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A interferência do institucionalismo

CAPÍTULO 2 As redes organizacionais

2.4 A interferência do institucionalismo

Em decorrência dos constantes conflitos entre os indivíduos, organizações e comunidades, são requisitadas algumas condições específicas para solucioná-los ou evitá-los. Primeiro, essas condições surgem em função da necessidade de assegurar os direitos dos envolvidos; segundo, por causa do surgimento do mercado, com suas imperfeições, apesar da insistência de alguns economistas em considerá-lo perfeito. Para mediar as relações conflituosas em torno de interesses específicos, estabelecem-se instâncias dotadas de poder e

‘legitimidade’, nomeadas instituições, e por elas possibilita-se articular o jogo dos interesses individuais, comunitários, classistas, sociais, políticos e econômicos, constituindo-se um conjunto de leis, normas e regras explícitas ou implícitas, porque, conforme Enriquez (1997, p.71), “uma sociedade não pode ser fundada nem durar se não elaborar as instituições” com as funções de orientação e de regulação social global, intervindo no nível da política, dos projetos, escolhas e “limites que a sociedade (seus cidadãos e seus dirigentes) se outorgam”. Tratam-se de mecanismos de controle da vida social, política e econômica.

Selznick (1996, p.271) propôs que a institucionalização refere-se a uma idéia neutra, sendo entendida como “a emergência da disciplina, do estável, dos padrões socialmente integrados ao largo do instável ou atividades limitadamente técnicas”. Disso observa-se a força contida nas instituições, no sentido de controlar e limitar a atuação dos indivíduos pertencentes a uma comunidade, tratando-se efetivamente de um aparato de grande poder e cuja legitimação ocorre no interior, mais precisamente, das ideologias hegemônicas, num determinado momento. Selznick chama a atenção para dois institucionalismos: o ‘velho’ e o ‘novo’, cujas manifestações se dão de forma concomitante e conflitante, embora a presença do novo institucionalismo decorra da existência do velho, que funciona como um terreno para sua expansão (SELZNICK, 1996). Considera-se como ‘velho’ institucionalismo a forte preocupação com a vitalidade e coerência das instituições no desempenho de seus papéis; já o ‘novo’ institucionalismo, dentro da sociologia e teoria das organizações, apresenta uma rejeição: ao modelo de ator-racional, às instituições como variáveis independentes, a uma orientação para os aspectos culturais e cognitivos e ao interesse pelas propriedades supra- individuais.

Uma vez legitimadas, as instituições contêm os mitos e rituais daquele ambiente em que estão inseridas e conformam suas estruturas de acordo com tais preceitos, obedecendo a uma ou várias racionalidades que lhes garantam a capacidade de atuar de forma supra-

organizacional. Os espaços comunitários, mesmo informalmente, impõem limites aos seus componentes, no sentido de reduzir os custos da interação humana, tal qual ocorre no mundo institucionalizado (NORTH, 1990). Então, o que fica evidente no escopo das instituições é a questão da burocracia, a qual por si só já atua de modo limitador no contexto das relações formais, e portanto discute-se a sua presença e impactos nos relacionamentos, porque

nossa sociedade necessita desesperadamente de caminhos organizados para lidar com os problemas sociais; nós não podemos confiar unicamente nas estratégias do mercado. O spectrum da burocracia ainda abriga e repele, assim como solapa a confiança do público e enfraquece o suporte da ação coletiva.9. (SELZNICK, 1996, p.276).

Isso ratifica a percepção das dificuldades vivenciadas pelo homem em lidar de forma participativa e altamente interativa no contexto da coletividade, principalmente no ambiente do mercado competitivo ocidental. Então, Selznick (1996, p.277) reclama o olhar para “exigências pragmáticas da prática social, incluindo democracia e justiça, bem como eficiência e eficácia”.

Ainda no âmbito do institucionalismo DiMaggio e Powell (1983) discutiram a isomorfia imposta às organizações que vivenciam um determinado conjunto de condições ambientais e institucionais. Essa faceta do institucionalismo se caracteriza basicamente pela capacidade de arbitrariamente determinar comportamentos, atitudes, estruturas, padrões de relacionamento e futuros status, mesmo que isso represente ou signifique colocar todos, homogeneamente, numa mesma condição de “rua sem saída”. Para esses autores a institucionalização decorre de uma estruturação constituída de quatro partes:

1) aumento da grandeza da interação entre as organizações em um dado campo; 2) a emergência de nítida estrutura interorganizacional de dominação e padrões de coalizão; 3) um aumento da carga de informação com a qual a organização deverá

9 “Our society desperately needs organized ways of dealing with social problems; we can not rely solely on market strategies. Yet the spectre of bureaucracy still haunts and repels, still saps public confidence and weakens support for collective action.”

competir no seu ambiente; 4) o desenvolvimento de uma consciência mútua entre os participantes de um de grupo de organizações envolvidas num projeto comum (DiMAGGIO e POWELL, 1983, p.65).

Nesse confronto entre o velho e o novo institucionalismo, pouca diferença é percebida. Observe-se que o velho institucionalismo incorporou o estrutural-fucionalismo da sociologia à análise das organizações, tendo como proposição inicial distinguir as duas faces presentes nas organizações formais: primeiro a face de “economia”, cuja ênfase coloca-se nos aspectos racionais de ação instrumental; segunda faceta, tipicamente sociológica, configura as organizações como sistemas de ação social com ênfase no normativo e na personalidade (PRATES, 1999), embora March e Olsen (1984) acreditem que o novo institucionalismo ressalta a possibilidade de interpretações inconsistentes e conflituosas da organização, ambiente e identidade dos atores envolvidos, a partir das regras, procedimentos, programas, repertórios comportamentais e crenças.

Mesmo havendo no novo institucionalismo abordagens articuladoras de considerações macrosociológicas, a homogeneidade ambiental, orientada pela isomorfia institucional, substitui o conceito de identidade organizacional. Por isso, concordamos com Prates (1999, p.15) na afirmação de que há um “empobrecimento teórico nas versões do novo institucionalismo ao desconsiderar ou negligenciar o problema da possibilidade de ação política da organização institucionalizada vista como ator coletivo”.

O trabalho com o conteúdo do institucionalismo nos possibilita afirmar que a configuração de redes organizacionais demanda, no momento inicial, uma forte interação entre indivíduos e organizações, no sentido de alcançar o objetivo proposto de criar uma rede atendendo aos objetivos inerentes a ela própria. Porém, com o passar do tempo, a rede adquire formatos diferentes daquele que a gerou, incorrendo inclusive na padronização de ações, comportamentos e hierarquização, sendo que esse processo pode ser denominado “institucionalização em prol dos interesses da parte mais forte”.

O institucionalismo é formalizado a partir de um conjunto de relações com outras organizações envolvidas num dado campo e também da análise do esquema burocrático a partir de uma perspectiva weberiana, porque, segundo Weber (1947), a burocracia resulta de três causas: competição entre as empresas no mercado, competição entre os Estados, os quais incrementam seus papéis de controladores do seu staff e cidadãos, e as demandas da burguesia por leis que a proteja. Nesse momento, forma-se o escopo justificador do institucionalismo, que, para DiMaggio e Powell (1983), consiste de quatro partes:

a) Incremento das interações entre as organizações em campo;

b) A emergência de formas definidoras das estruturas interorganizacionais de dominação e parcerias de coalizão;

c) Um incremento da necessidade de informações das quais as organizações não devem prescindir;

d) Desenvolvimento de uma consciência mútua entre os participantes que fazem parte de uma organização em comum.

Uma outra face descortinada pelo institucionalismo refere-se ao processo de homogeneização que abraça as organizações participantes de um determinado contexto seja ele qual for. Tal homogeneização decorre do isomorfismo descrito como "processo limitador que força uma unidade na população a parecer com outras unidades que enfrentam as mesmas condições ambientais" (HAWLEY, 1968, apud DiMAGGIO e POWELL, 1983, p.66). O isomorfismo, então, apresenta-se em dois tipos: competitivo e institucional, sendo que este último subdivide-se em: a) isomorfismo coercitivo; b) isomorfismo mimético; c) isomorfismo normativo. Todos esses isomorfismos caracterizam-se finalmente como processo de socialização forçada, no sentido de conter as adversidades que o ambiente apresenta ou possa

apresentar. Daí que a teoria dos custos transacionais é recuperada para fazer frente e sustentar o ambiente institucional, bem como para regular as relações entre as firmas envolvidas. Os custos que são transacionados pelas e entre as organizações num contexto de redes, apresentam caracteristicamente a condição de redução, maximização do uso, fortificação das relações, ampliação das bases de interação e oportunidades. E, num círculo vicioso, a teoria dos custos transacionais busca no institucionalismo o fundamento e o suporte para sua realização. Sobre esses aspectos, há uma “demanda” para que a liderança interfira no processo de mimetização e, consequentemente, coordene o equilíbrio dos custos de transação.

As relações no interior das redes não ocorrem sem uma consideração acerca dos custos que as envolvem. Seja qual for o tipo de rede, há um custo de transação embutido. O desdobramento das redes se dá num contexto de coletividade que analisa os ganhos a serem obtidos, assim como a agregação de valor à relação. Olson (1999) afirma que, quando um grupo objetiva um benefício coletivo do cotidiano no lugar de um preço elevado por uma contenção de produção, o grupo percebe que a primeira unidade do benefício coletivo obtida será mais dispendiosa do que as subsequentes unidades do mesmo benefício, em decorrência de uma lentidão ou até mesmo da composição de uma organização para alcançar o benefício, podendo-se destacar duas situações distintas a serem consideradas pelo indivíduo:

a) se o ganho total que ele obterá com o provimento de determinada quantidade do benefício coletivo excederá o custo total dessa quantidade de benefício coletivo b) saber que quantidade do benefício coletivo ele deverá prover, se alguma

quantidade for provida

A resposta depende, então, da relação entre custos e ganhos marginais, mais do que totais (OLSON, 1999, p.39)

Isso introduz a noção de racionalidades no contexto das redes e suas implicações para o sentido a ser adotado pelos membros da rede. Em relação a isso, Olson argumenta que, quando uma empresa se encontra em prosperidade no mercado em que atua, será vista como mais uma concorrente, porém o mesmo não ocorre quando se trata de indivíduo fora de um ambiente mercadológico: a sua prosperidade implicará um aporte maior no custo de aquisição do benefício coletivo. Esse caso é chamado “benefício coletivo exclusivo”, mas, quando a expansão do grupo transcorre na mesma medida de expansão do indivíduo, nomeia-se “benefício coletivo inclusivo” e, neste sentido, tende a caminhar a rede social, em virtude da busca de um alargamento da sua atuação, na mesma ordem de inclusão social dos seus integrantes.

Por outro lado, se preexiste uma organização e os custos envolvidos na transação para obtenção do benefício coletivo são altos e superiores às possibilidades de cada indivíduo do grupo, Então, identifica-se como o ônus será repartido. Os significativos custos iniciais são comuns a cada organização, mas é preciso consciência de que qualquer grupo para se organizar precisará arcar com um certo ônus. “Em outras palavras, quanto maior for o grupo, menor será a probabilidade de interação oligopolística que poderia ajudar a obter o benefício coletivo”. (OLSON, 1999, p. 60)

Então, o grupo se afastará do ponto ideal de aquisição do benefício coletivo à medida que aumenta o seu tamanho, e Olson chama a atenção para o fato de que esses grupos grandes só alcançam o provimento na base da coerção ou de incentivos “independentes e externos” em quantidades abundantes. Essa dimensão da relação coletivo versus individualismo tem implicações diretas nas redes, uma vez que o líder terá como tarefa a condução do grupo ao alcance de seus objetivos e os da rede.