2.1 MOBILIDADE: uma reflexão sobre o fenômeno
2.1.2 A Intramobilidade: dados brasileiros e franceses
Inicialmente, é importante destacar que, conforme a Organização das Nações Unidas (ONU), o direito à mobilidade é um direito humano. No Brasil, o Artigo 5º da Constituição Federal do País, que trata do direito de liberdade dos cidadãos desta nação, afirma o seguinte:
Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade [...]
Neste Artigo 5º, o inciso XV assevera que “é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens”. Nestas condições, além das viagens de turismo, cidadãos brasileiros são livres para movimentarem-se dentro do país pelos motivos que lhes forem convenientes.
Fernandez (2002) associa a movimentação à idéia de Carpe Diem. Neste sentido, não existiria um “lar doce lar”, pois este é superado pela sensação de liberdade que a mobilidade proporciona. Entretanto, no caso da migração, ou seja, da movimentação interna em um país, esta não é, em muitos casos, uma aventura. Ao contrário, deve ser considerada como o deslocamento à procura de trabalho e renda, conforme o Relatório do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA – (2010)15 que trata das questões especificamente brasileiras.
Assim, ao discorrer e analisar sobre as migrações internas a um país, o IPEA (2010) afirma que tal fenômeno, muitas vezes, passa despercebido aos olhos de diversos analistas e também de pesquisadores em função da complexidade inerente ao assunto. O IPEA (2010) alega que este descaso é fruto das migrações dentro de uma nação serem “submetidas às hipóteses mais óbvias, como a atração pelas “luzes da cidade” ou a repulsão motivada por
condições objetivas, econômicas e outras relacionadas ao mercado de trabalho” (IPEA, 2010, p. 3).
Além disso, quase sempre quando se pensa em razões que levam às migrações, tende-se a refletir sobre as questões de pobreza. No caso do Brasil, tem-se o exemplo desta imagem nas migrações em massa de nordestinos, castigados pela seca da região, que buscaram na década de 1980 (e ainda buscam, mas hoje por outros motivos) eminentemente na região sudeste, uma forma de sobrevivência, apesar de muitos terem ficado em condições piores do que estavam em sua terra natal.
Em todo caso, o migrante nem sempre é um sem lugar, inclassificável. Ele ocupa posições no mundo do trabalho; é objeto de especulações como “nordestino, nortista, paraíba”, “é feito para trabalhar na construção civil como pedreiro ou ajudante de pedreiro”; ou simplesmente suscita, como nos designativos citados, reações de rejeição e preconceito (IPEA, 2010, p. 3).
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Conforme dados do IPEA (2010), os números das migrações e emigrações no Brasil são bastante expressivos. Na tabela abaixo é possível verificar alguns indicadores da movimentação entre regiões no País.
Figura 4 – Migrantes Interestaduais por Região. Fonte: IPEA (2010).
Nota-se que o Nordeste, no qual está inserido um dos lócus de análise desta Tese, ou seja, o pólo industrial de Camaçari na Bahia, é a segunda região em termos de emigrantes e também de migrantes, ficando atrás apenas da Região Sudeste. As duas regiões representam 60% dos números de migrações no Brasil. Porém, a pesquisa do IPEA (2010) alerta para o fato de que se forem analisados os números proporcionalmente à população total da região, identificar-se-á que as regiões Norte (2,6%) e Centro Oeste (3,7%) apresentam as maiores proporções de migração.
Dentre diversas análises trazidas pelo relatório do IPEA (2010), quatro chamam atenção por estarem relacionadas ao presente estudo. O primeiro ponto refere-se à função catalisadora das redes sociais como apoio aos migrantes, ou seja, para o IPEA (2010), os maiores fluxos estão associados a maiores redes sociais.
Em segundo lugar, houve aumento do nível de escolaridade do migrante, considerada pelo IPEA (2010) como 12 ou mais anos de estudos, nos anos analisados. O Relatório alerta que, apesar do mesmo ter acontecido entre os não-migrantes, o ritmo de crescimento escolar destes é menor. Assim, para o IPEA (2010, p. 9), “não há razão para não se levantar a hipótese de que a escolarização aumenta a probabilidade de migração, ou seja, o percentual de migrantes com pelo menos 12 anos de estudo é maior que o de não migrantes nessa situação”. A tabela abaixo, extraída do Relatório do IPEA (2010), corrobora estas exposições ao apontar o nítido crescimento do nível de escolaridade dos migrantes no Brasil.
Figura 5 – Percentual de Escolaridade de Migrantes e Não Migrantes no Brasil. Fonte: IPEA (2010).
O terceiro aspecto considerado importante apontado pelo Relatório do IPEA (2010) é o fato de o migrante auferir maiores rendimentos do que o não migrante. Além disso, a diferença entre ambos aumentou ao longo dos anos (salvo de 1995 para 2001), como pode ser visto na figura abaixo.
Figura 6 – Percentual de Rendimento de Migrantes e Não Migrantes no Brasil. Fonte: IPEA (2010).
Por fim, o quarto ponto relevante para o presente estudo, no que concerne à discussão da intramobilidade, diz respeito à parcialidade da idéia de que a migração significa pobreza, como afirma o Relatório do IPEA (2010), com base nos dados apresentados. Conforme o IPEA (2010), esta colocação só se aplica de forma relativa e em casos precisos e contextualizados.
O IPEA (2010) também aponta algumas lacunas em seu estudo como, por exemplo, a ausência de uma investigação mais aprofundada em relação aos fatores que podem determinar as partidas, a diversidade das condições que as motivaram e as trajetórias pessoais dos migrantes, questões que foram analisadas na presente Tese. O IPEA (2010, p. 16) complementa:
Migra-se de uma região para outra – ou internamente às regiões – com a intenção de melhoria das condições pessoais ou da família. Migra-se para atenuar as dificuldades vividas na origem, sejam ligadas ao baixo dinamismo das economias locais ou às vulnerabilidades e carências no sistema de proteção social.
O contexto francês se diferencia do brasileiro principalmente pelo fato da mobilidade em função da carreira ser tratada no país em nível de políticas públicas. Um exemplo desta
afirmação é o Relatório Mobilité géographique & profissionnelle: bouger pour l’emploi16 elaborado pela Deputada Francesa Claude Greff. No referido relatório, Greff (2009) propõe 27 ações que objetivam dar o suporte necessário aos trabalhadores franceses em casos de movimentações motivadas por aspectos profissionais.
Este relatório traz também alguns dados acerca das movimentações na França: quatro milhões de franceses mudam a cada ano, seis milhões alteram de empregadores, dois milhões alteram de domicílio e empregadores. Um milhão de trabalhadores são transfronteiriços e um milhão está estabelecido no estrangeiro.
Greff (2009) alega que a importância de se pensar a mobilidade como algo estratégico para o país respalda-se, por exemplo, na crise econômica mundial que atinge a França. Conforme a Deputada, mobilidade geográfica profissional torna-se ainda mais importante porque pode contribuir para o regresso ao emprego mais rapidamente. Sendo assim, a idéia de Greff (2009) é que restaurar uma cultura positiva da mobilidade geográfica profissional na França torna-se uma vantagem para desenvolvimento do emprego no país. Para ela, tratar dos obstáculos à mobilidade é indispensável e essencial porque se constituem em um empecilho ao emprego. Portanto, desenvolver a propensão à mobilidade dos franceses significa, para Greff (2009), contribuir para que os cidadãos desta nação estejam em condições de apreender todas as oportunidades de trabalho. A Deputada ressalta que alterar de região para mudar de emprego toma a forma de um êxodo necessário quando a mobilidade geográfica é uma condição da entrada em um ofício ou na realização de seu exercício.
Diante disso, observa-se que, cada vez mais, os jovens têm vivenciado uma fase de estudo em outro país europeu, graças aos programas de intercâmbio como Erasmus e Leonardo. Também os quadros do setor público e privado freqüentemente já conheceram uma mobilidade regional ou internacional (GREFF, 2009).
Assim, o plano de ação europeu para a mobilidade do emprego (2007-2010) deseja fazer da mobilidade um instrumento ao serviço de aumento no número de empregos e também torná-los de maior qualidade. Diante desta questão, Greff (2009) expõe que o Conselho Europeu nomeou as preconizações relativas à mobilidade, sendo que nas suas conclusões sobre a mobilidade profissional e geográfica da mão-de-obra e a livre circulação dos trabalhadores na União Européia, cabe aos Estados-Membros:
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a) ter em conta os elementos ligados à mobilidade em todas suas decisões inscrevendo-a em suas estratégias nacionais ou os seus programas nacionais de reforma;
b) desenvolver estratégias e instrumentos adequados que permitam identificar e analisar os obstáculos à mobilidade geográfica e profissional dos trabalhadores, contribuindo para a eliminação de tais obstáculos;
c) facilitar a transição entre empregos e, neste contexto, as políticas que visem a reforçar as ações do mercado de emprego e a capacidade do serviço público de gerir o fluxo crescente dos trabalhadores móveis;
d) modernizar os sistemas de proteção social acompanhando e facilitando as transições e incentivar os empregadores a utilizarem o portal e a rede EURES e os outros instrumentos úteis;
e) elaborar e levar a efeito estratégias integradas de mobilidade;
f) intensificar os seus preparativos com o propósito de introduzir novos regulamentos sobre a coordenação dos sistemas de segurança social.
Em seu relatório, Greff (2009) apresenta um gráfico que ilustra os modelos de mobilidade dentro da União Européia (EU). Neste sentido, a Deputada afirma que, embora a França não seja particularmente um mau aluno europeu em matéria de mobilidade de longa distância (situa-se no quinto lugar dentre os países da União Européia), existem claras possibilidades de progresso para desenvolver a capacidade dos franceses de se moverem em função do emprego. A figura a seguir apresentada expõe o ranking dos países analisados.
Figura 7 – Modelos de Mobilidade a Longa Distância na União Européia. Fonte: Greff (2009).
Diante desta situação, Greff (2009) fala que em 11 de Janeiro de 2008 foi feito um acordo entre os parceiros sociais (instituições diversas) sobre a modernização do mercado de trabalho. O artigo 8 deste acordo incita as empresas a tomarem medidas de acompanhamento no caso de uma mobilidade por iniciativa do empregador (visita ao futuro lugar de trabalho, ajuda na mudança, ajuda na busca por moradia, ajuda na compra ou o aluguel de veículo, ajuda na procura de emprego para o cônjuge, ajuda na procura de escolas) e evoca as informações que poderiam ser trazidas ao trabalhador que deseja realizar a mobilidade.
A Deputada ressalva que não se trata de designar uma nova obrigação para as pessoas à procura de emprego, mas sim, criar, para estes indivíduos, condições de emergência e realização de projetos de mobilidades geográficas profissionais adequados e que valorizem a evolução na carreira, quadro de vida, e integração social. E, para as empresas e para os territórios, a maior facilidade de mobilidade dos assalariados se constitui em um desafio de recrutamento e de atração.
Outra evidência diagnosticada no Relatório de Greff (2009) é que os franceses vêm aspirando a um novo equilíbrio entre a vida profissional e familiar, equilíbrio este que permita conciliar desenvolvimento das capacidades pessoais e melhoria dos desempenhos e que passa, de acordo com as etapas da vida, por uma aptidão à mobilidade profissional e geográfica. E este deslocamento seria, de acordo com a Deputada, uma mobilidade escolhida, antecipada, preparada e acompanhada, uma experiência nova, mas serena e positiva para milhões de franceses a cada ano.
Bouger pour l’emploi, ce n’est pas que l’affaire de celui qui “bouge son emploi”. C’est un changement de résidence, de cadre de vie, d’environnement scolaire, de loisirs, de réseau social, d’activité du conjoint. Organiser une mobilité c’est évidemment affronter simultanément les démarches et les coûts liés à ces sujets, identifier les interlocuteurs, supprimer les “cailloux dans la chaussure” avant même de prendre le chemin. Au cours de cette mission, je me suis attachée à identifier chacun de ces “cailloux” touchant aux différentes politiques publiques: emploi, logement, fiscalité, éducation, famille17 (GREFF, 2009, p.34).
As exposições em torno da intramobilidade no contexto brasileiro e francês demonstraram maneiras bastante díspares de tratar este assunto. No Brasil, o fenômeno é apenas apontado como algo existente no que concerne ao âmbito profissional dos cidadãos deste país. Já na França, pôde-se perceber que a questão da mobilidade é, acima de tudo, algo que deve ser tratado de maneira estratégica uma vez que, quanto mais subsídios forem oferecidos aos profissionais que se dispõem ao deslocamento, mais rapidamente eles se reintegrarão no mercado de trabalho, beneficiando, assim, todo o país.
Porém, independentemente de como é tratada, a mobilidade, no caso desta Tese, a intranacional, gerará encontros interculturais dentro e fora do ambiente de trabalho o que faz com que, conforme Freitas (2009), deva haver maior reflexão acerca destas questões e “favorecendo o aumento das possibilidades de compreensão entre esses atores sociais e a redução das manifestações de guerras identitárias sob a forma de racismos, xenofobias, exclusões, discriminações, fundamentalismos raciais, intolerâncias religiosas etc.” (FREITAS, 2009, p 253). Sendo assim, algumas questões sobre a Interculturalidade e suas formas de gestão serão abordadas na próxima seção.
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Tradução própria: mover para o emprego, não é o negócio do que “move o seu emprego”. É uma mudança de residência, quadro de vida, de ambiente escolar, de lazeres, de rede social, de atividade do cônjuge. Organizar uma mobilidade é evidentemente enfrentar simultaneamente as diligências e os custos ligados a estes assuntos, identificar os interlocutores, suprimir “as pedras no sapato” antes mesmo de tomar o caminho. Durante esta missão, estou presa a identificar cada um destas pedras em relação às diferentes políticas públicas: emprego, alojamento, fiscal, educação, família.