seguinte ocorrência:
(75) L 2 não tinha nem lugar no hospital, né, não tinha, e quando, quando viram que era
particular, então, apareceu apartamento com ar condicionado, com telefone, com isso e com
aquilo aí apareceu, aí tinha lugar, o troço, o troço é revoltante, sabe
L 1 e agora o Ernesto Dornelles é só, é só IPE
L 2 eu não sei
L 1 não atende mais INPS, se não me engano
L 2 (inint) eu, eu ouvi uma
L 1 e o Moinho de Vento também, agora é só IPE, (inint) organizações, não sei como é que
funciona
L 2 total, como eu não pretendo te(r) mais filho, né (inint) (D2-RS:283)
Esse trecho, retirado de um diálogo entre dois informantes, permite uma análise de
como se dá o jogo duplo de preservação da face do falante e de sua preocupação com o
ouvinte (intersubjetividade). Nessa passagem do diálogo o falante L1 considera que L2 não
compartilha o mesmo conhecimento que ele, e enuncia a informação (não atende mais INPS)
de uma maneira polida, utilizando a condicional se (eu) não me engano. O valor dessa
condicional, no entanto, não se restringe a uma marcação de polidez, mais que isso, ela indica
que o falante não tem total certeza do valor de verdade da proposição (não atende mais
INPS), o que afirma a sua função de modalizador epistêmico. Marcando a sua não certeza, o
falante preserva a sua face quanto a uma possível objeção por parte do ouvinte.
A próxima ocorrência, retirada de um romance, deixa evidente o jogo duplo da leitura
intersubjetiva e de preservação de face que a condicional em estudo pode ter:
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