3 AS TEORIAS COMUNICACIONAIS E A EVOLUÇÃO DOS INSTRUMENTOS DE
3.3 A revolução das mídias digitais
3.3.1 A interatividade: o maior potencial da internet
A interatividade propiciada pelas mídias digitais leva os movimentos sociais a revisarem o conteúdo de suas propostas de transformação. Há a necessidade de se alicerçar em novas narrativas eletrônicas para que as bandeiras de luta não se ancorem em mais uma alternativa do mundo virtual incapaz de captar minimamente o universo de pessoas interligadas em rede. Para o professor José Manuel Moran (2011)62,
[...] a navegação precisa de bom senso, gosto estético e intuição.
Bom senso para não deter-se, diante de tantas possibilidades, em todas elas, sabendo selecionar, em rápidas comparações, as mais importantes. A intuição é um radar que vamos desenvolvendo ao
"clicar" o mouse nos links que nos levarão mais perto do que procuramos. A intuição nos leva a aprender por tentativa, acerto e erro. Às vezes, passaremos bastante tempo sem achar algo importante e, de repente, se estivermos atentos, conseguiremos um artigo fundamental, uma página esclarecedora. O gosto estético nos ajuda a reconhecer e a apreciar páginas elaboradas com cuidado, com bom gosto, com integração de imagem e texto.
De acordo com Dorfmann (2003)63, para se avaliar um ambiente virtual no que tange a sua proposta político-pedagógica, deve-se considerar os atributos que estimulam a navegação, tais como conveniência: facilidade para se obter o que se deseja; confiabilidade: confiança do usuário em relação ao portal;
acessibilidade: facilidade com que o usuário acessa o portal; atualização:
periodicidade com que os conteúdos são atualizados; variedade de serviços: se o portal oferece exatamente o que o usuário necessita; personalização: se o portal utiliza a linguagem do usuário; interatividade: possibilidade que o portal oferece
62 MORAN, J. M. Como utilizar a internet na educação. Também disponível em: <www.scielo.br>. Acesso em: 30 set. 2011.
63 DORFMANN, P. F. Atributos favoráveis à motivação para visitação de um site: estudo de um portal educacional. 2003. 93p. Dissertação (Mestrado em Administração). Escola de Administração. PPGO, UFRGS. Porto Alegre. 2003
de interação entre usuários; navegação: facilidade do usuário em acessar as diversas páginas do portal; conteúdo: profundidade do assunto desenvolvido pelo portal; design: impressão gráfica causada ao usuário. Como pondera e destaca Costa (2011)64,
[...] a interatividade técnica, todavia, já aparece como característica de certas mídias desde a criação do telégrafo e do telefone com os quais foi possível o diálogo simultâneo e sincrônico. No entanto, as mídias digitais tornaram a interatividade uma de suas principais características – os computadores foram concebidos para manterem os usuários em num estado de prontidão, capazes de ativar funções através de áreas ou botões. Interligados para o trabalho coletivo ou para envio e recebimento de mensagens, os computadores foram integrados em redes que têm na interatividade uma de suas mais decantadas potencialidades.
Ao focar a utilização das redes sociais na defesa das chamadas “minorias”, vale a pena discorrer, primeiramente, sobre um artigo provocativo, intitulado Parceiros não comunicativos: análise da mídia dos movimentos sociais e os educadores radicais, de John D. H. Downing (2010, p. 52)65, fundador e professor do Global Media Research Center do College of Mass Communication and Media Arts da Southern Illinois University Carbondale, nos Estados Unidos. No artigo, este autor
[...] se concentra principalmente no potencial das faculdades e universidades, incluindo o universo além dos contextos educativos, na construção de interações construtivas nos chamados cinco cantos do firmamento: as análises da mídia, o ativismo da mídia, a mídia arte, as profissões na indústria da mídia e os responsáveis pelas políticas de mídia.
64 COSTA, M. C. C. Interatividade – entre graus de liberdade e intencionalidades narrativas. p. 8-9.
Também disponível em: <http://www.alaic.net/VII_congreso/gt/gt_1/GT1-P26.html>. Acesso em: 30 set.
2011.
65 DOWNING, J. D. H. Revista Matrizes, volume 3, no.2, 2010, p. 52. Também disponível em:
<http://www.matrizes.usp.br>. Acesso em 30 set. 2011
Há diversas definições e análises que interessam a esta pesquisa-ação, na medida em que esclarecem conceitos e reforçam as incidências estratégicas necessárias no foco do trabalho direcionado para o campo da comunicação e do feminismo. São merecedores de destaque especial três cantos no pentagrama sugerido pelo autor – as análises da mídia, o ativismo da mídia e os responsáveis pelas políticas de mídia, na medida em que devem dialogar visando estancar a separação existente entre teoria e prática. Segundo Dowing (ibidem, p. 58)66:
[...] A divisão do trabalho entre pensadores e criadores está gravada em nossa história e no tecido social, e afeta diversas outras atividades além da mídia. [...] Hoje essas divisões sufocam o verdadeiro potencial de programas de educação de mídia, impedindo um diálogo engajado, e não mais superficial, entre os cinco pontos da bússola da mídia. [...] o vínculo entre a análise e a prática oferece uma importante abertura para a proliferação das facilidades da mídia dos movimentos sociais, suas experiências e vivências. Não deveríamos ficar satisfeitos com os sistemas midiáticos que temos, nem ignorar as questões ambientais, questões de ‘raça’ e etnia, gênero, classe social, pobreza global e guerra
Há outro aspecto abordado pelo autor sobre o que algumas mídias digitais vêm dando importância e chamando de “a cauda longa” da mídia, tratando-se de uma mudança de visão, já que nas mídias analógicas não mereciam atenção:
mídia alternativa, mídia dos cidadãos, mídia da comunidade, mídia tática, mídia independente, mídia de contrainformação, mídia participativa, mídia do terceiro setor, mídia dos movimentos sociais. Para Downing (ibidem, p. 52-53)67, todas as terminologias têm aspectos positivos e negativos, demonstrando preferência pela mídia dos movimentos sociais, ponderando, entretanto, sobre a dificuldade de definir tais práticas, já que fogem às formas, estruturas e aos gêneros organizacionais da mídia convencional.
66 Ibidem. p. 58
67 Ibidem. p. 52-53
Mídia alternativa: é uma designação completamente insossa, já que tudo é uma alternativa para alguma coisa.
Mídia dos cidadãos: é um termo que reconhece o campo magnético criado pela cidadania cultural.
Mídia da comunidade: penso que esse termo ainda é assombrado pelo significado nebuloso e róseo implícito na palavra comunidade.
Mídia tática: é o termo favorecido pelo ativista de internet e escritor Geert Lovink (2002), apesar de sua explicação do termo ser quase uma antidefinição: ... um termo deliberadamente escorregadio, uma ferramenta para criar zonas de consenso temporário com base em alianças inesperadas... hackers, artistas, críticos, jornalistas e ativistas...
Mídia Independente: é o termo perfeito por Herman e Chomsky para denominar a mídia de notícias não corporativa, não estatal e não religiosa.
Mídia de contrainformação: originado com Pio Baldelli (1977), mas ainda bem atual (Vitelli e Rodriguez Esperon, 2004), e também muito marcado dentro da área do jornalismo, na qual a palavra informação é usada como sinônimo de notícia.
Mídia participativa: é um termo bastante utilizado em projetos do Terceiro Mundo, e em sua concepção original significava que as pessoas afetadas por esses projetos deveriam ter um papel ativo na elaboração dos mesmos, e em seguida também deveriam avaliar os seus progressos (Mefalopulos, 2003).
Mídia do terceiro setor: denotando a mídia na esfera da ação social e voluntária, é um termo algumas vezes utilizado em discussões na Europa. Em outras palavras, a parte do espectro midiático que não tem patrocínio comercial, governamental nem institucional.
Mídia dos movimentos sociais: é o termo que eu tendo a preferir, visto que o termo ancora esses projetos de mídia em grandes e pequenos movimentos sociais, construtivos e repressivos, e todos os anteriores.[...]
A partir das breves definições acima, esta tese procurará focar no entrelaçamento das teorizações de mídia dos movimentos sociais e mídia tática, considerando-se serem estas as duas terminologias que mais se aplicam ao objeto de pesquisa voltado para a comunicação e o feminismo. De acordo com proposição de Downing, é exatamente pela importância que a mídia dos movimentos sociais alcança a partir do advento das redes sociais — YouTube,
MySpace, Facebook e outras —, que é necessário considerar o pentagrama “na interface potencial entre o ativismo de mídia e os educadores de mídia”, para desenvolver
[...] uma esquizofrenia construtiva, uma habilidade para jogar o jogo comercial quando necessário para sobreviver, mas também para ao mesmo tempo, ter a capacidade de manter uma constante distância mental do jogo em si, e continuar tendo um anseio persistente de mudar a situação. (DOWNING, 2010, p.52)68