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1.3 Propostas e abordagens recentes para o ensino de LE nas escolas brasileiras: o

1.3.2 As Abordagens Plurais

1.3.2.2 A Intercompreensão

Assim como a Abordagem Intercultural, esta abordagem tomou forma para dar conta das novas necessidades de interação linguística e cultural seja em razão de políticas econômicas e mobilidade profissional, provocadas fortemente pela formação de blocos econômicos, como Comunidade Europeia, Mercosul e Nafta, seja pelo surgimento e avanço das TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação), abrindo espaço a uma nova diversidade linguística.

Ela começa a ser estudada a partir dos anos 70-80, no auge da Linguística Cognitiva, cuja preocupação é a compreensão dos processos mentais envolvidos na aprendizagem de línguas.

Um dos meios que favorece a construção de uma competência comunicativa plurilíngue e privilegia a questão da interação social é a abordagem plural de ensino de línguas denominada Intercompreensão (IC) que, como define Degache (2012, p.21), –“ é compreender a língua do Outro e se fazer compreender na sua língua[língua primeira]”– uma vez que ela aborda dois aspectos essenciais à noção de Intercompreensão: a compreensão (escrita e oral) e a interação –esta última compreendida aqui não somente no contexto do encontro de dois ou mais sujeitos, mas no contexto do encontro do sujeito com as línguas, conhecidas ou em fase de descoberta, e do sentido construído neste encontro (CAPUCHO, 200930 apud DEGACHE, 2012).

A Intercompreensão é uma abordagem para o ensino de línguas próximas, pois os alunos, mesmo desconhecendo a língua do outro, pode se apoiar nas similaridades de ordem lexical, sintática e/ou discursiva entre as línguas, reconhecendo palavras transparentes e

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CAPUCHO, M. F. Sobre línguas e culturas. Disponível em:

49 construções semelhantes às da própria língua, tirando, com isso, proveito das semelhanças existentes entre ambos os idiomas.

Mais que aprender aspectos linguísticos pontuais das línguas aparentadas à sua língua primeira, com a Abordagem Intercompreensiva o aprendiz é levado a se valer da proximidade inter-linguística entre a língua desconhecida e a sua língua, de seus conhecimentos prévios (repertório linguístico, por exemplo), de suas competências linguísticas e capacidades comunicacionais, construídas ao longo de sua formação como falante de uma língua, para testar suas intuições sobre as línguas estrangeiras e, assim, compreender o Outro. (CAROLA, ALBUQUERQUE COSTA, 2014, p. 105- 106)

Assim, ao invés de tropeços, o aluno encontrará na semelhança instrumentos facilitadores da aprendizagem de língua espanhola. (TAKEUCHI, 2012).

Portanto, buscar o que une e não o que separa, as semelhanças no lugar das diferenças, sinaliza um caminho interessante na aprendizagem de línguas próximas. Tentar aproveitar as similaridades das línguas aparentadas, como é o caso de nossa pesquisa, a fim de conseguir essa competência plurilíngue que se assinala como desejável para o atual contexto em que vivemos.

Segundo Coste (2002, p.188), todo aluno deveria ter a experiência, entre outras, da Intercompreensão, por conta da relação que a abordagem propõe com a linguagem, a pluralidade de línguas e a alteridade. “Haveria, sem dúvida, muito a ganhar ao incluir no currículo este componente particular [diversidade de contatos com línguas] visando assegurar uma cultura de aprendizagem de línguas [...].”

A proposta didática da Intercompreensão promove a vontade de compreender o outro e coloca como finalidade última dos encontros interculturais o diálogo, valorizando o atribuir sentido às palavras do outro, num processo de busca de transparências, encontrando diferenças e semelhanças, mas, sobretudo, procurando estabelecer pontes entre línguas e saltar barreiras linguístico-comunicativas. (ANDRADE; ARAÚJO e SÁ; MOREIRA e SÁ, 2007).

Deste modo, a Intercompreensão afirma-se, pois, como uma abordagem plural do ensino-aprendizagem de línguas que encara a educação linguística de uma forma mais humanizada e enquanto instrumento de formação global do sujeito, onde se respeitam e valorizam as vivências e repertórios (linguísticos, comunicativos e de aprendizagem) do indivíduo e se trabalha no sentido de construção de um mundo mais justo e mais aberto ao diálogo e aos encontros interculturais. (CANDELIER et al., 2007; ALARCÃO et al., 2009)

50 Embora as pesquisas em Intercompreensão estejam mais voltadas ao âmbito universitário, esta deve e pode se involucrar no Ensino Médio, foco de nossa pesquisa. A experiência na Intercompreensão, além de trazer a possibilidade de interação entre línguas e culturas e desenvolver competências transversais, poderá formar um aluno mais confiante e engajado, capaz de respeitar o outro. Deste modo, Assmann (2007) afirma que:

É preciso substituir a pedagogia das certezas e dos saberes pré-fixados por uma pedagogia da pergunta, do melhoramento das perguntas e do ‘acessamento’ de informações. Em suma, por uma pedagogia da complexidade, que saiba trabalhar com conceitos transversais, abertos para a surpresa e o imprevisto. (ASSMANN, 2007, p. 33)

Assim, o conceito de Intercompreensão, no EM, revela-se um caminho possível para atingir esses objetivos, não como metodologia única e definitiva, mas como complemento a ser usado em determinadas tarefas ou projetos educativos. Especificamente com relação ao aprendizado do espanhol por alunos brasileiros, Eres Fernández (2017) defende que:

Precisamente pela crença de uma intercompreensão espontânea, não se valoriza o estudo e aprendizagem formal, o que funciona como um círculo vicioso: não se valoriza porque se supõe que é possível manter uma comunicação efetiva e acredita-se que não há necessidade de estuda-lo [o espanhol]. Significa - a exemplo daquilo que sempre se buscou fazer– mostrar aos estudantes, aos coordenadores de cursos, aos diretores de centros educativos, a outros professores, aos pais de alunos e à sociedade de maneira geral que o espanhol é um idioma diferente do português e que para ser capaz de interagir adequadamente nessa língua estrangeira deve-se dedicar tempo ao seu estudo, dentro e fora da sala de aula.31 (ERES FERNÁNDEZ, 2017, p. 6)

O EM poderia ser o momento de oferecer aos jovens oportunidades de aprender efetivamente, não só o inglês e o espanhol, porém o francês, italiano, alemão, entre outras, tendo em vista que quando se ingressa na universidade a gama de textos em outras línguas é muito grande, o que proporcionaria ao estudante um passo à frente, uma autonomia, uma oportunidade de exercer seu papel de cidadão, visando facilitar sua inserção seja na

31Nossa tradução de: “Precisamente por la creencia de una intercomprensión espontánea, no se valora el estudio

y el aprendizaje formal, lo que funciona como un círculo vicioso: no se valora porque se supone que es posible mantener una comunicación efectiva, y si se cree en eso no hay necesidad de estudiarlo. Significa-a ejemplo de lo que siempre se ha tenido que hacer– mostrar a los estudiantes, a los coordinadores de cursos, a los directores de centros educativos, a otros profesores, a los padres de los alumnos y a la sociedad de manera general que el español es un idioma diferente del portugués y para ser capaz de interactuar adecuadamente en esa lengua extranjera hay que dedicar tiempo a su estudio, dentro y fuera de clase. Significa justificar la necesidad de que la asignatura “Español” se respete y se valore. Y significa mostrar que el profesor de español es tan importante como el profesor de cualquier otra asignatura” Disponível em: http://marcoele.com/entrevista-con-francisco- moreno-y-gretel-eres/

51 universidade, no mercado de trabalho, curso técnico ou na vida social adulta, tendo em vista o atual cenário de interação e mobilidade. Isto é ser plurilíngue, o que não implica o desenvolvimento pleno em todas as destrezas, mas a oportunidade de conhecer-se, conhecer e respeitar o outro, rompendo com o paradigma da dificuldade se de aprender uma língua, com o preconceito linguístico e cultural e tirando vantagem das semelhanças que as línguas românicas nos proporcionam, como é o caso nesta pesquisa, do português e do espanhol.