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2.4 METODOLOGIAS DE ENSINO E AVALIAÇÃO

2.4.1 A interdisciplinaridade no curso de Ciências Humanas – Licenciatura

O debate sobre a interdisciplinaridade vem ganhando cada vez mais adesão de pensadores, principalmente nas áreas de ciências humanas e sociais tais como: Japiassu (2012), Fazenda (2008), Paviani (2008), Pombo (2004), Jantsch & Bianchetti (2011), dentre outros.

De acordo com Pombo (2004) o mundo em que vivemos reclama a contribuição da interdisciplinaridade e integração dos saberes. Já na visão de Trindade (2008), a prática interdisciplinar pressupõe uma ruptura com o tradicional e com o cotidiano repetitivo das tarefas na escola. O professor que assume uma prática interdisciplinar transita por regiões fronteiriças flexíveis onde há uma convivência com o “outro” sem abrir mão das suas características, possibilitando uma interdependência dialogada que

promove transformações. O movimento da interdisciplinaridade, portanto é caracterizado por atitudes ante o conhecimento disciplinar. De acordo com os autores é possível compreender que não há um conceito fechado de interdisciplinaridade, sendo assim não se pode afirmar o que é ou não é interdisciplinar. Ela é uma atitude, uma prática e sobre ela podemos tecer considerações, problematizações com o objetivo de avançar no aperfeiçoamento desta prática. De acordo com Paviani (2008), a interdisciplinaridade pode ser uma estratégia de flexibilização e integração das disciplinas, por outro lado ela pode tornar-se um mal-entendido, principalmente quando é assumida como uma solução absoluta, anulando totalmente a existência das disciplinas. Na opinião do autor, a verdadeira interdisciplinaridade busca preservar as disciplinas e não eliminá-las. Sua função é auxiliar na compreensão, no limite e na função das disciplinas.

Para o autor, na tentativa de buscar uma definição aproximada de interdisciplinaridade pode-se afirmar que ela é uma proposta metodológica ou uma forma de aplicar conhecimentos de um componente curricular em outro. Ela também pode ser uma forma de colaboração entre professores que por muitas vezes querem buscar construir algo para além dos campos disciplinares fragmentados. Com a prática interdisciplinar há uma mudança nos modos de perceber a realidade. De acordo com o autor as causas principais do surgimento da interdisciplinaridade estão no excesso de rigidez, artificialidade e a falsa autonomia das disciplinas, as quais não permitem acompanhar as mudanças no processo pedagógico e a produção de conhecimentos novos. Ela aparece como uma necessidade epistemológica e também como uma necessidade política de organização do conhecimento e institucionalização da ciência.

Fundamentado nessas reflexões teóricas, o Curso de Ciências Humanas – Licenciatura constitui-se dentro de uma perspectiva interdisciplinar, a qual está presente principalmente na constituição de todo o seu ementário, que foi pensado, desde o primeiro semestre do curso, para que o aluno esteja familiarizado e seja capaz de realizar conexões entre as quatro áreas do conhecimento: História, Geografia, Filosofia e Sociologia. A seguir, exemplificaremos como isto ocorre nas ementas dos componentes curriculares.

2.4.1.1 A interdisciplinaridade e as ementas do curso

Demonstraremos inicialmente como a interdisciplinaridade está presente na constituição das ementas de dez componentes curriculares que constituem a espinha dorsal do curso. Estes componentes têm o objetivo de construir uma concepção teórica das ciências humanas numa perspectiva interdisciplinar. Os componentes são: Teoria das Ciências Humanas I; II, III, IV, V, VI, VII, VIII e IX.

Exemplificando, a ementa de Teoria das Ciências Humanas I propõe abordar os estudos de autores do período antigo ao clássico, dos pré-socráticos a Aristóteles.

Propõe apresentar os autores dos períodos antigo e clássico da filosofia ocidental.

Compreender os conceitos de arché e physis nos pré-socráticos. Distinguir filosofia, mito, ciência e religião. Problematizar o movimento sofista na sociedade grega.

Conhecer o pensamento socrático, de Platão e das Apologias. Explorar a maiêutica e dialética enquanto métodos de investigação e do discurso. Estudar a heurística aristotélica e o seu envolvimento com a filosofia de Platão. Aqui é possível perceber que para compreender a concepção de homem é preciso adentrar no campo da filosofia e antropologia; para compreender a concepção de sociedade é necessário o aporte da sociologia. O que se verifica é que dentro deste componente curricular há o diálogo interdisciplinar de campos tidos como disciplinares (História, Filosofia e Sociologia).

A ementa do componente Teoria das Ciências Humanas II contempla os seguintes temas: afilosofia da história a caminho da ciência histórica. A constituição da ciência histórica no século XIX com o positivismo e o historicismo. Diferenças, aproximações, conflitos e avanços entre esses dois paradigmas. Proporcionar os fundamentos teóricos que possibilitaram a emergência e a efetivação da história como ciência e os seus desdobramentos. Debater sobre as principais correntes teóricas da história. Diferenciar a filosofia da história da ciência histórica do Séc. XIX.

Compreender o pensamento da ciência histórica do séc. XIX e suas contribuições. Para se compreender a ciência histórica é necessário conhecer o pensamento vigente em cada período, o que por si só oportunizará um diálogo com a Filosofia. A abordagem positivista da história também necessitará do diálogo com a Sociologia, fazendo com isso, a interdisciplinaridade em três áreas.

O componente curricular Teoria das Ciências Humanas III contempla em seu ementário: a ciência geográfica na antiguidade (o estudo do conhecimento geográfico).

A geografia como ciências no século XIX. As correntes do pensamento geográfico na atualidade (Geografia quantitativa, crítica, humanista/cultural, anarquista e pós-colonial.

Principais categorias de análise da geografia (espaço, região, território, lugar, escala, paisagem, redes, natureza) e aplicações na prática pedagógica. Para abordar a história da ciência geográfica é necessário dialogar com a filosofia, especificamente com os primeiros filósofos gregos. As expedições marítimas na Renascença também contribuíram para a formação do conhecimento geográfico - tal abordagem necessita de um diálogo com a História.

No componente Teoria das Ciências Humanas IV a ementa está assim constituída: o desenvolvimento das ciências sociais no Brasil. A formação do pensamento social brasileiro na compreensão dos principais problemas brasileiros. Para se compreender a formação do pensamento social brasileiro é necessário um diálogo com a história do Brasil e seus pensadores, onde se efetiva, portanto, um diálogo com a História e Filosofia.

Em Teoria das Ciências Humanas V os seguintes temas são abordados:

epistemologia das ciências humanas. As tradições epistemológicas. Paradigmas e modelos. A cientificidade. Para tal abordagem das ciências humanas é necessário um diálogo entre as áreas da História, Filosofia, Sociologia e Geografia.

No componente curricular, Teoria das Ciências Humanas VI são discutidos os seguintes pontos: O marxismo e os Annales. O combate ao positivismo. O diálogo com as Ciências Sociais. Da história estrutural à história em “migalhas”. Novos objetos e novas fontes. Neste componente é possível perceber o diálogo entre a História e a Sociologia.

Em Teoria das Ciências Humanas VII são estudados: A origem e evolução do pensamento geográfico no Brasil, suas correntes e pensadores. Leitura das principais transformações socioambientais brasileiras no prisma geográfico. Para a compreensão da evolução do pensamento geográfico faz-se necessário uma abordagem histórica do Brasil, assim como necessita-se de um diálogo com a Sociologia para a compreensão das transformações socioambientais.

Em Teoria das Ciências Humanas VIII são estudados: conceitos estruturadores discutidos no campo das Ciências Sociais, e que compõem os eixos temáticos da Sociologia no ensino médio. Os temas, conceitos e questões dos diferentes campos de conhecimento das Ciências Sociais: Antropologia, Ciência Política e Sociologia. Nestas temáticas é possível perceber um diálogo da sociologia com o campo educacional, especificamente na questão do currículo e história da educação.

Em Teoria das Ciências Humanas IX é contemplado o estudo de autores e vertentes filosóficas do período moderno.O universo de interesse da filosofia moderna nas suas correntes principais. As posições teóricas e práticas do esclarecimento europeu, bem como as doutrinas centrais do racionalismo e do empirismo nos autores Descartes, Locke e Hume. Introdução da filosofia crítica de Kant especificando as questões-chave elaboradas pelo seu pensamento. Neste componente é realizada uma abordagem histórica da filosofia o que remete a um diálogo com a História moderna ocidental contextualizando historicamente o pensamento dos filósofos, dialogando com todos os componentes que trabalham com o período moderno em especial o Iluminismo e o Renascimento.

Além dos componentes acima citados, a título exemplificativo, ainda há outros que possuem viés interdisciplinar, como os que seguem abaixo. Na primeira coluna consta o nome do componente e na segunda os campos disciplinares com que este componente dialoga:

COMPONENTE CURRICULAR DIALOGA COM O COMPONENTE

Formação Econômica, Social e Política do Brasil I

Antropologia, Políticas Públicas em educação, História e Cultura dos Povos Originários, Africanos e Afro-brasileiros, Sociologia

Geografia Física Meio Ambiente e Cidadania, Geografia Humana Fronteira, região e sociedade Antropologia, Sociologia Clássica, Formação dos

Estados Americanos, Sociologia Contemporânea II, História Moderna, Estado e Sociedade na América Latina

Ética e espaços educacionais Antropologia, Fundamentos da Filosofia, Fundamentos da Educação, Didática

Cabem ainda, algumas considerações sobre os componentes curriculares do primeiro semestre do curso, a saber: Fundamentos da História, Fundamentos da Geografia, Fundamentos da Filosofia, Fundamentos da Sociologia e

Interdisciplinaridade nas Ciências Humanas. Todos estes componentes foram pensados para fornecer uma primeira noção introdutória para o aluno que inicia sua formação interdisciplinar. Os aspectos fundantes de cada área do conhecimento, a saber: sua área de atuação, objeto de estudo, conceitos formadores. Conjuntamente, há a oferta da disciplina de Interdisciplinaridade nas Ciências Humanas, onde o aluno poderá tomar contato com os principais autores que abordam o tema da interdisciplinaridade, bem como com o paradigma epistemológico das ciências humanas enquanto área de conhecimento. Tal disciplina também contará com a prática em sua carga horária, onde o aluno investigará na escola, seu futuro campo de atuação, como a interdisciplinaridade em ciências humanas vem sendo trabalhada e já localizar suas possibilidades e dificuldades.

Ainda, as disciplinas de Metodologia das Ciências Humanas I e II também pretendem fornecer este aporte ao estudante. Na primeira, são estudados métodos de pesquisa em ciências humanas, como o método positivista, o histórico-dialético e o fenomenológico. Na segunda, a ênfase será nos pressupostos teóricos e as práticas que envolvem as metodologias de ensino e aprendizagem das Ciências Humanas na educação básica, com ênfase nas metodologias ativas, participativas, cooperativas.

Evidentemente, para além de seu ementário (ensino), o curso tem na extensão e na pesquisa, a efetivação de sua proposta interdisciplinar. Projetos como o PIBID, PET e Residência Pedagógica já vêm sendo implementados ao longo da história do curso, todos de forma interdisciplinar nas escolas do município.