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CAPITULO 1: LINGUAGEM E INTERAÇÃO VERBAL

1.2. A perspectiva bakhtiniana de linguagem

1.2.2. A interação verbal e os tipos de discurso

Na obra Marxismo e filosofia da linguagem, há um capítulo que Bakhtin destina ao tema interação verbal, retomando conceitos descritos nos capítulos anteriores, inseridos no contexto das relações interativas.

A filosofia da linguagem bakhtiniana tem como fundamento o princípio dialógico. Para o autor, é impossível conceber um ato de linguagem sem a parceria locutor/interlocutor e sem a interação de discursos. Ainda assim, a palavra diálogo deve ser concebida de acordo com uma perspectiva mais ampla, uma vez que não corresponde apenas aos contextos em que as pessoas são colocadas face a face. Podemos associar a palavra diálogo a qualquer tipo de comunicação verbal, inclusive ao das obras literárias, quando é mencionado o diálogo entre autor e leitor.

O dialogismo envolve os discursos dos interlocutores inseridos em um determinado contexto sociohistórico e, dessa forma, não pode ser reduzido a enunciados acabados ou a

unidades frasais submetidas aos estudos, por exemplo, da Análise da Conversação. Não é possível elaborar uma análise meramente técnica das enunciações de uma relação dialógica, pois o princípio dialógico é fruto da interpretação da realidade e da construção de discursos e evidencia as representações construídas coletivamente e as ideologias dos diferentes extratos sociais.

De acordo com Fiorin (2006), o dialogismo é a verdadeira realização da linguagem. Os homens não têm acesso à realidade, pois nossa relação com ela é sempre mediada pela linguagem. [...] Isso quer dizer que o real se apresenta para nós semioticamente, o que implica que nosso discurso não se relaciona diretamente com as coisas, mas com outros discursos, que semiotizam o mundo. Essa relação com o discurso é o dialogismo. Como se vê, se não temos relação com as coisas, mas com os discursos que lhes dão sentido, o dialogismo é o modo de funcionamento real da linguagem. (p. 167)

E para Bakhtin (apud Fiorin, 2006),

[...] todo discurso concreto (enunciação) encontra aquele objeto para o qual está voltado, sempre, por assim dizer, desacreditado, contestado, avaliado, envolvido por sua névoa escura ou, pelo contrário, iluminado pelos discursos de outrem que já falaram sobre ele. O objeto está amarrado e penetrado por idéias gerais, por pontos de vista, por apreciações de outros e por entonações. Orientado para o seu objeto, o discurso penetra neste meio dialogicamente perturbado e tenso de discursos de outrem, de julgamentos e de entonações. Ele se entrelaça com eles em interações complexas, fundindo-se com uns, isolando-se de outros, cruzando com terceiros; e tudo isso pode formar substancialmente o discurso, penetrar em todos os seus estratos semânticos, tornar complexa a sua expressão, influenciar todo o seu aspecto estilístico. (p. 167)

Bakhtin inicia o capítulo sobre interação verbal da obra Marxismo e filosofia da linguagem enfatizando a necessidade de se relativizar ou complementar o que as pessoas normalmente conhecem sobre o termo expressão. Para os seguidores do subjetivismo individualista e de todas as teorias da expressão, por exemplo, expressar-se significa exteriorizar o que é interior, uma vez que consideram, no ato expressivo, apenas o conteúdo da expressão. Segundo Bakhtin, para esses estudiosos, “tudo que é essencial é interior, o que é exterior só se torna essencial a título de receptáculo do conteúdo interior, de meio de expressão do espírito” (p. 111).

De acordo com os princípios bakhtinianos, a expressão apresenta dois aspectos: o conteúdo e sua objetivação exterior. O conteúdo interno, constituído externamente, ou seja, a partir das relações estabelecidas com o outro, em tempo e espaço definidos, é revestido de uma objetivação que retorna para o externo, dirigindo-se a um interlocutor determinado.

Assim, qualquer enunciação ou produção expressa oralmente percorre uma via que parte do falante para o ouvinte, com um fim próprio.

Para Bakhtin, “não é a atividade mental que organiza a expressão, mas, ao contrário, é a expressão que organiza a atividade mental, que a modela e determina sua orientação” (p. 112).

Não somente o conteúdo a ser transmitido, mas também a necessidade e o objetivo de se expressar compõem a atividade mental do indivíduo. É a partir dessa idéia que o autor refere-se ao que ele denomina de atividade mental do eu e atividade mental do nós. A primeira corresponde à consciência primitiva que, embora disponha de conteúdo ideológico, ainda está em formação. A segunda agrega a consciência de vários indivíduos, tornando-se portanto, mais elaborada e complexa. A transição entre a atividade mental do eu e a do nós está relacionada à tomada de consciência do indivíduo. À medida que a consciência se eleva de um estágio inicial em formação para uma realidade interior mais complexa, ela adquire o status de atividade mental do nós. Conforme o indivíduo interage com seu meio, aumentam suas possibilidades de assimilação, significação e compreensão do mundo. Nas relações interativas, o exercício de compreender o conteúdo da enunciação do interlocutor, seja ela informal, como em uma conversação familiar e em uma roda de amigos, ou formal, como na interação entre professor e aluno ou em uma entrevista de emprego, desenvolve e aperfeiçoa a atividade do eu em direção à atividade do nós. A atividade do nós está em permanente construção, agregando e desagregando novos conhecimentos e experiências advindas do processo de interação.

Na sala de aula, o aluno, munido de seus mais variados signos e por meio de suas significações, entra em contato com um novo conteúdo escolar, inserido em um processo de interação que envolve o professor e a classe. A etapa inicial do desenvolvimento de sua consciência e dos seus atos de fala será marcada por certo egocentrismo, em defesa dos conhecimentos e das idéias que já dispõe acerca do assunto a ser estudado e do contexto do qual faz parte. Essa atividade mental, segundo Bakhtin, é temporária e normalmente caracterizada por uma “confusão” do pensamento. No decorrer do processo interativo, a atividade mental do eu de cada aluno será trocada pela atividade mental construída no grupo, entre todos os eus dos alunos e do professor. Isso não significa que, ao final de uma aula em que seja oferecida aos alunos a oportunidade de interagirem, todos a finalizem com o mesmo pensamento ou desenvolvimento cognitivo. Bakhtin, possivelmente, afirmaria que ao final de uma aula com tais características, nenhum eu seria o eu inicial, ou seja, cada um, no processo

de interação e de negociação de significados, se transformaria em um novo eu, resultante de uma produção coletiva, compondo assim, o eu coletivo. Cada aluno conduz sua composição do eu coletivo de uma maneira particular, de acordo com seu próprio ritmo e é ao longo desse processo de construção que emergem as diferenças de assimilação dos novos conhecimentos entre os alunos de uma mesma classe. Surgem, nesse momento, as dificuldades de aprendizagem, que não nascem exatamente nos instantes presentes de interação, mas que são fruto de outros processos interativos e cumulativos que cada um dos alunos vivenciou.

O esquema a seguir ilustra as idéias de Bakhtin sobre a transição entre a atividade mental do eu e a atividade mental do nós no processo de interação verbal.

CONTEXTO SOCIAL

novo processo de interação atividade mental do eu

formas primitivas de enunciação processos interativos formas complexas de enunciação

atividade mental do nós

De acordo com Bakhtin,

A atividade mental do sujeito constitui, da mesma forma que a expressão exterior, um território social. Em conseqüência, todo o itinerário que leva da atividade interior (o ‘conteúdo a exprimir’) à sua objetivação externa (a ‘enunciação’) situa-se completamente em território social. Quando a atividade mental se realiza sob a forma de uma enunciação, a orientação social à qual ela se submete adquire maior complexidade graças à exigência de adaptação ao contexto social imediato do ato de fala, e, acima de tudo, aos interlocutores concretos. (p. 117)

Apropriando-se do termo ideologia do cotidiano para utilizá-lo no contexto escolar, podemos afirmar que a sala de aula é um palco constituído por vários cenários ideológicos: dos alunos, cada um com sua própria história escolar, como constituintes de um grupo-classe e membros de famílias com diferentes passados; do professor, como docente de uma determinada instituição, com princípios filosóficos e pedagógicos delimitados e como indivíduo, constituído de crenças e valores pessoais; da unidade escolar; da comunidade local; e do domínio oficial (currículo e normas estabelecidos pelo Estado).

O processo interacional da sala de aula envolve, portanto, muitas variáveis, o que gera níveis e tipos de enunciações diferenciados. A construção da atividade mental do nós se dá pela complexa integração (ou imposição) de valores cultural e socialmente distintos, determinando o perfil do contrato didático que guiará as ações dos alunos e do professor na sala de aula.

Para Bakhtin, o indivíduo que não se expressa permanece com sua consciência estagnada. Uma vez que se expressar significa articular o conteúdo mental com sua objetivação externa, aquele que não se expressa não materializa a palavra interior, impedindo o desenvolvimento da consciência. Segundo o autor, “enquanto a consciência permanece fechada na cabeça do ser consciente, com uma expressão embrionária sob a forma de discurso interior, o seu estado é apenas de esboço, o seu raio de ação ainda é limitado” (p. 118). E ainda:

A atividade mental tende desde a origem para uma expressão externa plenamente realizada. Mas pode acontecer também que ela seja bloqueada, freada: nesse último caso, a atividade mental desemboca numa expressão inibida. [...] Uma vez materializada, a expressão exerce um efeito reversivo sobre a atividade mental: ela põe-se então a estruturar a vida interior, a dar-lhe uma expressão ainda mais definida e mais estável. (p. 118)

Na sala de aula, há algumas possibilidades de expressão, além da oral. É comum nos depararmos com alunos que, embora não se manifestem oralmente, escrevam textos expressivos em conteúdo e forma. Também há aqueles que desenvolvem raciocínios matemáticos brilhantes, entretanto não os compartilham com os colegas, devido à construção de uma história de vida escolar e pessoal, que pode ter gerado, entre diferentes comportamentos, a insegurança, a apatia, o ‘egoísmo’ (não querer dividir o que conhece e/ou descobre), a dificuldade de verbalização oral etc.

Como qualquer expressão é constituída de conteúdo e objetivação externa e exige a presença da parceria locutor/interlocutor, é fundamental que, ao manifestar um tipo de reação

expressiva, o aluno tenha um público com o qual possa interagir. Em geral, as produções dos alunos – criação de textos (redações), lições de casa, avaliações etc. – são lidas, comentadas e julgadas pelo professor. Assim, para o desenvolvimento escolar do aluno, a principal faceta da expressão – a objetivação externa – torna-se empobrecida, uma vez que o meio social para o qual suas produções se destinam se reduz a um único ser, o professor, que quantifica o conteúdo expressivo em notas e conceitos. Dessa forma, o conteúdo pertencente ao aluno e em potencial expressão não se desenvolve, permanecendo embotado na consciência. Daí a importância de se criar, na sala de aula, um ambiente que favoreça as relações interativas entre os alunos, de modo que cada um tenha a oportunidade de enfrentar vários interlocutores reais e não apenas o professor que, muitas vezes, interage exclusivamente por meio de recados escritos nas produções dos alunos.

Bakhtin encerra o capítulo 6 de Marxismo e filosofia da linguagem enfatizando o aspecto social de toda e qualquer enunciação.

O centro organizador de toda a enunciação, de toda expressão, não é interior, mas exterior: está situado no meio social que envolve o indivíduo. Só o grito inarticulado de um animal procede do interior, do aparelho fisiológico do indivíduo isolado. É uma reação fisiológica pura e não ideologicamente marcada. Pelo contrário, a enunciação humana mais primitiva, ainda que realizada por um indivíduo, é, do ponto de vista do seu conteúdo, de sua significação, organizada fora do indivíduo pelas condições extra-orgânicas do meio social. (p. 121)

Também para o autor, as enunciações correspondem a uma pequena parcela das atividades comunicativas que compõem, por sua vez, um momento da evolução contínua do fenômeno da linguagem de um determinado grupo social. Diante disso, as enunciações podem sofrer alterações de acordo com as situações da vida corrente, respondendo às particularidades do contexto, do momento e das características dos interlocutores. Para Bakhtin, não há fórmulas capazes de fixar os tipos ou os estilos de enunciações, exceto em situações em que certos termos ou expressões já foram determinados e reforçados pelo uso como, por exemplo, nas conversas de elevador, nos pedidos de informação etc., em que os interlocutores se desconheçam completamente.

Ao final, Bakhtin, complementando sua proposta de reflexão sobre o tema linguagem aos marxistas, afirma que “a filosofia marxista da linguagem deve justamente colocar como base de sua doutrina a enunciação como realidade da linguagem e como estrutura sócio- ideológica” (p. 126).

Como etapa final da análise da filosofia da linguagem de Bakhtin, as próximas páginas desta dissertação se destinarão à compreensão do termo discurso, explorado nos últimos capítulos de Marxismo e filosofia da linguagem.

Para Bakhtin, ao longo do processo interativo, há, para o falante, o que ele atribui a denominação de discurso citado, que equivale a uma espécie de discurso oculto do ouvinte. É como se existisse uma terceira pessoa, na relação locutor/interlocutor, que interferisse na produção da enunciação do falante, ou seja, um discurso ‘mudo’, presente e ativo, embora não incorporado concretamente à situação narrativa.

O discurso citado é visto pelo falante como a enunciação de outra pessoa, completamente independente na origem, dotada de uma construção completa, e situada fora do contexto narrativo. É a partir dessa existência autônoma que o discurso de outrem passa para o contexto narrativo, conservando o seu conteúdo e ao menos rudimentos da sua integridade lingüística e da sua autonomia estrutural primitivas. (p. 144-145)

À medida que o falante integra, em sua enunciação, o discurso citado de seu interlocutor, reelaborando regras sintáticas e semânticas para assimilá-lo e associá-lo a sua própria enunciação, o discurso citado do interlocutor transforma-se em discurso narrativo.

E como se constitui o que Bakhtin nomeia de recepção ativa do discurso de outrem? Como, na realidade, apreendemos o discurso de outrem? Como o receptor experimenta a enunciação de outrem na sua consciência, que se exprime por meio do discurso interior? Como é o discurso ativamente absorvido pela consciência e qual a influência que ele tem sobre a orientação das palavras que o receptor pronunciará em seguida? (p. 146)

O próprio autor responde às suas indagações na sua obra.

Toda a essência da apreensão apreciativa da enunciação de outrem, tudo o que pode ser ideologicamente significativo tem sua expressão no discurso interior. Aquele que apreende a enunciação de outrem não é um ser mudo, privado da palavra, mas ao contrário um ser cheio de palavras interiores. Toda a sua atividade mental, o que se pode chamar o “fundo perceptivo”, é mediatizado para ele pelo discurso interior e é por aí que se opera a junção com o discurso apreendido do exterior. A palavra vai à palavra. É no quadro do discurso interior que se efetua a apreensão da enunciação de outrem, sua compreensão e sua apreciação, isto é, a orientação ativa do falante. (p. 147)

Como o discurso interior é constituído socialmente e como a elaboração ou a reelaboração de uma atividade mental depende impreterivelmente das relações interativas, a apreensão do discurso do outro não se situa na instância individual do falante, mas no contexto sociocultural em que locutor/interlocutor estão inseridos, envolvendo as regras e as estruturas gramaticais da língua e o ambiente da interação. Por exemplo, se estivermos no

interior de uma aldeia indígena da Amazônia, em comunicação com um índio que fala a língua portuguesa, ao falante (o índio), será improvável elaborar uma leitura da enunciação de seu interlocutor (nós), sem considerar os valores culturais da sociedade indígena a que pertence e os seus interesses pessoais (dele ou do coletivo) no momento da interação, o que possivelmente interferirá na apreensão do conteúdo de comunicação.

Deslocando essas considerações para o contexto da sala de aula, nem sempre o professor escuta seus alunos, considerando suas realidades de vida, ou seja, onde vivem, com quem convivem ou o que fazem fora do ambiente da escola. Essa incompleta e falha recepção ativa do discurso do aluno, em muitas situações, impedirá o professor de compreender a enunciação do aluno em sua totalidade. Nesse sentido, dúvidas, incompreensões ou mesmo idéias criativas podem passar despercebidas na sala de aula. Delimita-se, assim, uma fronteira entre o discurso do professor e o discurso do aluno, que é naturalmente incorporada ao contrato didático, estabelecido ou imposto na sala de aula.

Bakhtin menciona dois aspectos da apreensão da enunciação do outro, fundamentais para o entendimento do tipo de discurso construído pelo interlocutor em processo de interação: a réplica interior e o comentário efetivo.

A réplica interior corresponde à enunciação que vai sendo elaborada internamente pelo ouvinte ao longo do discurso do falante, isto é, à organização do conteúdo do discurso interior com a finalidade de ser expresso. O comentário efetivo diz respeito à assimilação das estratégias extralingüísticas utilizadas pelo falante durante seu discurso, traduzidas na expressão facial, no volume da voz, na variação da entonação dos enunciados, entre outras manifestações.

Para Bakhtin,

[...] essas duas operações, a réplica interior e o comentário efetivo são, naturalmente, organicamente fundidos na unidade da apreensão ativa e não são isoláveis senão de maneira abstrata. Os dois planos da apreensão exprimem-se, objetivam-se no contexto narrativo que engloba o discurso citado. (p. 148)

Há situações em que predomina a apreensão do conteúdo, ocorrendo, conseqüentemente, a produção de uma réplica a partir do o que se ouve e há contextos em que o ouvinte prioriza o que o Bakhtin nomeia de “cor” do discurso, posicionando a forma da enunciação acima de seu significado. A predominância de uma ou outra dimensão da assimilação do discurso do outro pode incorrer em conflitos entre os interlocutores de um

processo interativo, uma vez que forma e conteúdo compõem, indissociavelmente, todas as enunciações.

Por meio das idéias contidas no livro Marxismo e filosofia da linguagem, Bakhtin demonstra quão importante é o processo interacional na elaboração e no desenvolvimento da atividade mental dos indivíduos e na construção dos signos coletivos que compõem os diferentes extratos de uma sociedade. A partir desse princípio geral, Bakhtin descreve os elementos presentes na linguagem por meio da perspectiva do dialogismo, afirmando que a produção de qualquer discurso ocorre em um cenário complexo, que envolve, em primeira instância, as crenças, os diferentes pontos de vista e as apreciações dos interlocutores. É dessa forma que os indivíduos se relacionam com o mundo e passam a conhecê-lo e a interpretá-lo, mediatizados pelos significados construídos por meio da linguagem.

CAPÍTULO 2: A INTERAÇÃO VERBAL NAS AULAS DE