1. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
1.2 Refletindo sobre História Ambiental
1.2.2 A interdisciplinaridade
A característica interdisciplinar da História Ambiental, abarcando conhecimentos geográficos, históricos, biológicos, sociais, entre outros, pode contribuir para o entendimento de problemas da atualidade, como o aquecimento global, por exemplo, pois representa uma alternativa para a análise integrada dos ecossistemas, que “abarca tanto a sua dimensão humana (a história das populações que com ele interagiram), como seus atributos físicos e biológicos (sua composição, estrutura e funcionalidade)” (OLIVEIRA, 2007:12).
Drummond (1991) cita a interdisciplinaridade como outra característica metodológica e analítica da história ambiental. Para o autor, esta característica diz respeito ao diálogo sistemático da História Ambiental com quase todas as ciências naturais – inclusive as aplicadas – pertinentes ao entendimento dos quadros físico e ecológico das regiões estudadas. Ainda recorrendo a Drummond (1991), os historiadores ambientais dependem profundamente das ciências naturais, pois precisam entender o funcionamento dos ecossistemas para avaliar o papel da sociedade dentro deles. Desta forma, as ciências naturais além de serem “aliadas” podem ser partes do objeto de estudo. Historiadores ambientais usam textos de geologia, geomorfologia, climatologia, meteorologia, biologia vegetal e animal, ecologia, entre outros.
Nesse sentido, Worster8 (1991), chama a atenção para as novas línguas que o historiador ambiental é desafiado a aprender. Conceitos de geologia que fazem recuar até o Pleistoceno, o Siluriano, o Pré-Cambriano. Gráficos da climatologia, nos quais as temperaturas e as chuvas oscilam para cima e para baixo através dos séculos, indiferentes à estabilidade de reis e impérios. A química dos solos, com os seus ciclos de carbono e nitrogênio e os seus índices de pH mudando com a presença de sais e ácidos, traçando os limites da agricultura. Mas é acima de tudo a ecologia, que investiga as interações entre os organismos e entre estes e os seus ambientes físicos, quem mais pode ajudar o historiador ambiental. Com sua característica interdisciplinar, a História Ambiental pode voltar muito tempo atrás.
Entretanto, nem sempre a história ambiental é voltada para o passado, pois, como ressalta Oliveira (2007), “muitos dos processos históricos que produziram as
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atuais paisagens são ainda correntes” (p.12). Portanto, a História Ambiental possibilita uma nova perspectiva à disciplina de história tradicional, pois se pode “contar” a história de baixo para cima, daqueles que agiram diretamente na transformação do espaço, através do contato direto com ideais, experiências e valores colhidos em entrevistas, nas páginas de jornal e revistas, bem como na própria observação da paisagem nos trabalhos de campo. O trabalho de campo é uma das características metodológicas e analíticas da história ambiental apontada por Drummond (1991).
Segundo o autor a que se está recorrendo
frequentemente os historiadores ambientais viajam aos locais estudados e usam as suas observações pessoais sobre paisagens naturais, clima, flora, fauna, ecologia e também sobre as marcas rurais e urbanas que a cultura humana deixa nessas paisagens [...]. Marcas essas que nem sempre constam em documentos escritos (p. 07).
Para Worster (1991:199), “os historiadores ambientais insistem em ir mais fundo até encontrar a própria terra, entendida como um agente, uma presença na história”. Para este autor, há três grupos de perguntas que a história ambiental deve procurar responder, cada um deles exigindo contribuições de outras disciplinas e aplicando métodos especiais de análise.
Sobre as perguntas, Worster (1991) descreve:
O primeiro trata do entendimento da natureza propriamente dita, tal como ela se organizou e funcionou no passado [...]. O segundo [...] introduz o domínio socioeconômico na medida em que este interage com o ambiente. Aqui nos preocupamos com ferramentas e trabalho, com as relações sociais que brotam desse trabalho, com os diversos modos que os povos criaram para produzir bens a partir de recursos naturais. [...] Por fim, formando um terceiro nível de análise, para o historiador, vem aquele tipo de interação mais intangível e exclusivamente humano, puramente mental ou intelectual, no qual percepções, valores éticos, leis, mitos e outras estruturas de significações se tornam parte do diálogo de um indivíduo ou de um grupo com a natureza (p. 202).
Martins (2007) compara a interdisciplinaridade como “colheitas nas hortas vizinhas” (p. 51). “Colheita” que pode ocorrer entre as ciências (interciências) - Geografia, Economia, Biologia, Sociologia e outras, ou entre os campos da própria História (intra-históricos) - História Econômica, História Social, História Política e outras. Quanto às ciências sociais, Drummond (1991) reflete sobre o novo olhar para o qual estas se voltaram no fim do século XX, frente ao crescimento dos movimentos sociais ambientalistas e de crises ambientais localizadas. Foi necessário ir além do
marco “humanista”, superando seus próprios paradigmas, pois não mais comportava pensar a sociedade sem se ancorar no mundo natural, tanto que muitos movimentos ambientalistas foram liderados por cientistas naturais. Paul Ehrlich (biólogo), Garrett Hardin (biólogo), Rachel Carson (bióloga), E. F. Schumacher (engenheiro), Amothy Lovins (físico) e José Lutzemberger (engenheiro químico) são alguns nomes resgatados por Drummond (1991) que lideraram movimentos ambientalistas na segunda metade do século XX.
No que se refere à interdisciplinaridade com a Geografia, é oportuno observar o que Oliveira (2007) chama de “pilares”, nos quais a História Ambiental se apóia para compreender os processos que promovem a transformação da paisagem: a cultura e o território. A cultura diz respeito “às formas de apreensão de recursos naturais por parte das sociedades ao longo do tempo” (p.13). O ambiente construído expressa a cultura. “O território comporta múltiplas dimensões: simbólica, jurídica, territorial, e se refere ao espaço geográfico sobre o qual um grupo encontra e estabelece suas condições de sobrevivência” (op. cit). Os historiadores ambientais vêm se apoiando em muitos geógrafos para chegar as suas conclusões. “Os geógrafos, tal como os historiadores, tendem a ser mais descritivos do que analíticos” (WORSTER, 1991:213).
A História Ambiental, bem como a paisagem, extrapolam fronteiras nacionais, diferentemente da história tradicional, centrada na política e no Estado Nacional, dos grandes homens, personalidades e feitos. Entretanto, segundo Drummond (1991:05), “geralmente as análises focalizam uma região com alguma homogeneidade ou identidade cultural”. Isso assinala a afinidade da História Ambiental com a História Natural. Uma área de floresta, uma região árida, as margens de um rio, entre outros, são exemplo de cenários fisicamente circunscritos, usufruídos pelos historiadores ambientais para suas análises. Cenários que extrapolam seus limites físicos quando a estes são atribuídos recortes culturais ou políticos, como por exemplo, “as terras de povos nativos invadidas por migrantes europeus” (DRUMMOND, 1991:05).
Para finalizar esta reflexão sobre história ambiental recorremos novamente a Drummond (1991). Segundo o autor, a história ambiental é um “campo que sintetiza muitas contribuições e cuja prática é inerentemente interdisciplinar” (p.08). Quanto a sua originalidade, está na “disposição explícita de “colocar a sociedade na natureza” e no equilíbrio com que busca a interação, a influência mútua entre sociedade e natureza” (op. cit). Isso significa que as sociedades não externas à natureza, e sim são integrantes da natureza. Ao “se apropriar, circular, transformar, consumir e excretar materiais e
energias provenientes do mundo natural por um lado se “socializa” frações da natureza e por outro se “naturaliza” a sociedade (TOLEDO e MOLINA, 2010:04), produzindo e reproduzindo vínculos entre ambos, sociedade e natureza, num processo de metabolismo social. Porém, determinadas ações produzem impactos que resultam em “reações” do mundo natural, para as quais os homens nem sempre têm controle das consequências e nem uma previsão totalmente confiável.