A intertextualidade, resultante do recurso a textos anteriores para formular um novo texto, aspecto comum na construção de produções acadêmicas, assume dimensão mais ampla quando remete à constitutividade discursiva.
Fairclough (2001) distingue a intertextualidade manifesta da intertextualidade constitutiva. Para ele, a primeira compreende “a propriedade que têm os textos de ser cheios de fragmentos de outros textos, que podem ser delimitados explicitamente ou mesclados” (2001, p. 114), enquanto a segunda, também denominada por ele de interdiscursividade, “é a configuração de convenções discursivas que entram em sua produção”. (2001, p.136).
Desse entendimento, especula-se que há restrições sociais que delimitam a prática de produção textual, especificamente a científica, pela interferência das práticas sociais, modeladoras das práticas discursivas. Nesse quadro, o gênero científico monográfico comporta divulgar os saberes de uma área de conhecimento e traz em sua essência a reformulação de outros discursos já produzidos (aspecto polifônico), de forma a impingir ao discente, de forma escamoteada, a produção de um texto no qual, por vezes, não se incentiva que subjaza o aspecto autoral às suas escolhas linguísticas.
Nesse gênero discursivo, portanto, há presença marcante de intertextualidade, remetendo a uma pluralidade de textos, mas vê-se, também, a interdiscursividade, quando a estratégia linguística adotada é representativa das convenções discursivas, as quais, em sua relação consigo mesmas e com a exterioridade, devem ser encaradas como inter-relacionadas e não como dicotômicas. É de ressaltar-se que, muito embora possa uma monografia circular numa determinada academia, pode apresentar interdiscursividade com outras academias, como, por exemplo, tem ocorrido entre a Linguística e o Direito.
De acordo com Fairclough (2001, p. 170), nesse entremeio de vozes discursivas, “a intertextualidade e as relações intertextuais constantemente mutáveis no discurso são centrais para a compreensão dos processos de constituição do sujeito. Isso é assim uma escala... para a constituição e reconstituição de grupos sociais e comunidades.”.
Authier-Revuz (1990), baseada nas reflexões de Bakhtin sobre o dialogismo, enfoca a intertextualidade numa perspectiva discursiva, formulando a questão da heterogeneidade enunciativa, que apresenta possibilidades de inscrever o outro na sequência do discurso. Segundo ela (1990, p.32), essa heterogeneidade se divide em constitutiva do discurso e mostrada no discurso:
heterogeneidade constitutiva do discurso e heterogeneidade mostrada no discurso representam duas ordens de realidade diferentes: a dos processos reais de constituição dum discurso e a dos processos não menos reais, de representação, num discurso, de sua constituição.
Esse conceito revuziano sobre heterogeneidade apresenta a assunção de consequências teóricas, com implicações em sua descrição e na interpretação do discurso. Para essa autora (2004, p.12), a heterogeneidade mostrada, com formulação por meio do recurso ao discurso direto, indireto e uso de aspas, marca a presença da voz do outro na linearidade de sua voz. Segundo ela
É o outro do discurso relatado: as formas sintáticas do discurso indireto e do discurso direto designam, de maneira unívoca, no plano da frase um outro ato de enunciação. No discurso indireto, o locutor se comporta como tradutor: fazendo uso de suas próprias palavras, ele remete a um outro como fonte do ‘sentido’ dos
propósitos que ele relata. No discurso direto, são as próprias palavras do outro que ocupam o tempo – ou o espaço – claramente recortado da citação na frase; o locutor se apresenta como simples ‘porta-voz’. Sob essas duas diferentes modalidades, o locutor dá lugar explicitamente ao discurso de um outro em seu próprio discurso (grifo da autora).
Observa-se, dessa forma, que a presença do outro no discurso do um sofre a interferência da relação sentido-ideologia, como Bakhtin já abordara em sua obra Marxismo
e Filosofia da Linguagem (1981). Isso significa dizer que, mesmo sendo óbvia a
heterogeneidade mostrada, centrada numa observação do um, ela não implica a homogeneidade enunciativa.
Dessa forma, em todo discurso, se percebe outra consciência, cabendo aí a distinção feita por Authier-Revuz (2004) das instâncias de coincidência e não coincidência no emprego das palavras. Com relação a esse aspecto, vale ressaltar a modalidade autonímica como um dos vários fenômenos que demonstram a heterogeneidade da linguagem em uso, visto que esse tipo de modalidade traz, no plano enunciativo, o desdobramento de um dizer, que se manifesta em acordo ou desacordo com o dito.
Ao adentrar esse aspecto do não um do discurso, Authier- Revuz (2004) se volta para a heterogeneidade constitutiva, a qual engloba a apropriação por parte do produtor/autor do texto de aspectos teóricos exteriores a ele, constituindo o fio do discurso. Essa heterogeneidade constitutiva corresponde ao conceito de interdiscursividade de Fairclough (2001), que reconhece a influência das convenções discursivas na produção do discurso.
Comentando essa distinção entre heterogeneidade mostrada e heterogeneidade constitutiva, proposta por Authier-Revuz (2004), Maingueneau (1993, p. 75) afirma que
A primeira incide sobre as manifestações explícitas, recuperáveis a partir de uma diversidade de fontes de enunciação, enquanto a segunda aborda uma heterogeneidade que não é marcada em superfície, mas que a AD pode definir, formulando hipóteses, através do interdiscurso, a propósito da constituição de uma formação discursiva.
Vê-se, assim, uma relação de teóricos de correntes diversas no tocante à relação do texto com outros textos (intertextualidade/heterogeneidade mostrada) e do texto com aspectos sociais (interdiscursividade/heterogeneidade constitutiva). Esse aspecto se traduz na afirmação de Fairclough (2001, p.152) de que
a intertextualidade manifesta é o caso em que se recorre explicitamente a outros textos específicos em um texto, enquanto interdiscursividade é uma questão de como um tipo de discurso é constituído por meio de uma combinação de elementos da ordem do discurso.
Dessa maneira, infere-se que o produtor do texto acha-se submetido às imposições do lugar discursivo que ocupa na sociedade, o que constitui a interdiscursividade ou a
heterogeneidade constitutiva, cabendo, no entanto, a esse sujeito a opção de reação. Isso implica dizer que, por vezes, determinadas práticas discursivas se acham submetidas às condições de possibilidade definidas pelo social, a fim de promover ou não a validade do discurso produzido.
No caso das monografias acadêmicas, as citações escolhidas representam o limite de discursividade a que está submetido o produtor do texto, fazendo com que o dito de outro seja utilizado com permissão e aceitabilidade do grupo social. Inevitavelmente, a citação, vista em sua dimensão constitutiva do discurso, corresponde ao pensamento do produtor do recorte, assumindo este uma posição autoral responsável diante da escolha feita, isto é, o discente recolhe discursos de autoridades acadêmicas para representar seu pensamento (des) favorável à determinada ideia, diante do fato de que o discurso discente, em si mesmo, não referenda a opinião demonstrada, precisando do respaldo de autores reconhecidos pela academia.
Essa inserção de outras vozes não constitui, de acordo com Alves (1999, p. 41), “mera adição de textos, mas um trabalho de absorção e transformação de outros textos, com vistas a determinados objetivos [...], seja afirmando ou negando, acolhendo ou refutando outras vozes.”. Dessa forma, ao inserir, em seu texto monográfico, o discurso de outrem, o discente assume uma postura responsável de acolhimento concordante ou discordante com o dito.
Por sua vez, Maingueneau (1993, p.93) afirma que "o dito é constantemente atravessável por um metadiscurso mais ou menos visível que manifesta um trabalho de ajustamento dos termos a um código de referência" (destaque do autor). Para definir metadiscurso, tomou-se a posição de Charaudeau e Maingueneau, ao comentarem que
O locutor pode, a qualquer momento, comentar sua própria enunciação no interior mesmo dessa enunciação (...) é uma manifestação de heterogeneidade enunciativa (...) O metadiscurso pode igualmente cair sobre a fala do co-enunciador, para confirmá-la ou reformulá-la. (2004, p.326, destaques do autor).
Dessa forma, o metadiscurso, aqui analisado na sua relação com a heterogeneidade, se faz notar na escolha das estruturas linguísticas, as quais apresentam bastante variedade, revelando, também, intencionalidades de quem dele faz uso.
Assim, o fato de discentes acadêmicos acrescerem, em suas escolhas lexicais, certas expressões metadiscursivas às suas citações, nas suas produções monográficas, revela, por vezes, uma intenção de estabelecer, primeiramente, (i) um afastamento, de modo a constituir-se apenas como locutor do dito, apoiando-se no discurso de sujeitos reconhecidos como autoridades, na área específica de conhecimento, de modo a creditar, assim, às suas
assertivas discursivas maior condição de verdade, o que implica uma tentativa de escudar-se em opiniões alheias, ou, como segunda opção, (ii) indicar uma proximidade com o dito alheio, no momento da inscrição do discente como autor.
Fairclough (2001, p. 157) afirma que a utilização do metadiscurso, pelo discente acadêmico, corresponde a uma “forma peculiar de intertextualidade manifesta em que o (a) produtor(a) do texto distingue níveis diferentes dentro de seu próprio texto e distancia a si próprio(a) de alguns níveis de texto, tratando o nível distanciado, como se fosse um outro texto”, fazendo uso, para isso, de expressões generalizantes, de metáforas, de paráfrases, entre outros recursos. Esse distanciamento provocado pelos recursos metadiscursivos interfere na relação do sujeito com seu próprio discurso.
O estabelecimento dessa distância metadiscursiva leva a implicações para a relação discurso e subjetividade, já que parece que “o discurso é um efeito da subjetividade mais do que vice-versa” (FAIRCLOUGH, 2001, p.158), o que constitui uma inverdade, visto que o sujeito se reveste de um pretenso controle de seu discurso. Na verdade, “os sujeitos são em parte posicionados e constituídos no discurso, mas eles também se envolvem na prática que contesta e reestrutura as estruturas discursivas (ordens de discurso) que os posicionam” (2001, p.158).
Dessa forma, diferentes vozes de diferentes esferas discursivas mesclam-se na constituição do discurso, sendo essa interdiscursividade característica de todo texto, não se isentando, pois, o discurso científico dela. Em consonância com a concepção dialógica da linguagem, no discurso relatado direto, a presença de aspas e/ou comentários metaenunciativos operam na estrutura linguística como demarcadores da distância estabelecida entre o eu e o tu que fala no discurso.
Observações sobre as interferências do processo rediscursivo, nas monografias, são exploradas no item a seguir.