Esquema 6. Adam (2011), p 250
2.3 A interdisciplinaridade a serviço de um conhecimento holístico
Promover práticas interdisciplinares no contexto escolar é sempre um grande desafio para professores e alunos. Por parte dos docentes, é necessário um planejamento conjunto e minuciosamente articulado entre todos os envolvidos, levando em conta a relevância dos conteúdos abordados, o contexto que a turma alvo está inserida e o modus operandi dessa atividade. Por sua vez, é indispensável que os discentes tenham maior clareza que o trabalho está sendo feito de maneira colaborativa e que culminará em uma prática mais significava, que visa à abordagem de diferentes tópicos entrelaçando distintas disciplinas.
As abordagens interdisciplinares são validadas e enriquecedoras devido a gama de possibilidades de aplicações que elas possibilitam e dos diálogos possíveis promovidos por tais performances. Pensar em um contexto multi/interdisciplinar é abrir-se para novas maneiras de manejar conteúdos de maneira inovadora, interativa, e principalmente, relevante para os alunos.
Não se trata, no entanto, de aulas temáticas que cada professor irá desmembrar especificidades de seu currículo programado e trabalhar de maneira isolada sob a luz de um tema que perpassa cadeiras diversas. Trata-se, porém, de uma relação estreita e um diálogo mais refinado entre disciplinas que abordam elementos específicos de sua área, culminando em um trabalho conjunto com
denominador comum cujos resultados podem ser obtidos e analisados sob a ótica das multimodalidades semióticas formadoras do discurso.
A sala de aula é essencialmente multimodal, nela o professor utiliza um conjunto de modos para construir os significados: a fala, os gestos, a proxêmica, o olhar etc. Entende-se por 52ultímodos a integração do discurso em diferentes modos para representar os raciocínios e as explicações científicas. O termo múltiplas representações é entendido como a prática de representar um mesmo conceito ou processo científico de diferentes formas (PRAIN; WALDRIP, 2006).
Segundo Laburú e Silva (2011), ao provocar variados modos e formas representacionais, é possível potencializar as possibilidades de apreensão mais penetrante e extensa dos significados pretendidos, na proporção em que se aperfeiçoa a ocorrência de ressonâncias de certas capacidades de maior desenvoltura do aprendiz com representações que melhor lhe correspondam. Como uso de procedimentos multimodais, torna-se possível controlar, discriminar, entender e superar as recalcitrâncias ligadas à construção das unidades significantes próprias a cada registro científico, auxiliando o aprendiz a construir um discurso coerente, coordenado e integrado.
O ensino multimodal ou multirepresentacional pode se dar no meio interdisciplinar, propondo assim situações que possam integrar os conceitos nas mais diferentes esferas do saber. Todas essas contribuições podem ser desenvolvidas e potencializadas em um trabalho interdisciplinar com a área do conhecimento de Língua Portuguesa, por exemplo, tornando, dessa forma, o processo ensino e aprendizagem muito mais relevante e global ao aluno.
Uma vez que o assunto que perpassa a interdisciplinaridade é o ambiente escolar e suas multifacetas e multitarefas, é necessário reconhecer primeiro que a escola é um ambiente plural e diverso. A efervescência de diversidades (sócio) culturais, de discursos, pensamentos, opiniões e conteúdos faz da escola um ambiente rico, multi e propício para a convergência de diálogos. Seja dito de passagem, diálogo é a palavra de ordem ao tratar de interdisciplinaridade.
Mesclar, convergir, misturar, dialogar, os termos são muitos no tocante interdisciplinar. De acordo com Thiesen (2008, p. 547) “as definições e conceitos para tal termo ainda estão em construção”. No entanto, para ele, a literatura que trata desse assunto é unânime ao se referir à finalidade da interdisciplinaridade
como “necessidade de superação da visão fragmentada nos processos de produção e socialização do conhecimento” (p. 545). Segundo o autor:
A ação interdisciplinar é contrária a qualquer homogeneização e/ou enquadramento conceitual. Faz-se necessário o desmantelamento das fronteiras artificiais do conhecimento. [...] possibilita o aprofundamento da compreensão entre teoria e prática, contribui para uma formação mais crítica, criativa e responsável e coloca escola e educadores diante de novos desafios tanto no plano ontológico quanto no plano epistemológico [...] Integrar o que foi dicotomizado, religar o que foi desconectado, problematizar o que foi dogmatizado, questionar o que foi imposto como verdade absoluta. (Thiesen, p. 550)
Em vista disso, não pode haver amarras em um projeto interdisciplinar. Os professores envolvidos devem estar abertos às novas experiências, caminhos e principalmente ao diálogo. Somente assim será possível que a efetivação do trabalho aconteça de maneira eficaz e que a aprendizagem se torne uma experiência significativa para alunos e professores envolvidos em processo de ensino e aprendizagem no qual todos saem com uma bagagem de conhecimento exponencialmente superior ao fim do processo.
Essa pesquisa também se pauta na interdisciplinaridade, pois além de ter uma parte sido desenvolvida junto da disciplina de Química (na produção de papel reciclado para a escritura do prólogo do livro-portfólio), também se propõe um trabalho conjunto com o professor de Arte, no que se refere à produção do autorretrato visual, às ilustrações e customizações do livro, bem como a confecção da capa.
Para a próxima seção, é apresentada a metodologia que orientou o a pesquisa, a origem do projeto, delimitações sobre os gêneros trabalhados, as descrições do estágio de docência e desenvolvimento do projeto.
3 METODOLOGIA E DESENVOLVIMENTO DA PESQUISA
Neste capitulo é descrita a metodologia utilizada na pesquisa, bem como o contexto no qual ela ocorreu e como são realizadas as análises dos dados obtidos. São retomados os objetivos, justificativa e fatores disparadores para o desenvolvimento desta prática. A elucidação de cada um dos gêneros discursivos (e justificativa da escolha de cada um deles) e a relação entre contexto de produção e recepção serão abordadas nesta seção. Por fim, relata-se o estágio de docência bem como o cronograma de realização do projeto.
Este estudo apoia-se na noção de elaboração didática (HALTÉ, 2008), pois, é entendida como “uma didática globalmente praxiológica, caracterizando-se, em relação aos saberes, por uma metodologia implicacionista” (p. 22). Tal concepção, ainda de acordo com o autor, pressupõe situar um projeto didático no qual seu espaço privilegiado é o sistema didático. Em suma, o desenvolvimento de uma prática dentro de sala de aula no qual há uma junção entre conhecimento científico, prática social de referência e conhecimento especializado e geral.
Halté (2008) faz uso do termo happening (um acontecimento) para elucidar a sala de aula, pois o contexto escolar realmente é dinâmico, vivo e interacional. No entanto, ainda de acordo com o autor, não é porque um saber está disponível que ele precisa ser ensinado, mas “porque tal projeto didático busca tal objetivo que tal conceito teórico é eleito e transposto mais do que outro, em convergência com as escolhas dos suportes, com os conhecimentos prévios, com as especialidades afins etc.” (p. 23). É neste ponto que tal projeto de alicerça: na produção de um livro- portfólio como instrumento de humanização e desenvolvimento do pensamento tecnológico.
A pesquisa ocorreu no ano de 2016 em um colégio particular no município de Arapongas, Paraná, em uma turma de 2ª série do Ensino Médio com nove alunos, durante 23 aulas (primeiro semestre de 2016) da disciplina de Produção de Texto, que é separada da disciplina de Língua Portuguesa, por isso, a flexibilidade e possibilidade de aplicação do projeto. A escolha dessa turma se deu justamente por ter alunos que em 2013 estavam confeccionando o livro Destrua este diário (2013) além da turma ter concordado e mostrado interesse e entusiasmo em participar do projeto desde 2013, quando ele ainda estava sendo esboçado. O número reduzido de alunos (nove alunos) permitiu um acompanhamento individualizado com cada um
deles, bem como auxílio e suporte (tanto de sugestões e dicas, quanto no manuseio de técnicas de scrapbook) nas produções dos elementos mais artesanais como a confecção da capa e customização das páginas. Para a confecção dos livros- portfólio, foram disponibilizados para os alunos folhas de vergê A4 creme, nas quais eles escreveram as versões finais dos gêneros solicitados, bem como placas de papel holler para a produção das capas e argolas para o fechamento dos livros. Demais elementos de customização, tanto das capas quanto das folhas que compunham o projeto, ficaram a critério de cada aluno, dando, o professor- pesquisador, sugestões e dicas de quais materiais poderiam ser utilizados.
Destaca-se para o trabalho que o objetivo maior é desenvolver o produto educacional, uma vez que se trata de um programa de mestrado profissional, situando seus principais aspectos configuracionais e de base teórica, além de descrever suas etapas de produção.
Por outro lado, seguindo por uma perspectiva mais linguística se fizeram necessárias análises de algumas produções sob, principalmente, os postulados de Marcuschi (2005); Silveira, Rohling e Rodrigues (2012) no que tange questões envolvendo os gêneros e suas ressignificações por meio da interpretação do comando disparador e produção textual. De forma complementar, aborda-se nessas análises elementos relativos aos planos textuais estudados (sequencialidade e plano de texto/pré-formatado) com base em Adam (2011; 2017). Por fim, nessa seção, são discutidas questões de criatividade (materialização do pensamento tecnológico) e avanço rumo à humanização por meio de indícios presentes nos textos produzidos.
A proposta do projeto era cada aluno confeccionar seu próprio livro-portfólio com 12 gêneros discursivos pré-escolhidos e com comandos disparadores pré- estabelecidos que deveriam ser interpretados de maneira criativa4, culminando em produções textuais, reflexivas, intimistas, únicas e singulares, fruto do ato de interpretação e escrita. As características, particularidades e especificidades dos gêneros discursivos escolhidos foram trabalhadas previamente com os alunos5 para que as produções respeitassem as peculiaridades dos gêneros trabalhados,
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Há diversos estudos na literatura especializada que abordam o fator criatividade. Trata-se de um tema difícil de mensurar por implicar inúmeras questões, variantes e perspectivas. O termo aqui será tratado pelo viés de Mouchird e Lubart (2002) que entendem por criatividade o conjunto de capacidades que permitem uma pessoa comportar-se de modos novos e adaptativos em determinados contextos.
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A maioria dos gêneros discursivos presentes neste projeto já havia sido trabalhada nas séries anteriores com essa turma específica. Tal fato é legitimado, pois o professor-pesquisador leciona as disciplinas de Língua Portuguesa e Produção de Texto para a turma alvo desde 2010.
justamente para uma possível ressignificação de seu estilo pré-formatado (ADAM, 2017) e abrindo-se para novas possibilidades de escrita dos gêneros no que concerne aos elementos de tema, estilo e composição.
Tendo em mente o questionamento de como inserir as tecnologias em sala de aula de maneira eficiente em uma prática significativa, buscou-se por meio de uma prática de produções de textos investigar, principalmente, como alguns gêneros do discurso ganham novos contornos e ressignificações pelas interpretações dos comandos e sua escritura. Pontualmente, trazer a importância dos elementos de construção do texto para a elaboração/produção do livro-portfólio e verificar como se dá o processo criativo, o pensamento tecnológico e a humanização dos alunos/autores por meio da execução do projeto.
A exploração da criatividade, da interpretação, da iniciativa, do pensamento criativo, enriquecimento intelectual e humanização são fatores que necessitam ser desenvolvidos no ambiente escolar sob a justificativa de que o alunado precisa ser aprimorado para lidar com pessoas, máquinas, normas, sistemas, causas e consequências e precisarão ser ainda mais autônomos, criativos, curiosos, solucionadores de problemas e com uma visão do todo em seu futuro profissional. A produção de um livro-portfólio não poderia, portanto, encontrar ambiente mais fértil que as aulas de Produção de Texto no meio escolar em uma turma de 2ª série de Ensino Médio que já se prepara para os desafios da vida adulta e de mercado de trabalho.