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3 INFÂNCIA, ADOLESCÊNCIA E A EMERGÊNCIA DAS POLÍTICAS DE

4.2 SOBRE A REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS): NOVO

4.2.1 A intersetorialidade como ponte para integralidade do cuidado

E aprendi que se depende sempre, de tanta, muita, diferente gente Toda pessoa sempre é as marcas das lições

diárias de tantas outras pessoas...

Gonzaguinha

É no encontro com o outro que nos hominizamos, que nos humanizamos.

No fazer cotidiano do CAPSi muitos e complexos são os encontros com os diferentes atores, setores e instituições que entrecruzam o processo de cuidado. A Atenção Psicossocial compreende que a saúde não faz saúde mental sozinha. Prima pelos processos de trocas afetivas e sociais e na sequência, a ampliação do universo relacional do sujeito que sofre por entender, assim como cantou Gonzaguinha, que dependemos sempre de tanta e de muita diferente gente, e que é nesse compasso, que compomos a nós mesmos.

Vimos nos últimos anos ascender propostas diversas sobre como organizar as ações no campo da saúde mental. A RAPS citada há pouco é uma delas. Tendo como norte a integralidade do cuidado em saúde, o trabalho em rede e intersetorial propõe a articulação de todos daqueles que estão de alguma forma envolvidos com essa temática e considerando que saúde mental não é sinônimo de ausência de doença, acaba por ampliar significativamente essa rede e tornar ainda mais desafiante sua articulação.

A intersetorialidade é um conceito polissêmico, ou seja, seu significado não é singular e as implicações desse que é tomado como princípio na política de atenção à saúde mental infantojuvenil no Brasil são muitas. Quando utilizado no campo da saúde a intersetorialidade representa a forma como os diferentes setores sociais (como da educação, assistência social, justiça, cultura, lazer, entre outros) com seus saberes e práticas se articulam e se integram com vistas a orientar e garantir a integralidade das ações de cuidado. Essas ações ultrapassam as implementadas pela política de saúde e compreendem todas aquelas dispensadas pelos serviços e instituições que compõem o universo relacional do sujeito.

Sendo elencada como imprescindível à configuração da nova rede de cuidados, a intersetorialidade também não é um conceito novo. Quando na ocasião IV CNSM- Intersetorial, em 2010, ela foi elevada a uma condição indispensável na efetivação da atenção

integral à saúde, atestando a necessidade de articulação dos diferentes setores implicados na assistência, essa manifestação apenas reiterava o que já vinha sendo registrado em outros documentos legais: a intersetorialidade estaria entre os mais importantes princípios nas ações de cuidado em saúde mental infantojuvenil.

A intersetorialidade enquanto princípio, é preciso que se diga, obteve destaque no conjunto maior das diretrizes do próprio Ministério da Saúde que compuseram a publicação intitulada Caminhos para uma política de saúde mental infantojuvenil66 (BRASIL, 2005) socializada com vistas a (re)direcionar a política nacional de atendimento a crianças e adolescentes em sofrimento psíquico. Essa publicação previa que as ações em saúde mental estivessem orientadas por vários princípios, entre os quais citam: a criança e o adolescente ‘são sujeitos de direitos’, responsáveis por sua demanda, sintoma e sofrimento, devendo ser ouvidos e tratados singularmente. É nessa perspectiva que a publicação ressalta que falar desses ‘sujeitos de direitos’ impõe que o serviço e as ações idealizadas não os destituam do direito à voz e da sua condição de participar ativamente do processo de cuidado. Logo,

É preciso respeitar a subjetividade desse ser único, localizar tanto o sujeito no seu sofrimento, quanto sua implicação nos eventos psíquicos de que se queixa. Incluir, no centro das montagens institucionais, a criança ou o adolescente como sujeitos, com suas peculiaridades e responsabilidades sobre o curso de sua existência, é o único modo de garantir que não se reproduza na sua assistência o ato de se discursar sobre ela, de saber, por ela, o que é melhor para ela (BRASIL, 2005, p. 12).

Outro princípio anotado à época pelo Ministério da Saúde seria o do ‘acolhimento universal’ onde toda demanda que chega ao serviço deve ser acolhida, ouvida e respondida. Esse princípio arrola consigo a necessidade de o serviço, que é porta aberta, estar atento à pertinência ou não da assistência requerida por esse usuário ou por quem o encaminha e nesse sentido, há casos em que não necessariamente essa demanda será pelo serviço absorvida.

Essa reflexão remete ao terceiro princípio que é o de que os encaminhamentos que se façam necessários sejam ‘encaminhamentos implicados’, ou seja, quem encaminha precisa se envolver e acompanhar o encaminhado. Essa implicação atesta outro princípio que é o de que as ações devem primar pela construção permanente de uma ‘rede de cuidados de base territorial’, onde ‘território’ é concebido como um campo interinstitucional e intersubjetivo.

É partindo dessa perspectiva que Yasui (2010b) nos instiga afirmando que o “cuidado se produz para além das fronteiras do serviço [...]” e por isso “é necessário e imprescindível olhar para o que está no território que o serviço habita [...]”. Assim, evidencia-se que o

66 Essa é considerada a primeira publicação formalmente voltada à infância e adolescência elaborada pelo

território é mais que o espaço geográfico e se constitui como “essencialmente uma relação: diz respeito à construção e transformação que se dá entre os cenários naturais e a história social que os homens inscrevem e produzem” (YASUI, 2010b, p. 1-2).

Por fim, a publicação do Ministério da Saúde (BRASIL, 2005) dá destaque crucial ao denominado princípio da intersetorialidade, que como já evidenciamos em outros momentos dessa tese, sugere que as ações de cuidado devam se somar num processo permanente de diálogo, com vistas à garantia da integralidade do cuidado.

E, quando a intersetorialidade ganha essa ênfase, seu status de princípio indica-nos que esse status precisa ser repensado. Afinal, ela seria um ‘princípio’ ou um ‘efeito’ dessa nova proposta de atenção em saúde mental? Qual o seu lugar da nas ações do CAPSi?

No afã de responder essas inquietações, problematizamos as concepções de cuidado produzidas. Pensando o CAPSi como uma instituição viva, que se produz na medida que os encontros acontecem, entendemos que a intersetorialidade se constrói na experiência. Assim, esta seria a um só tempo, princípio e efeito desse novo modo de pensar/fazer saúde mental. A intersetorialidade quando se traduz em relação, qualifica o cuidado e é capaz de aumentar as potências que não se limitam a um lugar ou a um equipamento da saúde.

Doravante, nos permitimos afirmar que o fato de a intersetorialidade estar contemplada enquanto princípio em portarias ministeriais e outras bases legais da Política Nacional de Saúde Mental, não garante a superação da enraizada setorialização e fragmentação das políticas, nem que ela seja materializada no fazer cotidiano do CAPSi. Ademais, cabe em sequência acrescentar que a responsabilidade por arraigá-la ao campo técnico-assistencial não seria tão somente do CAPSi, o que por sua vez não o destitui do mandato original de ordenador/articulador/mediador dessa ampla rede que compõe o universo relacional do sujeito que sofre.

Como lembram Couto et al. (2008), a intersetorialidade tão referendada nas bases legais esbarra na desarticulação dos serviços públicos e não na ausência absoluta desses recursos. Assim, colocam os autores, existiria uma rede intersetorial potencial de cuidado, ou seja, que pode se tornar intersetorial, como há tempos e mais incisivamente nos últimos anos se vem pleiteando.

Essa articulação e integração não ocorrem independentes da disposição humana e das possibilidades reais de trabalho para sua concretização. Essa rede, ao dividir responsabilidades, deve estar aberta à coparticipação dos sujeitos e de famílias ampliando o rol de alternativas de sociabilidade que lhes possibilitem novas incursões, novos modos de ser e estar no mundo.

Quando aqui nos reportamos ao cuidado em saúde mental na perspectiva da Atenção Psicossocial, fica claro, portanto, que nos reportamos à rede tecida, costurada no vai e vem dos mais diversos saberes e práticas presentes na sociedade, na cultura e nas suas manifestações. Nesse sentido, “ampliamos o espectro dos conhecimentos envolvidos, de uma forma tão rica e polissêmica que encontramos dificuldades de delimitar suas fronteiras, de saber onde começam ou terminam seus limites” (AMARANTE, 2007, p. 16).

Para responder a essa polissemia e enredamento, como dissemos há pouco, as ações de cuidado ultrapassam as implementadas pela política de saúde e compreendem todas as dispensadas pelas pessoas, serviços e instituições que compõem o universo relacional do sujeito. Contudo, para além da construção de novas redes, da construção de outros tantos serviços, o que se espera é que a partir do momento que aqueles atores envolvidos no processo de cuidado passam a fazê-lo segundo a lógica psicossocial, essa rede começa em meio a este processo ser tecida.

E de qual rede o CAPSi é parte? Quais entrelaçamentos da constituição dessa rede podemos destacar?

Realizamos uma breve caracterização da cidade de Maringá-PR e da rede na qual o CAPSi está inserido, explorando a RAPS e em seguida apresentando outras referências (ou potenciais referências) na assistência infantojuvenil existentes no município.

4.3 O CENTRO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL INFANTOJUVENIL (CAPSi) COMO