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A INTERTEXTUALIDADE NAS DISTOPIAS CRÍTICAS

No documento Colóquio Literatura & Utopia (páginas 121-125)

Comunicações orais

A INTERTEXTUALIDADE NAS DISTOPIAS CRÍTICAS

Battle Royale, assim, como 1984 apresentam um mundo sombrio, que a sua

sociedade está vivenciando sob os comandos de regimes totalitaristas. Em Battle

Royale, os cidadãos que criticam o governo ou os parentes responsáveis pelos

participantes do programa Battle Royale são sumariamente executados.

Para Moylan (2003), a distopia crítica é dotada de pessimismo militante, é épica e possui um final aberto. Como podemos analisar 1984, ilustra claramente os apontamentos de Moylan. A sociedade estática de 1984 apresenta pessimismo militante. No trecho a seguir, O’Brien conta a Smith sobre o mundo em que eles vivem, e qual é a finalidade esperada daquela sociedade.

Está começando a ver que tipo de mundo que estamos criando? Exatamente o oposto das tolas utopias hedonistas imaginadas pelos velhos reformadores. Um mundo de medo, traição e tormento. [...] Cortamos vínculos entre pais e filhos, entre homem e homem, e entre homem e mulher. Ninguém mais se atreve a confiar na mulher ou no filho ou no amigo. (ORWELL, 1949)

O intuito de O’Brien é mostrar que todo aquele sentimento desafiador apresentado por Smith seria ineficaz, visto que o partido estava criando um mundo de tormentos que quebrariam os espíritos daqueles que insurgissem. O discurso de O’Brien dialoga com o discurso de Kinpachi Sakamoto, em Battle Royale.

Raciocine comigo: por que você acha que a mídia local transmite a imagem do vencedor? É claro que os telespectadores devem sentir

122 pena dele ou dela, achando que o pobrezinho possivelmente nem queria participar do jogo, mas não teve escolha a não ser lutar contra os outros. Em outras palavras, todos acabam concluindo que não se deve confiar em ninguém, concorda? Isso deve eliminar qualquer esperança dos cidadãos se unirem e executarem um golpe de estado contra o governo. E assim a República da Grande Ásia Oriental e seus ideais subsistirão eternamente. (TAKAMI, 1999)

Como podemos constatar, o discurso O’Brien reverbera no discurso de Sakamoto. Eco que acentua a intertextualidade entre a obra de Orwell e a obra de Takami. Se acreditarmos que o apêndice de 1984, apresenta um estudo de uma possível queda do partido, podemos apontar que houve uma resistência e que ela possivelmente eclodiu os ideais fascistas do Grande Irmão. Em Battle Royale, o desfecho também pressupõe que eclodirá uma força resistente para derrubar o Líder Supremo.

O medo é perceptível em ambas às obras. Tanto Orwell quanto Takami narraram histórias em que o medo era representa um fator preponderante nas tomadas de decisões das personagens.

Em Battle Royale, Takami usa o medo dos estudantes como um casulo. Esse casulo representa a segurança de alguns, que o usam para se proteger, pois o medo exerce um poder de sobrevivência, e para outros, o casulo serve para ser rompido, e consequentemente, romper com o que ceifa o espírito libertário dos indivíduos.

Quando Orwell inicia com Smith escrevendo o diário, já demonstra que a personagem não reluta mais em enfrentar o poder dominante e que, mesmo que Smith ainda não tenha consciência de que está rompendo com o medo, ele se condiciona em pequenos atos para confrontar o medo que o paralisava.

Ocorre que nas obras, o medo, apesar de seu caráter paralisante em determinadas situações, tem a função de ser uma barreira a ser superada pelas personagens, e aquelas que conseguem romper a casulo do medo, começam a viver de forma mais reflexiva e menos reativa.

Nas obras analisadas, entre os diálogos das narrativas, podemos apontar dois importantes instrumentos de controle externo sobre os corpos das personagens. Em

1984, a teletela funciona, assim como o colar em Battle Royale, como instrumentos

mortais.

A teletela é importante no controle do estado sobre os habitantes da Oceania. Além de transmitir as informações que do governo, a teletela pode gravar o que estiver

123 em sua frente. Smith tem seu corpo constantemente fatigado por uma teletela. Ao não permitir que a desliguem ou por impor exercícios.

“Shuya tocou no pescoço com a mão direita. Sentiu algo gélido. Não havia dúvida de que o mesmo colar envolvia seu pescoço. Quando seu deu conta disso, sentiu- se sufocado. Coleiras! Coleiras, merda, como se fôssemos cães!” O colar, em Battle

Royale é um instrumento letal que, inicialmente, é explicado pela personagem Kinpachi

Sakamoto, como um aparelho de localização geográfico com explosivo. Os estudantes não sabiam que dentro continha escuta. Com o auxílio da escuta, o representante do governo poderia ter domínio do destino do estudante.

Intertextualidade, basicamente, pode ser definida como enunciados/textos em relação a outros enunciados/textos. Assim, mesmo dentro de um único texto não pode ser, por assim dizer, um "diálogo" contínuo entre o texto dado e outro texto/enunciados fora dele, literários e não literários: ou dentro desse mesmo período de composição, ou em séculos anteriores. (WALLES, 1989)

Podemos notar que há diálogos de intertextualidade entre as obras analisadas. Há uma presença salutar de 1984 em Battle Royale. Em ambas as obras, as personagens mesmo enfrentando adversidades, como terem seus corpos dominados, vigiados, ou submetidos a severos abusos físicos, são capazes de continuarem lutando.

CONCLUSÃO

A análise permitiu estabelecer diálogos de intertextualidade entre a obra 1984, de George Orwell e Battle Royale, de Koushun Takami. Além de enfocar em pontos significantes das distopias críticas, e refletir sobre o medo nas sociedades distópicas.

Compreendemos que os ecos de Orwell estão em Takami, e que Takami se apropria devidamente de ferramentas narrativas, e com isso, não desaponta aquele que pelo viés distópico, busca um novo olhar sobre o gênero distópico na contemporaneidade.

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REFERÊNCIAS

KRISTEVA, Julia. Tales of Love. Tradução Leon S. Roudiez. New York: Columbia University Press, 1987.

MOYLAN, Tom. Scraps of the Untainted Sky: Science Fiction, Utopia, Dystopia. Westview Press, 2000

ORWELL, George. 1984. Tradução Alexandre Hubner, Heloísa Jahn. São Paulo: São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

TAKAMI, Koushun. Battle Royale. Tradução Jefferson José Texeira. São Paulo: Globo, 2014.

WALES , Kate. A Dictionary of Stylistics: Studies in language and linguistics. New York: Routledge, 2014

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A REPRESENTAÇÃO DA VIOLÊNCIA EM CAIO FERNANDO ABREU E

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