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A solidariedade intergeracional é parte das estratégias apontadas pelo Plano de Ação Internacional sobre envelhecimento. Este Plano foi o resul- tado da II Assembleia Mundial do Envelhecimento realizada de 8 a 12 de abril de 2002, em Madri, promovida pela ONU.

Podemos também mencionar o Programa Bolsa Família, criado pela Lei 10.836, de 9 de janeiro de 2004 como uma política que contribui para a solidariedade intergeracional. Este programa nasceu para combater a fome e a miséria, e promover a emancipação das famílias em situação de maior pobreza no país. Trata-se de um programa federal destinado às famílias em

situação de pobreza e extrema pobreza, com renda per capita de até R$ 154 mensais, que associa a transferência do benefício financeiro do acesso aos direitos sociais básicos – saúde, alimentação, educação e assistência social. Através do Bolsa Família, o governo federal concede mensalmente benefí- cios em dinheiro para famílias mais necessitadas. Muitos idosos têm sido beneficiados com este e outros programas de transferência de renda. Este programa é considerado intergeracional, em função de seu objetivo visar uma sociedade melhor para todas as idades.

Especificamente em relação à intergeracionalidade, o Estatuto do Ido- so é o instrumento legal mais direcionado a essa questão. O Título I, Dispo- sições preliminares, artigo 3º, parágrafo único, item IV, dispõe sobre a prio- ridade na “viabilização de formas alternativas de participação, ocupação e convívio do idoso com as demais gerações”.

Em relação à Educação, Cultura e Lazer, o Título II, Dos direitos fun- damentais, Capítulo V, artigo 21, § 2º menciona que “Os idosos participa- rão das comemorações de caráter cívico ou cultural, para transmissão de conhecimentos e vivências às demais gerações, no sentido da preservação da memória e da identidade culturais.” O artigo 22 acrescenta que “Nos currículos mínimos dos diversos níveis de ensino formal serão inseridos conteúdos voltados ao processo de envelhecimento, ao respeito e à valo- rização do idoso, de forma a eliminar o preconceito e a produzir conheci- mentos sobre a matéria.”

França, Silva e Barreto (2010) reforçam que essas medidas foram mui- to importantes para a qualidade de vida dos idosos, mas é preciso

“ir além e promover uma ação de inclusão mais efetiva, para evitar processos segregatórios, combater os preconceitos aos mais velhos. Para tal, é necessário que as gerações se aproxi- mem, independentemente das relações familiares, e possam ex- perienciar os benefícios desses contatos. Quando reforçados pela mídia, colaboram no processo de respeito e inclusão dos idosos” (FRANÇA, SILVA e BARRETO, 2010 – p. 527).

Experiências exitosas

Pensando numa sociedade onde as oportunidades de desenvolvimen- to humano estejam disponíveis a pessoas de qualquer idade, é imperativo desenvolver programas que valorizem o conhecimento e a experiência de vida das pessoas mais velhas. Os resultados, perceptíveis a médio e longo prazos, são a conscientização de que o ser humano possui um potencial para o desenvolvimento de muitas áreas, em qualquer idade. A interge- racionalidade pode ser um ponto de partida para um amplo programa de melhoria da qualidade de vida com vistas à ampliação de novos horizontes na maturidade. Algumas experiências neste sentido, das quais trataremos a seguir, são inspiradoras.

Um ponto essencial para um programa intergeracional é que os jovens tenham acesso ao conhecimento acumulado pelos idosos, através do resga- te de suas histórias de vida. O município de Indaial, em Santa Catarina, fez isso de maneira interessante. Trata-se do Projeto “De geração para geração: valorizando a herança cultural”, uma iniciativa das equipes do NASF-AB e da ESF do município de Indaial, SC, que se integraram em prol de um projeto intergeracional.

A Associação de Moradores do Bairro Estados/COHAB do município de Indaial já promovia, duas vezes por semana, encontros de 45 minutos com realização de atividades de alongamento, fortalecimento muscular, ca- minhadas, entre outras para idosos. Paralelamente, o Grupo da Paz reunia semanalmente crianças de 8 a 11 anos de idade, no contra turno escolar. Como eram grupos de um mesmo território, foi criada uma ação socioe- ducativa intergeracional os reunindo uma vez por mês (crianças e idosos). A divulgação foi realizada através dos Agentes de Saúde.

Os encontros aconteceram com a realização de atividades físicas con- juntas, interação social e troca de conhecimento. Os objetivos foram me- lhorar a capacidade funcional e autonomia dos idosos; facilitar a troca de conhecimento e o resgate de memórias e; informar crianças sobre o proces- so natural de envelhecimento. Os idosos foram convidados a contar histó- rias para as crianças, que por sua vez foram estimuladas a interagir e fazer

questionamentos. As atividades físicas e ações recreativas foram realizadas em grupos mistos de crianças e idosos.

Com a realização dos encontros já foram percebidos vários efeitos po- sitivos dessa interação entre crianças e idosos. Após o terceiro encontro conjunto, as crianças demonstraram melhor compreensão do processo de envelhecimento, absorvendo com facilidade as possíveis limitações e difi- culdades dessa etapa de vida, o que os levou a criar laços afetivos e mais só- lidos com pessoas idosas. Os idosos, por sua vez, se beneficiam fisicamente, já que as interações os convidam ao movimento e à prática de atividade física. No campo psicológico, as vivências possibilitaram a troca de conhe- cimentos e estimularam o resgate de memórias e histórias que contribuem para o resgate de suas identidades.

Já a experiência realizada no município de Brasília, no Distrito Federal se destaca pela valorização do conhecimento e experiência dos avós em relação à amamentação e alimentação de crianças de até dois anos. Trata-se do “Projeto Avós Amig@s do Peito”, uma iniciativa da Secretaria de Saúde do Distrito Federal.

Os primeiros dois anos de uma criança são importantíssimos para seu desenvolvimento. A criança adquire muitas habilidades e uma alimentação adequada nesta fase reflete muito sua vida futura. A autoestima da criança, sua relação com a família, e o surgimento de doenças crônicas têm relação estreita com a alimentação que o sujeito recebe na infância.

Os avós também têm importante papel no desenvolvimento da crian- ça e são os principais agentes socializadores após os pais. As avós muitas vezes apoiam e orientam os novos pais na criação de seus filhos e mui- tos ainda exercem o papel de cuidar dos netos. Tendo em vista que uma concepção errônea de alimentação saudável pode interferir diretamente na amamentação e na introdução da alimentação complementar em seus ne- tos formulamos este projeto que tem como principal objetivo resgatar os conhecimentos dos avós sobre amamentação e alimentação complementar. Este resgate contribui para a tomada de consciência da relevância e poder de influência que os idosos possuem, que os possibilita atuar em sua comu- nidade como um agente apoiador da amamentação e alimentação saudável.

Os objetivos específicos do programa foram difundir para a comu- nidade informações sobre a amamentação e alimentação complementar saudável; favorecer a criação de vínculo da comunidade com os serviços de saúde; promover o envelhecimento saudável e uma velhice ativa e; pro- mover a integração intergeracional. A exploração do tema é realizada por profissional que já fez a Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil (EAAB) ou sob orientação do mesmo. Como resultado, tem sido observada a tomada de consciência dos idosos sobre o tema e a participação dos idosos egressos do curso em outros eventos com temas correlacionados.

Outro programa exemplar é desenvolvido no município de Antônio Prado, Rio Grande do Sul. É um projeto dos Programas de Saúde da Fa- mília da Secretaria Municipal de Saúde denominado “Socialização e troca intergeracional”. A motivação para a realização deste projeto surgiu entre os profissionais de saúde, incomodados com as condições de isolamento dos idosos frágeis e acamados do município.

Nas visitas domiciliares, as equipes dos Programas de Saúde da Famí- lia encontravam pessoas idosas solitárias e dependentes. A Secretaria Mu- nicipal de Saúde teve a ideia de ir à Escola Municipal Aparecida e convidar jovens de 13 a 15 anos para ajudar no projeto de resgate da autoestima destas pessoas e oito jovens voluntários se apresentaram para realizar a ati- vidade.

Os jovens ajudaram a envolver os familiares na recomposição da autoes- tima das pessoas idosas e os parentes superaram aquela fase de esperar pelo transporte e passaram eles próprios a levar os idosos até a escola, onde as atividades se realizavam. Outros idosos da comunidade se envolveram tanto que passaram a tomar a iniciativa de chamarem o táxi para transportá-los.

O trabalho, que durou sete meses, atendeu de 12 a 16 cadeirantes, de- ficientes visuais e auditivos, além de pessoas idosas com outros problemas de mobilidade. Os encontros eram realizados semanalmente, com a dura- ção de duas horas. Eram iniciados com uma reflexão sobre a condição da pessoa idosa e uma dinâmica de grupo. Depois, os profissionais de saúde passavam dicas de cuidados da saúde para eles. A partir daí os adolescentes, que nitidamente sentiam prazer com o que estavam fazendo, organizavam

jogos lúdicos. Por fim, havia um lanche coletivo. O resultado revela mais do que a melhoria do ânimo da pessoa idosa; os familiares dos participantes também se envolveram e a iniciativa teve projeção para além do Território, alcançando todo o município.

Considerações Finais

Hoje, muitos idosos têm consciência da sua força e dos seus direitos. São pessoas que são capazes de buscar por si próprios a sua inclusão, de combater a discriminação. No entanto, este idoso “empoderado”, que tem condição de lutar contra a discriminação e exigir o respeito à sua cidada- nia, é geralmente, um “velho jovem”. Ou seja, tem menos de 80 anos, está aposentado com recursos suficientes para custear a sua boa qualidade de vida e o seu lazer. É um idoso que além de ser mais jovem, tem recursos econômicos.

O desenvolvimento da sociedade ocidental, voltada para a produtivi- dade a qualquer custo, traz consequências sérias para o indivíduo que enve- lhece. Embora muitas vezes o indivíduo se sinta no auge da sua capacidade profissional, o sistema produz mensagens que o levam a crer que chegou o momento de se retirar de cena e deixar o lugar para outros mais jovens.

No entanto, o ser humano possui um potencial para se desenvolver ao longo de toda a vida. A velhice é também uma fase de desenvolvimento humano, desde que haja oportunidade de integração social e cultural. Para isso, é fundamental a convivência produtiva entre gerações, com a realiza- ção conjunta de atividades produtivas, relevantes socialmente e significati- vas tanto para os jovens quanto para os idosos.

E ao desenvolver atividades intergeracionais, novos horizontes podem surgir na maturidade, passando a velhice a ser mais um ciclo do desenvol- vimento humano e não apenas um período de espera do fim da vida.

Em nossa sociedade, um grande número de indivíduos já está vivendo 20 ou 30 anos para além da aposentadoria. Além de fornecer um senso de significado a esta fase da vida, as atividades intergeracionais são opor-

tunidades para os jovens terem acesso ao conhecimento acumulado pelos idosos. Afinal os idosos possuem recursos pessoais preciosos, que são os seus conhecimentos. Se não forem valorizados, os recursos pessoais destas pessoas serão perdidos para a sociedade.

Resumo das Experiências de participação em