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A INTERPRETAÇÃO JORNALÍSTICA E AS MANIFESTAÇÕES DA

2 JORNALISMO: APONTAMENTOS PARA DISCUSSÃO DE CONCEITOS E

2.3 A INTERPRETAÇÃO JORNALÍSTICA E AS MANIFESTAÇÕES DA

A tradição teórica do discurso como uma contínua construção social, rejeitando a proposição de que o Jornalismo é um espelho da realidade, leva em consideração que a sociedade é um produto humano, uma realidade objetiva, e os indivíduos, um produto social. Ao tomar as concepções de Berger e Luckmann (1966) e de Genro Filho (1989), entendemos que o Jornalismo constitui-se de parte da objetivação e parte da subjetivação do conhecimento. Já o fato jornalístico molda- se pela construção interpretativa dos condicionamentos históricos e, assim, resulta de um determinado recorte do mundo social.

A manifestação desses raciocínios insere-se em abordagens relacionadas à forma com que os fatos/fenômenos são retratados nas matérias jornalísticas. Nesse sentido, o questionamento de Fonseca (2000, p. 172) torna-se relevante: “qual o conceito que temos de Jornalismo e que papel lhe atribuímos no sistema social?” Para responder a esta indagação, passamos a refletir sobre o papel do Jornalismo na configuração de sua práxis.

O discurso jornalístico, tal como pontuado anteriormente, traduz os enfoques do real. De acordo com Bourdieu (2003), os jornalistas, por meio de suas lógicas de produção, selecionam as realidades transpostas para as matérias jornalísticas. Borges (2013, p. 26) defende que o Jornalismo é feito de escolhas e exclusões, determinando o processo com que se constituem suas matérias-primas, isto é, as notícias:

Falar em construção da notícia não é simplesmente levantar uma hipótese provável sobre o trabalho rotineiro do jornalista e suas possíveis consequências no texto final. Falar em construção da notícia é discorrer sobre o caráter primeiro de sua produção, dispensando dogmas e mitos que tantas vezes cercam a atividade. O Jornalismo é um ator social privilegiado e idiossincrático, equilibrando-se entre seu patrimônio simbólico de relatar a verdade e portar uma informação confiável e seus aspectos econômicos, que podem ser obstáculos ao cumprimento dessa missão.

Assim, a verdade será pensada com base em uma construção que é social. Contudo, neste cenário, questiona-se o que é verdade e o que pode ser configurado como real. Este é um debate que vem sendo alavancado por pensadores que perpassam diferentes áreas do conhecimento. Marilena Chauí (2000) atribui três traduções distintas à verdade, provenientes da língua grega, latina e hebraica. Em grego, a verdade é traduzida como aletheia, e significa, o “não-oculto, não- escondido, não dissimulado” (CHAUÍ, 2000, p. 123). A verdade, por esse viés, é a manifestação daquilo que existe como tal, opondo-se ao que é falso, encoberto e dissimulado. “Conhecer é ver e dizer a verdade que está na própria realidade e, portanto, a verdade depende de que a realidade se manifeste, enquanto a falsidade depende de que ela se esconda ou se dissimule em aparências” (CHAUÍ, 2000, p. 123).

Em latim, o termo veritas está pré-determinado pelo rigor, precisão, exatidão de um relato com pormenores. “Verdadeiro se refere, portanto, à linguagem

enquanto narrativa de fatos acontecidos, refere-se a enunciados que dizem fielmente as coisas tais como foram ou aconteceram” (CHAUÍ, 2000, p. 123). A verdade depende da veracidade da memória de quem fala e do enunciado, para que este corresponda aos fatos que aconteceram. “A verdade não relaciona-se às próprias coisas e aos próprios fatos (como acontece com a aletheia), mas ao relato e ao enunciado, à linguagem” (CHAUÍ, 2000, p. 123).

Por fim, em hebraico, munah significa confiança. “Agora são as pessoas e é Deus quem são verdadeiros” (CHAUÍ, 2000, p. 123). A verdade se relaciona com a espera daquilo que foi prometido, fundamento em uma crença do que pode vir. Chauí (2000, p. 124) resume as três concepções para denotar um significado próprio em torno do real:

Aletheia se refere ao que as coisas são; veritas se refere aos fatos

que foram; emunah se refere às ações e as coisas que serão. A nossa concepção da verdade é uma síntese dessas três fontes e por isso se refere às coisas presentes (como na aletheia), aos fatos passados (como na veritas) e às coisas futuras (como na munah). Também se refere à própria realidade (como na aletheia), à linguagem (como na veritas) e à confiança-esperança (como na

munah). Palavras como averiguar e verificar indicam buscar a verdade; veredicto é pronunciar um julgamento verdadeiro, dizer um

juízo veraz; verossímil e verossimilhante significam: ser parecido com a verdade, ter traços semelhantes aos de algo verdadeiro.

Cada uma das proposições expostas por Chauí (2000) evidencia a complexidade em conceituar o que é realidade, já que a noção não se insere somente no teor da mensagem, mas também em tudo o que estiver envolto e puder influenciar este processo. Outro ponto de vista que auxilia nessa reflexão é o de Borges (2013, p. 47), ao utilizar a expressão efeito de verdade para relacionar as diferentes perspectivas que o termo pode admitir. O autor traça, com essa expressão, analogias com outros três pesquisadores:

Interessante notar que a expressão efeito de verdade tem analogia com efeito real, cunhada por Barthes (1999) para falar não só da literatura, mas também dos fait divers, e ainda com o clássico

conceito de verossimilhança, elaborado por Aristóteles e

retrabalhado por incontáveis autores, como Eric Auerbach (2001), quando trata de mímesis, e por Paul Ricoeur (2005), quando reflete sobre metáfora.

A estratégia que utiliza a verdade nos discursos jornalísticos é uma prática disseminada na sociedade por meio de motivações históricas e mercadológicas, ligadas à práxis, servindo para justificar a credibilidade na profissão. Assim, para repassar a tônica de um discurso confiável aos públicos, prosperou, no Jornalismo, o conceito que visa ao ideal da objetividade. Em estudo sobre o nascimento da imprensa informativa nos Estados Unidos, Michael Schudson (2010)11 reconhece os

períodos históricos criadores deste discurso. Para entender o conceito, o autor estabelece a distinção sobre fatos e valores:

Nas primeiras décadas do século XX, mesmo no New York Times, era incomum que jornalistas percebessem uma nítida divisão entre fatos e valores. Todavia, a crença na objetividade é apenas isto: a ideia de que se pode e se deve separar fatos de valores. Fatos, nesta perspectiva, são declarações sobre o mundo abertas a uma validação independente. Eles se colocam além das influências distorcedoras de quaisquer preferências pessoais. E os valores,

nesta perspectiva, são as predisposições conscientes ou

inconscientes de um indivíduo sobre o conceito de mundo; em última análise, eles são vistos como subjetivos e, portanto, sem sustentação legítima sobre outras pessoas. A crença na objetividade é uma confiança nos fatos, uma desconfiança dos valores, e um compromisso com a segregação de ambos (SCHUDSON, 2010, p. 16, grifo nosso).

Antes do contexto da primeira Guerra Mundial, os jornalistas não aprovavam a visão de objetividade. “Antes de 1920, os jornalistas não pensavam muito sobre a subjetividade da percepção. Eles tinham relativamente pouco incentivo para duvidar da firmeza da realidade na qual viviam” (SCHUDSON, 2010, p. 17). No entanto, o período pós-guerra, por volta de 1920, mudou a concepção das verdades e a confiança numa sociedade democrática de mercado. As experiências com a propaganda, durante a guerra, “e as relações públicas, depois disso, os convenceram de que o mundo que reportavam era algo que os partidos interessados tinham construído para que a imprensa relatasse. Num mundo assim, o empirismo ingênuo não teria como se manter” (SCHUDSON, 2010, p. 17).

Dos anos 1920 a 1930, como resposta a essa falta de crédito nas verdades jornalísticas, ocorreu o que Schudson (2010) intitula como institucionalização do jornal diário, ou seja, a criação de gêneros de reportagem subjetiva, tais como a _____________

11 Utilizamo-nos do pensamento de Schudson (2010) por entender que a história da imprensa estadunidense influencia a práxis jornalística de outros contextos, tais como, o brasileiro.

coluna política. Outra resposta a essas mudanças foi a substituição da confiança nos fatos por “uma lealdade nas normas e procedimentos criados por um mundo no qual os próprios fatos estavam em questão: isso era a objetividade” (SCHUDSON, 2010, p. 17). O termo é usado pelo autor como “as afirmações de uma pessoa sobre o mundo podem ser confiáveis se forem submetidas a regras estabelecidas consideradas legítimas pela comunidade de profissionais” (SCHUDSON, 2010, p. 17). Foi assim que, após a guerra, consolidou-se o ideal da objetividade.

O Jornalismo anterior a esse ideal era partidário e político; suas versões eram apresentadas por meio da opinião. Ao adotar a objetividade, este acaba sendo um instrumento de defesa da práxis jornalística contra supostas distorções. Borges (2013, p. 46) lembra que a concepção de objetividade criou uma cultura profissional intensificadora do compromisso com a realidade:

Esta é uma visão que perdura até hoje e que pode ser constatada nas exigências que se fazem aos jornalistas, por exemplo, em seus códigos de ética. Esse tipo de movimento nunca se dá apenas por gostos ou princípios pessoais. Há sempre mais elementos formando o cenário. Um dos mais intensos é o que se refere às pressões exercidas sobre o Jornalismo e que afetam intensamente as formas de produção do discurso informativo e os valores subjetivos dos profissionais.

Em sentido análogo, Moretzsohn (2007) entende que reduzir a opinião no campo jornalístico em detrimento ao ideal de objetividade ocorre a fim de delimitar o convencimento dos públicos em torno da verdade dos discursos. No entanto, ainda segundo esta autora, a estratégia de não opinar ou interpretar os fatos deixa de contribuir para a pluralidade dos relatos. Borges (2013, p. 47) reforça esse pensamento, ao afirmar que a “objetividade cega, que se contenta com narrativas medrosas e desprovidas de interpretação, análise e inovação em nome da neutralidade também é um erro grave”.

A atuação do jornalista como intérprete da realidade, que carrega, em seus relatos, pontos de vista em torno da realidade, não descaracteriza sua práxis. Pelo contrário, é preciso, como aponta Borges (2013, p. 50), diferenciar a objetividade e o compromisso jornalístico com a realidade:

Ao interpretar as ocorrências, analisá-las, comentá-las, inferir a partir delas e se dar o direito de aprofundamento numa observação pessoal, o repórter não descumpre o contrato com seu público em

procurar apurar a verdade dos fatos e transmiti-la o mais fielmente possível. Ele busca outro caminho para isso e fornece, inevitavelmente, uma visão sobre o que está tratando. Se esse mesmo profissional se restringisse a um relato dito objetivo, idealmente livre de qualquer interferência subjetiva, o resultado seria, em tese, o mesmo: uma visão específica sobre o assunto tratado. Tanto é assim que mesmo em eventos programados, como entrevistas, as coberturas dos diferentes veículos de comunicação presentes são distintas. Há alguém que falseou com a verdade? Pode ser. Mas, por esse raciocínio, seria necessário eleger uma única versão como verdadeira e descartar todas as demais por serem falsas. Se um profissional inventa algo que não ocorreu na entrevista, se ele distorce flagrantemente a fala do entrevistado, inserindo comentários que este não fez, aí sim haveria o rompimento do contrato simbólico com o receptor porque a matéria seria simplesmente mentirosa.

Assim, o discurso jornalístico torna-se um equilíbrio entre informação e opinião, já que as visões dos profissionais sobre as realidades também estão inscritas nos relatos. O ideal de objetividade se configurou num cenário histórico, marcado por mudanças sociais. Com essa tendência de servir aos preceitos do real, da imparcialidade e da exatidão, o papel do Jornalismo, na configuração da práxis, sofreu alterações em seus modelos narrativos. Por isso, no próximo item, pontuaremos sobre os tipos de Jornalismo que surgiram posteriormente a este ideal.

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