• Nenhum resultado encontrado

2. Eixos de análise

2.3. A Interdisciplinaridade

Segundo ROCHA (2003), os primórdios do tratamento interdisciplinar na universidade brasileira surgiram a partir da realização do I Seminário Nacional sobre

Universidade e Meio Ambiente13, ocorrido no ano de 1986. Neste evento, que reuniu representantes de 51 universidades brasileiras, houve grande consenso em torno do reconhecimento da ocorrência de um aprofundamento da problemática ambiental e de que a solução para a questão passaria por uma abordagem interdisciplinar. No segundo encontro, realizado em Belém no ano de 1987, as discussões enfatizaram mais as bases epistemológicas da temática, demonstrando assim uma preocupação mais teórica com a questão. Foi somente, porém, no Primeiro Simpósio Sobre Meio Ambiente e Educação Universitária, ocorrido em São Paulo, que surgiu a seguinte indagação: “em se tratando de

educação ...como uma instituição tão frágil quanto a escola teria o poder de se opor e de sustar uma política de transformação da natureza em mercadoria e lucro, na medida em que essa é uma política aceita pela sociedade ocidental moderna?” (SEMA, 1988, p:101, apud ROCHA, 2003). Este, entre outros questionamentos, originados nas universidades, continuaram de forma mais segmentada e isolada, porém.

Não foi por acaso que o Brasil, por meio do Subprograma de Ciências Ambientais14 (CIAMB) do PADCT/MCT (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico) buscou promover um debate sobre a interdisciplinaridade nas Ciências Ambientais, organizando um volume publicado no ano de 2000. Na apresentação deste volume os editores expressam: “O desenvolvimento da sociedade no seu meio ambiente e

as suas interações são processos naturalmente interdisciplinares. O homem, todavia, na sua simplicidade de raciocínio, transformou este complexo conjunto de interações em elementos disciplinares para melhor entender e buscar resolver cenários. Enquanto a complexidade dessa sociedade envolvia pequenas interações espaciais e interdisciplinares, essa tendência foi útil e criou um bom avanço científico-tecnológico. O próprio desenvolvimento humano, no entanto, gerou novas pressões e interações ambientais que exigem da ciência uma indispensável postura interdisciplinar...” (PHILIPPI Jr. et al., 2000).

13 A realização deste primeiro Seminário foi uma proposta do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras, executado pela antiga Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA: 1986), este evento representa o primeiro de uma série de importantes encontros sob esse título, que trouxeram grande contribuição ao entendimento da complexidade da questão ambiental.

14 O Subprograma de Ciências Ambientais foi implementado com o objetivo de induzir a geração e a consolidação da base científica e tecnológica necessária para a efetiva inserção da dimensão ambiental no

Também não foi por acaso que em 2006, a 58ª. Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) teve como tema central a interdisciplinaridade: “SBPC&T: semeando interdisciplinaridade”, quando se buscou valorizar a aproximação entre ciência e tecnologia e o estreitamento das relações entre os diversos campos do saber.

Segundo COIMBRA (2000), por virtude da etimologia, a palavra interdisciplinaridade15 traduz o vínculo não apenas entre saberes, mas, principalmente, de um saber com outro saber, ou dos saberes entre si, numa sorte de complementaridade, de cumplicidade solidária, em função da realidade estudada e conhecida. Nem poderia ser de outra forma, segundo o autor, pois qualquer conhecimento, por mais abrangente que seja, será sempre parcial, jamais expressando plenamente a verdade do objeto conhecido, muito menos a sua inteireza, amplitude e totalidade. Analisando as variações da disciplinaridade o autor, assim, as define (p: 57 a 59):

“O intradisciplinar é tratado no exclusivo âmbito interno de uma disciplina. O escopo seria o aprofundamento de um aspecto inerente a uma ciência dada. Os conhecimentos são revolvidos no âmago de um determinado saber; não há, intencionalmente, preocupação com outros saberes de natureza diversa. No mais das vezes, as chamadas “pesquisas puras” desenvolvem-se no aconchego de uma ciência ou disciplina, podendo mesmo ser decorrência de uma opção metodológica, tendo-se em conta o objeto e os procedimentos próprios dessa ciência e o fim que se quer alcançar. O intradisciplinar pode muito bem ser um passo consciente, de início limitado em si mesmo, que depois poderá abrir-se para outros campos do conhecimento;

O multidisciplinar evoca basicamente um aspecto quantitativo, numérico, sem que

haja um nexo necessário entre as abordagens, assim como entre os diferentes profissionais. O mesmo objeto pode ser tratado por duas ou mais disciplinas sem que, com isso, se forme um diálogo entre elas. Uma abordagem multidisciplinar pode verificar-se sem que se estabeleça um nexo entre seus agentes. A bem da realidade cotidiana, cada qual continua a ver e a tratar o seu objeto com os próprios critérios unidisciplinares, sem preocupar-se com qualquer outro que seja. A universidade e a administração pública jorram exemplos

dessa natureza, o que explica, em grande parte, a ineficiência e a ineficácia de tais instituições. Fala-se de interdisciplinaridade, porém o “jogo do faz-de-conta” não consegue esconder as práticas limitadas e limitantes da visão unidisciplinar, com grandes prejuízos para a ciência e suas aplicações;

O interdisciplinar consiste num tema, objeto ou abordagem em que duas ou mais

disciplinas intencionalmente estabelecem nexos e vínculos entre si para alcançar um conhecimento mais abrangente, ao mesmo tempo diversificado e unificado. Verifica-se, nesses casos, a busca de um entendimento comum (ou simplesmente partilhado) e o envolvimento direto dos interlocutores. Cada disciplina, ciência ou técnica mantém a sua própria identidade, conserva sua metodologia e observa os limites dos seus respectivos campos. É essencial na interdisciplinaridade que a ciência e o cientista continuem a ser o que são, porém inter-cambiando hipóteses, elaborações e conclusões; e

O transdisciplinar é o que dá um passo além da interdisciplinaridade no tratamento

teórico de um tema ou objeto. Seria como um salto de qualidade, uma auto-superação científica, técnica e humanística capaz de incorporar à própria formação, em grau elevado, quantitativa e qualitativamente, conhecimentos e saber diferenciados. Mas há que ser um processo ordenado, quase sempre longo, que resulte numa síntese harmoniosa, abrangente e multifacetada. A transdisciplinaridade decorre de uma assimilação progressiva de outros saberes que venha a constituir como um software incorporado, qual segunda natureza, no conhecimento e na análise de uma problemática – por exemplo, a questão ambiental – de modo a possibilitar uma síntese holística ou uma cosmovisão de fato abrangente”.

Para COIMBRA (2000) não há dúvida de que a transdisciplinaridade pode constituir- se em verdadeira atração ideal na busca e na incorporação do conhecimento científico; é preciso saber, no entanto, se a trans, tal como a interdisciplinaridade, é um processo factível, e em que medida e modalidade o é.

Nessa perspectiva, para que a interdisciplinaridade se consolide no campo ecológico é imprescindível um profundo diálogo de saberes entre as ciências sociais e as ciências naturais, tal qual no “mundo da vida” (na visão de Habermas), onde as interconexões, interações e interdependências entre os universos biofísicos e sociais se efetivam de fato.

Na prática, esse diálogo de saberes se traduz em mudanças nos planos epistemológico, metodológico e institucional.

Adotando as acepções acima apresentadas, considera-se que a expansão da “cultura” interdisciplinar e a sua institucionalização deve ser favorecida por meio de políticas específicas. No âmbito acadêmico da pós-graduação nacional, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) tem um papel crucial,

principalmente em razão de ter entre as suas atribuições16 a tarefa de coordenar a avaliação da pós-graduação nacional. A criação de mecanismos efetivos de expansão da “cultura” interdisciplinar na formação acadêmica em nível de pós-graduação aprofunda a inserção da prática interdisciplinar na comunidade científica e acadêmica e expande o seu efeito multiplicador, esta é a hipótese desta análise empírica. A “cultura” interdisciplinar pode se enraizar através do estabelecimento de meios, metodologias e formas de gestão e a pós- graduação é o espaço ideal para a formação de uma nova geração de cientistas brasileiros competentes para atuar em um contexto interdisciplinar, principalmente envolvendo a questão ambiental.

Até agora apresentamos uma entre tantas abordagens de como a ciência é influenciada pelos processos sociais e como estes influenciam a conformação da sociedade. Também vimos que a emergência da questão ambiental influenciou a diversificação de significados do termo ecologia e que a complexidade da questão ambiental demanda, no mínimo, um diálogo interdisciplinar, ao mesmo tempo em que essa “cultura” está em processo de organização no sistema nacional de ciência e tecnologia. Para completar o conjunto de pressupostos deste estudo, falta apresentar como a ecologia e as suas sub- disciplinas podem servir às necessidades colocadas quando se busca gerenciar o planeta com vistas a reduzir a erosão progressiva da diversidade biológica. Com esse enfoque, a próxima seção trata, especificamente, da Biologia da Conservação.

16 Entre as outras atribuições estão: (i) a elaboração de estudos e subsídios que auxiliam o Ministério da Educação na definição dos planos e políticas de desenvolvimento da pós-graduação nacional; (ii) a formação de recursos humanos de alto nível no país e exterior, mediante programas de investimento em bolsas de estudo, auxílios e outros mecanismos; (iii) a promoção da cooperação científica nacional e internacional; (iv)