Capítulo 4 – AFRICANIDADES NA SOCIEDADE BRASILEIRA; A QUESTÃO
4.1 IDENTIDADE
4.1.4 A internet potencializando o discurso extremista
A contemporaneidade tem experimentado cada vez mais o extremismo como forma de imposição de uma “verdade” e de um “ponto de vista” que não admite ser questionado. Esse extremismo já foi experimentado com Adolf Hitler na Alemanha, Josef Stalin na Rússia e Benito Mussolini na Itália, entre outros.
121
Com o advento da internet e das redes sociais, esse legado acaba se potencializando, de maneira a criar raízes e influenciar o sistema político e social de forma globalizada.
No Brasil, por exemplo, esta visão extremista é compartilhada entre as religiões neopentecostais que propagam a intolerância religiosa, numa tentativa de ressaltar e impor a sua “verdade”. E, mais recentemente, com a eleição de 2018 que deu poder à maior bancada de candidatos da extrema direita – não só no congresso federal (câmara e senado) como também nas assembleias legislativas de todos os estados brasileiros. Essa onda crescente e ultraconservadora foi capitaneada pelo presidente eleito com mais de 57 milhões de votos – ou seja, com um apoio expressivo de cidadãos que, de alguma forma, comungam de suas ideias extremistas. Como resultados imediatos, conseguimos perceber que pautas consideradas conservadoras, como é o caso do aborto, da violência contra a mulher, da homofobia e do estado laico, já passaram a ser questionadas pelos poderes executivo e legislativo do Brasil.
Esse extremismo se reflete também nos adolescentes participantes deste estudo. Acreditamos que a internet tenha potencializado esse posicionamento, principalmente porque o questionário foi encaminhado através de uma ferramenta on-line e disponibilizado por uma rede social, sendo garantido o anonimato. O que queremos dizer com isso é que, protegidos atrás de uma tela de computador ou celular, ou ainda algum outro aparelho eletrônico com acesso à internet, os participantes podiam se expressar livremente sem receio de serem identificados – razão pela qual acreditamos que muitas das respostas que mostramos a seguir não seriam dadas se o instrumento de pesquisa utilizado fosse outro. Não pretendemos, no entanto, recriminar o posicionamento desses adolescentes. Pelo contrário, acreditamos que suas manifestações extremistas servem para que possamos investigar o que realmente pensam.
A combinação do racismo, do extremismo e da internet proporcionou a criação de uma espécie de “crime perfeito”, uma vez que se tem o assunto/tema causador de conflitos (o racismo), a motivação “adequada” para se promover esses conflitos (o extremismo), e o local propício para a propagação dessas ideias (a internet).
122
juntam e proporcionam um discurso que busca legitimar a superioridade racial, manter os privilégios da branquitude e, por consequência, perpetuar o racismo.
“Eu sempre fui diferente desse tipo de gente, logo não me afeta muito.” Participante: 254; Sexo: Masculino; Raça/ cor: Branca; Estado:
MG; Escola: Privada; 2º Ano - Ensino Médio.
A fala deste adolescente, além de se configurar como uma expressão racista – quando usa a expressão “sempre fui diferente desse tipo de gente” –, demonstra sua desumanização em recusar a humanidade do outro.
“Eu apoio a Ku klux klan.” Participante: 77; Sexo: Masculino;
Raça/cor: Branca; Escola: Privada; 8º Ano do Ensino Fundamental. A organização racista denominada Ku Klux Klan nasceu no Tennessee, nos Estados Unidos, durante o século XIX. Inicialmente, surgiu como um clube que reunia veteranos de guerra. Sua principal função era a defesa da manutenção da supremacia branca naquele país. Para tanto, o grupo promovia atos de violência e intimidação contra os negros, judeus, católicos e imigrantes. Seus militantes adotaram capuzes brancos e roupões fantasmagóricos para esconder suas identidades e assustar as vítimas.
A fala deste adolescente demonstra sua aversão aos negros e uma necessidade de externar isso de forma violenta. É uma questão grave que precisa ser discutida também em sala de aula – e, neste caso, falar sobre as relações étnico-raciais se torna fundamental para que haja a possibilidade de apresentar aos adolescentes com essa mesma visão uma outra perspectiva sobre a temática racial. Mas, sobretudo, essa fala evidencia uma branquitude acrítica que, para se sobrepor e manter seus privilégios, utiliza-se de conceitos já rechaçados pela ciência, como é o caso da supremacia racial, para justificar o racismo estrutural que permeia a sociedade brasileira.
“Lixo.” Participante: 147; Sexo: Masculino; Raça/cor: Branca; Escola:
Pública; 8º Ano do Ensino Fundamental.
Assim como a fala anterior, a fala deste adolescente nos permite fazer uma reflexão acerca do que ele pensa sobre o debate racial. Quando pensamos em “lixo”, pensamos em algo que não nos serve, que é repulsivo, que não tem utilidade. Sendo assim, ao utilizar essa expressão, esse adolescente nos permite perceber que – por ser branco – não se importa com a discussão racial a ponto
123
de achá-la dispensável.
A branquitude utiliza ainda outras formas de opressão para legitimar o seu racismo, como vemos na fala que se segue:
“Por que é algo desnecessário para criação de caráter ou para ingressar no mercado de trabalho.” Participante: 164; Sexo:
Masculino; Raça/ cor: Parda; Estado: PR; Escola: Pública; 1º Ano - Ensino Médio.
O estudante utiliza como argumento o ingresso no mercado de trabalho – para ele, compreender os contextos raciais do país é desnecessário para este fim. A visão de democracia racial também é responsável pela perpetuação de pensamentos como este, mas destacamos que ele se autodeclara pardo, portanto é negro – talvez tenha a tonalidade da pele mais clara e, por essa razão, não tenha sofrido a face mais cruel do racismo, que, no Brasil, acentua-se conforme o grau de melanina que temos na pele. Porém, embora o estudante se autodeclare pardo, sua visão se aproxima daquela de uma pessoa branca que não reconhece a existência do racismo e que acredita que os debates na escola só devem acontecer se a temática for necessária para o ingresso no mercado de trabalho.
Este tópico nos permitiu compreender como a internet potencializa discursos de ódio, além disso, pudemos perceber o quanto os adolescentes estão expostos e podem ser facilmente cooptados por mecanismos que além de propagar o ódio podem se tornar uma ameaça para as liberdades individuais e coletivas. Entretanto não devemos ver a internet como um espaço de produções unicamente negativas, ao contrário disso é necessário que se construa novas formas de se utilizar a internet potencializando suas vantagens aliadas a capacidade que a juventude tem de se apropriar dessas tecnologias de forma a produzir conteúdos que sejam verdadeiramente relevantes para a sociedade de uma forma geral.
124