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As narrativas do corpus fílmicos nos reportam a diversas histórias de dramas, com diferentes comportamentos e atitudes em relação ao corpo com deficiência física. Nesse capítulo, apresentamos diferentes enredos e contextos culturais, educativos e sociais que podem ser visualizados nestes filmes.

Apreciar os filmes nos leva a experimentar uma outra possibilidade de reaprender a ver o mundo a partir da experiência do outrem, como nos mostra os enredos dos personagens. “O homem do século XXI jamais seria o que é se não estivesse entrando em contato com a imagem em movimento, independentemente da avaliação estética, política ou ideológica que se faça do que significa” (DUARTE, 2009, p.17). A obra cinematográfica pode permitir uma transformação na maneira como as pessoas percebem o seu entorno ou a realidade.

Nas obras cinematográficas “O escafandro e a borboleta” e “Meu pé esquerdo”, compreendemos essa percepção fenomenológica nos olhares, nos gestos, na comunicação dos dois personagens. Eles se expressam e estabelecem uma maneira afetuosa nas relações com as pessoas ao seu redor. Nas demais obras, “Extraordinário”, “Intocáveis” e “Como eu era antes de você”, percebemos a intercorporeidade do corpo com deficiência física de modo significativo.

Destacamos de início a obra “Meu pé esquerdo”. Trata-se de um filme baseado em fatos reais, sobre a história da vida de Christy Brown, filho de uma humilde família irlandesa, que nasce com uma paralisia cerebral e muitas limitações das partes do corpo, com a exceção do pé esquerdo. Com o controle do pé, ele torna-se pintor e escritor. Christy Brown nasceu em 5 de junho de 1932 e faleceu em 7 de setembro de 1981, aos 49 anos. De nacionalidade irlandesa, foi escritor, artista plástico e poeta, autor do livro que se chama My Left Foot (Meu Pé Esquerdo) e que deu origem ao filme de mesmo nome. Casou-se com sua enfermeira, Mary Car, em 5 de outubro de 1972.

O filme é uma adaptação do livro que se concretiza como uma obra cinematográfica após sua morte. É uma obra sensível de 1989, um drama

biográfico que narra desde o nascimento de Christy Brown até seu casamento, uma obra marcada de cenas estesiológicas que têm como enredo a intercorporeidade de Christy nas suas relações sociais.

O início do filme se dá na cena em que Christy coloca um disco de vinil para tocar com seu pé esquerdo e, com a música de fundo, a história começa a ser narrada. Essa cena acontece em um evento sobre pessoas com deficiência que Christy vai participar e, ao chegar lá, logo é conduzido por uma enfermeira, Mary, que o leva a uma sala que parece uma biblioteca, onde irá aguardar até o término da apresentação musical, o momento que irá ser apresentado ao público. Ele presenteia a enfermeira com o seu livro. Enquanto ela vai lendo, a história vai sendo mostrada.

Diversas cenas são marcantes em relação à comunicação de Christy antes da desenvolver a linguagem falada devido a sua deficiência. Desde criança, foi muito incentivado pela mãe, buscando seu espaço com os irmãos, com o pai, na vizinhança e, posteriormente, na vida como pintor.

Imagem 50 - Christy tentando se expressar

Fonte: Youtube.com, 2020.

A imagem 50 remete à cena do olhar de Christy enquanto comunica algo. Ele tenta se expressar e esse olhar vem carregado de várias sensações: algumas vezes quer dizer um não, ou algo que está errado, ou ainda algo que percebeu no ambiente da sua casa, posto que ele ainda não se expressa pela fala.

Merleau Ponty nos apresenta a percepção dizendo: “Toda percepção exterior é imediatamente sinônima de uma certa percepção de meu corpo, assim como toda percepção de meu corpo se explicita na linguagem da percepção exterior” (MERLEAU PONTY, 1994, p.277). Essas percepções comunicam ao mundo sensível, aprendendo e conhecendo esse corpo sensível.

Desde muito pequeno, Christy apresenta uma relação afetuosa com sua mãe e uma enorme força de vontade para superar as suas limitações. Uma das cenas mais intensas no começo do filme acontece quando sua mãe o leva nos braços ao seu quarto no primeiro andar da casa. Ela estava grávida, já perto de dar à luz. Ao deixá-lo na cama, ela entra em trabalho de parto e desce as escadas para buscar ajuda, mas acaba caindo e fica desacordada. Christy ouve o barulho da queda, rasteja pelas escadas e começa a bater com a perna esquerda na porta para chamar atenção da vizinhança. Após várias batidas na porta, uma vizinha vem ajudá-los e chama a ambulância. A mãe vai para o hospital e Christy vai para casa da vizinha até a mãe retornar do hospital. (Anexo VI).

Nesta cena, percebemos a evidência do corpo para expressar a condição humana:

O corpo é uma evidência que acompanha todo ser humano, do nascimento à morte. [...] Espaço tanto biológico quanto simbólico, o corpo é o traço mais significativo da presença humana. A ciência, a filosofia e a educação, cada uma à sua maneira, criaram discursos sobre o corpo; os discursos, por sua vez, transformaram-se em atos, em agenciamentos ou em usos do corpo nas diferentes instituições. (NÓBREGA, 2016, p.114) Christy descobrirá como lidar com o corpo com deficiência ao longo do crescimento, vai reconhecer os padrões da sua condição corpórea em diversas possibilidades que as diferentes instituições cobram sobre as questões culturais e sociais.

Imagem 51- Christy batendo na porta pedindo ajuda para sua mãe desacordada

Fonte: tedioso.com, 2020.

Na imagem 51, vemos o desespero de Christy, pedindo socorro para salvar sua mãe que está caída e desmaiada no final da escada, expressando uma forma sensível e estesiológica de um sujeito perceptivo. Bate na porta com seu pé esquerdo tentando chamar atenção, pedindo ajuda para a mãe caída e grávida. Percebemos nessa cena que: “A sensibilidade, o sentir mesmo, anima nossa vida, nos impulsiona a nos engajarmos e faz com que os objetos, as pessoas e as situações possam ter um sentido afetivo para nós”. (NÓBREGA, 2016, p.257). O comportamento do menino numa situação de desespero para socorrer sua mãe grávida representa essa sensibilidade, a sua relação com a mãe era mais forte do que com os demais filhos, talvez, pela sua condição.

Sua atitude é comentada pela vizinhança. As mulheres relatam o acidente com a mãe e a forma como elas percebem o Christy. “Ouvi aquele barulho horrível e sai correndo, ela estava descendo as escadas com o Christy quando caiu. Ele estava caído como um bobão. Uma outra vizinha exclama: “Deus tenha pena dela, ele é uma cruz para a família”, e uma outra fala: “ele tem a mente de uma criança de 3 anos”. (Anexo VI). A imagem 52 retrata a cena que Christy está encostado no poste na rua ouvindo os comentários de como as pessoas da sua vizinhança o enxergam como um aleijado, como algo pesado para sua família.

Imagem 52- A vizinhança reunida comentando sobre a condição de Christy

Fonte: tedioso.com, 2020.

A partir desse acontecimento na vida de Christy e com sua cognição preservada, ele decide explorar o mundo. Enquanto a família está reunida na sala fazendo a tarefa escolar dos irmãos, ele surpreende a todos, especialmente ao pai, um homem que o rejeita desde o momento que recebeu a notícia na maternidade, tratando-o de forma diferente dos demais filhos. Christy apanha o giz com seu pé esquerdo e no chão escreve a palavra “Mother” (mãe em inglês) (Anexo VI). A imagem 53 retrata uma parte da cena quando Christy escreve a palavra mãe.

Imagem 53 - Christy escreve pela primeira vez

Fonte:pontajoao.com.br, 2020.

Sobre linguagem, temos que: “A linguagem e a compreensão da linguagem parecem evidentes. O mundo linguístico e intersubjetivo não nos espanta mais, nós não distinguimos mais do próprio mundo, e é o interior de um

mundo já falado e falante que refletimos” (MERLEAU PONTY, 1994, p. 250). O autor traz o exemplo sobre o sentido do gesto, que não pode ser percebido da mesma maneira do que a cor de um tapete. “O sentido dos gestos não é dado, mas compreendido, quer dizer, retomado por um ato do espectador” (MERLEAU PONTY, 1994, p.251).

Na fenomenologia de Merleau Ponty (1994), a intercorporeidade é expressão na sensação, aberta ao outro, somando sua experiência na relação com o mundo. É pelo corpo, pelos sentidos, que temos nosso contato com o mundo, que podemos nos sentir parte dele, e nos comunicarmos tanto com ele quanto com os outros seres. Nos parece ser um conceito fundamental para os estudos sobre corpo. Primeiramente, para os casos em que o objeto pesquisado não é um corpo isolado, e sim corpos em relação – ele possibilita deslocar a problematização para um “espaço” entre os corpos. Em segundo lugar, revela ao pesquisador, enquanto sujeito, a sua própria natureza carnal: que no contato com outros corpos, o seu corpo é também excitado.

O conceito de intercorporeidade que aparece no final da obra de Merleau- Ponty do livro “Signos” busca superar o dualismo da intersubjetividade husserliana. Para o autor, não podemos falar do corpo sem partir do princípio de que já somos corpos situados no mundo enquanto abertura para o outro. Assim, “Para Merleau Ponty o corpo é enigmático, haja vista sua abertura às coisas e ao mundo. Trata-se de uma relação não de apropriação, mas de inerência, prolongamento, abertura em que não há divisão ou separação entre aquele que vê como o que é visto, do sentir e do sensível” (NÓBREGA, 2015, p.92).

A intercorporeidade é a comunicação de um corpo que percebe um outro corpo o qual pode ofertar possibilidades de expressividade, ampliando e compartilhando essas percepções. O corpo é lugar de abertura para o outro. (MERLEAU PONTY, 1991).

Há uma relação do meu corpo consigo mesmo que o converte no vinculum entre o eu e as coisas. Quando minha mão direita toca minha mão esquerda, sinto-a como uma "coisa física", mas no mesmo momento, se eu quiser, ocorrerá urn acontecimento extraordinário: eis que a mão esquerda também começará a sentir a mão direita [...] Logo, toco-me tocante, meu corpo efetua "uma, espécie de reflexão". NeIe, por ele, não há somente relação em sentido único daquele que sente com aquila que sente: a relação inverte-se, a mão tocada torna-se tocante, e sou

obrigado a dizer que; tato está espalhado em meu corpo, que o corpo e "coisa que sente", "sujeito-objeto" (MERLEAU PONTY, 1991, p. 183-184).

O próprio espaço se conhece por meio de meu corpo. Ao apertar a mão do outro ou ao olhá-lo, temos a certeza de estarmos ali, porque o corpo anexa o corpo do outro, “minhas duas mãos são co-presentes e co-existem porque são as mãos de um único corpo” (MERLEAU PONTY, 1991, p.185). Essa extensão com o outro se configura como intercorporeidade.

O corpo é tátil e tocante. Por isso, quando percebemos um corpo, um gesto, uma expressão, podemos nos reconhecer neles, reconhecer que ali há um outro, cujo corpo é semelhante ao meu e que, portanto, é comunicável a mim, tal como sou para ele. O filme “O escafandro e a borboleta” apresenta algumas cenas marcantes no tocante ao corpo de outrem. No sentido expresso, para Merleau Ponty, como lemos na citação:

A percepção de outrem não é apenas a operação de estímulos exteriores, mas também depende de grande parte do modo como estabelecemos nossas relações com os outros antes dessa percepção: ela tem raízes em todo nosso passado psicológico; cada percepção de outrem nunca é mais que uma modalidade momentânea. (MERLEAU PONTY, 2006, p. 545).

Nosso corpo é dotado de uma característica única dos sentidos. Meu corpo é um ser visível, mas ele também é vidente. Vejo, mas também posso ser visto. Meu corpo tem uma sonoridade, pode se fazer ouvir e pode ouvir-se quando emite sons. Ouço quando falo e ouço quem me fala. Sou sonoro para mim mesmo e para outrem.

Falar da reversibilidade possível entre um corpo que toca outro corpo e é por ele tocado, e parece-me que a noção de carne fornecida por Merleau Ponty fornece a possibilidade de falar em intercorporeidade. “Com a noção de carne estabelece-se, no pensamento de Merleau Ponty, o quiasma corpo e mundo, bem fundado na noção da intercorporeidade, na relação com o outro” (NÓBREGA, 2015, p. 85). A noção de carne em Merleau Ponty abrange a sensibilidade do corpo:

A carne que falamos não é matéria. Consiste no enovelamento do vísivel sobre o corpo vidente, do tangível sobre o corpo tangente, atestado sobretudo quando corpo vê, se toca vendo e tocando as coisas, de forma que, simultaneamente, como tangível, desce entre elas, como tangente, domina-as todas, extraindo de si próprio essa relação, e mesmo essa dupla relação, por deiscência ou fissão de sua massa. (MERLEAU PONTY, 2009, p.141).

Ainda nas palavras de Nóbrega (2012, p.111), “[...] Essa carne do corpo não é matéria, substância, mas ato, movimento, memória, estesia cujo logos se pronuncia silenciosamente em cada coisa sensível, paisagem, tempo ou espaço”. Entende-se a carne como uma compressão do ser no mundo. Trata-se do corpo interposto no que está diante dele, em sintonia com o mundo, com as coisas, com os animais, com os outros corpos.

Imagem 54 - Auggie na frente do espelho cortando sua trança

Fonte: adorocinema.com, 2019.

A imagem 54 remete à cena em que Auggie se olha no espelho e percebe seu cabelo com uma pequena trança. Logo alisa o cabelo e resolve cortá-lo. Esse corpo que se vê, que se toca, esse corpo vidente e tangível nessa dupla relação estabelece sua intercorporeidade, do corpo consigo mesmo. Nessa relação o esquema corporal se configura como uma sinergia entre o corpo e o mundo, havendo uma comunicação recíproca:

A relação com o mundo está incluída na relação do corpo consigo mesmo. A relação de minhas duas mãos- troca entre elas, a mão tocada se dá à mão tocante como tocante, elas são espelho uma da outra- algo de análogo na relação com as coisas: elas “me tocam” tanto quanto eu as toco. Nada de surpreendente: elas são aquilo a que a Sinergia de meu corpo dá acesso, são feitas do mesmo material que o esquema corporal, frequento-as a distância, elas me frequentam a distância. Estou com elas numa relação de Einfuhlung: o meu interior é o eco do seu interior (MERLEAU PONTY, 2006, p. 360).

Quer dizer que o Einfuhlung [empatia] é a compreensão do corpo percebido com os outros corpos. Uma abertura do corpo aos outros corpos, a relação do corpo consigo mesmo de forma perceptiva:

É meu corpo como interposto entre o que está diante de mim e o que está atrás de mim, o meu corpo levantado diante das coisas levantadas, em circuito com o mundo- Einfuhlung, com o mundo, com as coisas, com os animais e com os outros corpos (como tendo também um “lado perceptivo”), compreesível por essa teoria da carne [...] (MERLEAU PONTY, 2006, p; 338).

Finalizamos a análise da obra “O homem elefante” lembrando que o filme faz questão de remarcar a sensibilidade e a inteligência do Jonh Merrick, fazendo com que em diversos momentos o espectador se identifique ora com sua dor, ora com sua força, ora com sua condição demasiadamente humana. O mesmo ocorre com Auggie em “Extraordinário”, que nos leva a pensar sobre a imagem do corpo e a afetividade nas relações sociais e familiares, ora com seus pais e irmã, em que se observa a relação de ciúmes e superproteção; ora na escola com os colegas, com preconceito e discriminação.

Em relação ao filme “Meu pé esquerdo”, Christy pela primeira vez pinta com seu pé esquerdo (imagem 55) para uma das moças do seu bairro e escreve na pintura. Em um primeiro momento a moça (Raquel) fica encantada e vai mostrar a pintura às amigas quando descobre que o pintor era deficiente. Raquel vai devolver em mãos na porta da sua casa (Anexo VII). A linguagem se expressa constituindo uma comunicação. Desse modo:

O quadro para além dos dados dos sentidos, a fala para além dos dados da linguagem constituída devem ter então para si mesmos uma virtude significante, sem referência a uma

significação que exista para si, no espírito do espectador ou do ouvinte”. [...] o quadro e a fala não são ilustração de um pensamento já feito, mas a apropriação desse mesmo pensamento (MERLEAU PONTY, 1994, p. 520).

Imagem 55 - Christy pintando sua primeira obra

Fonte: pontajoao.com.br, 2020.

“O que pode o corpo? Não sabemos o que pode o corpo em sua potência de afetar e ser afetado. Essa lição aprendida com a filosofia de Espinosa tem influenciadp muitas produções artísticas, filósoficas, clínicas e educativas” (NÓBREGA, 2016, p.171).(grifo da autora)

Imagem 56 - Christy começa a escrever

Fonte:pontajoao.com.br, 2020.

A imagem 56 remete à cena em que ele escreve o primeiro manuscrito no papel, realizado com muito esforço, mostrando essa potência do corpo, como consciência corporal. Desse modo:

A consciência que tenho do meu corpo é uma consciência escorregadia, o sentimento de um poder. Tenho consciência do meu corpo como uma potência indivisa e sistemática de organizar certos desenvolvimentos de aparência perceptiva. O meu corpo é aquele que é capaz de passar de tal aparência para tal aparência, como o organizador de uma “síntese de transição”. Eu organizo com o meu corpo uma compreensão do mundo, e a relação com o meu corpo não é a de um Eu puro, que teria sucessivamente dois objetos, o meu corpo e a coisa, mas habito o meu corpo e por ele habito as coisas. O corpo aparece não só como o acompanhante das coisas, mas como o campo onde se localizam minhas sensações. (MERLEAU PONTY, 2006, p. 122).

Uma outra passagem do filme “Meu pé esquerdo” é quando a Dra. Eileen Colle vai visitá-lo em casa e o elogia: “Você é um grande pintor”, também expressando essa potencialidade do corpo. Ela se apresenta como médica e o convida para ir conhecer sua clínica de fisioterapia. Christy aceita o convite e vai até a clínica em um carro adaptado que o busca em casa. Ao realizar a sessão da fisioterapia, ele se sente constrangido por se tratar de um espaço para crianças com paralisia cerebral, olha ao seu redor e pede para ir embora para casa. (Anexo VI)

Imagens 57 e 58 - Christy na fisioterapia em casa com a Dra. Elileen

Fonte:Youtube.com, 2020.

As imagens 57 e 58 remetem às cenas de fisioterapia de Christy em casa após se recusar a se tratar na clínica. A cada sessão, ele demostra sua evolução. Um dia, a Dra. Elileen leva um livro de Shakespeare como presente e ele aprende a recitar os poemas de “Hamlet” e se expressa dizendo que gosta muito dela. A relação fica mais próxima, o que leva Christy a se apaixonar pela doutora.

A mãe chega a comentar com o marido da sua preocupação com essa situação. Ele pinta um quadro com o rosto da Dra. Elillen (Anexo VI).

Dra. Elileen organiza uma exposição para o público apreciar as pinturas de Christy, logo aceita por ele. A abertura da exposição foi realizada por Peter (noivo da Dra. Elileen), que apresenta Christy como um talentoso pintor e fala das suas obras. A exposição foi um sucesso e eles saem para comemorar. O que não esperavam é que, ao descobrir sobre Peter e seu futuro casamento com a doutora, Christy daria um escândalo no restaurante. Ele já havia bebido muito vinho e é ameaçado por Peter de ser colocado para fora do restaurante, quando a doutora sai em sua defesa.

Imagem 59- Christy e sua mãe na Exposição Imagem 60- Jantar após a exposição

Fonte: Youtube.com, 2020.

A imagem 59 refere-se à cena de Christy com sua mãe no dia da exposição da suas obras e a imagem 60 é sobre o jantar com a Dra. Elileen, seu noivo e um outro casal. São duas passagens do filme que retratam Christy se relacionando no mundo: na exposição junto às pessoas que apreciavam seus quadros e no jantar quando se excede na bebida.

Após o desastroso jantar, a doutora perde o contato com Christy, que entra no estado de depressão e não pinta mais, apenas bebe todos os dias. Em um desses dias, a mãe vai acordá-lo e o alerta sobre a vida que levava, de bares e bebidas e diz: “Se você desistiu, eu não”. Em seguida, começa a cavar no quintal da casa, quando ele olha pela janela, desce, vai ao encontro da mãe e

pergunta o que ela faz, quando ela responde: “Um quarto para você, talvez assim você volte a pintar” (ANEXO VI).

“Desse modo, as condutas, gestos do outro são compreendidos seguindo uma lógica tácita que será preciso aprender a conhecer” (NÓBREGA, 2018, p.343). O pai e os irmãos chegam e se unem para construir o quarto. O pai se empolga e toma a frente da construção e a mãe fala para Christy: “Talvez foi o jeito que ele encontrou para dizer que te ama”, sobre a atitude do pai (ANEXO VI).

Essa descoberta do corpo pela fenomenologia implica uma redescoberta do mundo percebido e seu profunda ligação com a intercorporeidade e sua ligação com o esquema corporal, a motricidade, a sexualidade, os afetos, o pensamento e a linguagem” (NÓBREGA, 2018, p. 342).

Merleau Ponty, na sua obra “Fenomenologia da percepção”, apresenta