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A interface entre a polidez e o poder na linguagem do domínio jurídico

CAPÍTULO III A PRAGMÁTICA LINGUÍSTICA

3.7 A interface entre a polidez e o poder na linguagem do domínio jurídico

Em toda interação comunicativa, deve-se levar em consideração o fenômeno do poder que pode levar a situações conflituosas as quais podem ser contornadas pela polidez linguística. O poder consiste em um fenômeno social, exercido em diversos contextos, sejam eles caracterizados por uma relação assimétrica (como nas relações ditatoriais), sejam em contextos em que a assimetria é mínima (como entre grandes amigos, por exemplo). Em toda interação, portanto, grosso modo, pode-se dizer que há exercício de poder, ainda que inconsciente.

Segundo Locher (2004), o poder é de natureza relacional, possibilitando demonstrar a posição de um indivíduo sobre o outro, pela assunção de uma postura privilegiada, enfatizando a assimetria, ou por uma postura moderada, estabelecendo solidariedade com o outro. Essa autora valoriza o exame da interação entre as pessoas, a fim de detectar modos de negociação na construção de relacionamentos sociais, sendo a linguagem interferente nessa mediação. Sem dúvida, a importância que a linguagem assume nas interações comunicativas estabelece um elo com o poder, revelando-o, criando-o, ou mesmo obscurecendo-o.

O poder expresso pela linguagem, segundo Locher (2004), advém de motivações ideológicas ou, como nas propagandas, o poder linguístico é explorado deliberadamente. Mas Locher (2004) aponta também a polidez linguística como responsável pelas relações

interpessoais, reconhecendo a dificuldade de teorizar sobre ela, valorizando a teoria de Brown e Levinson (1987), os quais preconizam que a polidez linguística se materializa em estratégias capazes de amenizar ou evitar conflitos, preservando as relações interpessoais.

Sendo fato que a linguagem em uso é capaz de definir posições sociais, é de destacar-se que, no domínio do discurso jurídico, a linguagem envolve alguém autorizado a emitir determinados discursos e o uso que dela se faz influencia as pessoas e o ambiente em que os atos linguísticos são realizados. Ainda que, atualmente, se busque uma maior aproximação do Judiciário com a sociedade, o discurso jurídico é, reconhecidamente, definido como um discurso de poder, já tendo sido objeto de estudo de cientistas políticos, de sociólogos, filósofos, historiadores, juristas e antropólogos, havendo, nas últimas décadas, despertado o interesse dos linguistas.

Segundo Bourdieu (1977), o poder da palavra é o poder de mobilizar a autoridade acumulada pelo falante e concentrá-la num ato linguístico, caso evidente no discurso jurídico. Falar em poder, no entanto, implica entender em que sentido essa palavra está sendo usada, já que ela não representa um ser em si próprio, mas uma relação ou conjunto de relações das quais decorre a possibilidade de agir e produzir efeitos sobre indivíduos ou grupos de indivíduos. O poder se manifesta nas relações sociais e não é imutável, já que depende da dinâmica situacional do ato comunicativo. É incontestável, por exemplo, a manifestação de poder nas relações familiares, mais comumente entre pais e filhos.

Mas essa interferência na atividade de outros indivíduos, caso se caracterize como indevida, instaura relações hierárquicas e estabelece a dominação. Assim a produção apropriada dos atos de linguagem deve levar em conta as relações sociais e os papéis que cada um dos interlocutores se atribui.

Para melhor entender essa noção de poder, aplicada, especificamente, aos atos de linguagem dos OJ, foram válidas algumas das reflexões de Teun van Dijk (2008). Ele denomina poder social ao controle de um grupo sobre outros grupos e seus membros, alertando que, quando esse poder é exercido em interesse próprio, desconsiderando o interesse de outrem, se dá o abuso de poder, envolvendo, por vezes, o discurso, sendo esse controle uma forma bastante difusa de exercício de poder na sociedade.

Tal relação entre discurso e poder se torna indissociável, passando a interessar ao opressor o controle dos contextos em que se dão os atos de fala, com o fito de conseguir controlar as mentes e, por consequência, os discursos sociais (cf. 2008, p.17-18). Segundo a afirmação de van Dijk (2008, p.43), “o exercício e manutenção do poder social pressupõem uma estrutura ideológica. Essa estrutura [...] é adquirida, confirmada ou alterada,

principalmente, por meio da comunicação e do discurso”. Isso implica reconhecer que o poder social sofre interferência do “capital simbólico”, de que fala Bourdieu (1977), construído pelas elites, que, como assevera van Dijk, “são os fabricantes do conhecimento, dos padrões morais, das crenças, das atitudes, das normas, das ideologias e dos valores públicos. Portanto, seu poder simbólico é também uma forma de poder ideológico” (2008, p.45).

Supondo-se um contexto de poder e dominação social, as ações comunicativas sofrem restrições nos atos de fala, como já enfocado por Colares (2003), na interação dialógica no mundo jurídico, quando, por exemplo, num interrogatório, as questões são formuladas de modo a assegurar a obtenção de um determinado ato de fala, sem falar que, no caso de réus, sua fala está ameaçada de ser usada contra ele próprio, associada, ainda, a fatores como classe social, gênero e raça.

Esse contexto de poder restritivo não se restringe às salas do tribunal e pode-se fazer sentir nas ações comunicativas dos OJ, bem como nos atos de fala das partes demandadas. Assim, nesta tese, considera-se que o exercício da função de OJ se dá num complexo sistema por vezes hierarquizado de desigualdade social, no qual se pode reproduzir o controle dos atos de fala, relacionando discurso e ação social numa perspectiva de manipulação discursiva ou não, no momento da interação. Buscou-se, dessa forma, analisar se, porventura, usos equivocados de certos atos de fala proferidos pelo OJ provocariam conflito para o cumprimento do mandado e se seu oposto suavizaria a interação, observando se ocorre, nessa interação, um uso persuasivo da linguagem, com vistas à manipulação da parte ouvinte.

Entretanto - deve-se destacar - é possível diferenciar a manipulação com intuito dominativo da manipulação persuasiva. Nesta, o interesse se volta para a consecução de um objetivo do falante, o qual procura adequar seu ato de fala à situação que se lhe apresenta, de modo que o outro não se interponha ao que ele almeja e, até, possa vir a colaborar para o alcance da meta desejada pelo falante; já naquela, desconsidera-se a colaboração do outro, sendo o discurso do falante, pela sua posição de sujeito social, imposto ao outro, a qual lhe outorga o direito de “controlar” a situação discursiva.

Nesta pesquisa, buscou-se, na fala do OJ, detectar as abordagens linguísticas que atendam, de preferência, à manipulação persuasiva, não sendo, no entanto, descartados os momentos em que se percebeu a estratégia de manipulação dominativa, que, por vezes, se fez necessária.

Trabalhando com o conhecimento linguístico-pragmático, tornou-se basilar apontar a aplicabilidade da sociopragmática do discurso jurídico aos atos linguísticos dos OJ, objeto do capítulo a seguir.