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1. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: A ABORDAGEM LOCACIONAL PARA A

1.3 Semantic Structures (JACKENDOFF, 1990)

1.3.3 A introdução da camada acional

Outra diferença crucial entre a teoria originalmente proposta em S&C e aquela desenvolvida em SS diz respeito à introdução de uma camada (ou tier) adicional nas representações léxico-conceituais de todas as eventualidades na EC. Além da camada temática, onde são codificadas as noções locacionais e causativas, Jackendoff propõe o que chama de “camada acional”, a qual codifica as relações entre os papéis semânticos de Ator e Paciente nas eventualidades. Essa camada de representação foi criada com base no trabalho de Talmy (1988/2000a) sobre dinâmicas de força, e representa uma tentativa de Jackendoff de incluir em sua teoria uma representação dos conceitos de Agonista e Antagonista, propostos por Talmy, conforme veremos adiante. Exemplos como (21), com o verbo hit (“atingir/bater”) em inglês, motivaram Jackendoff a postular duas camadas de análise na EC:

(21) a. Sue hit Fred.

‘Sue atingiu/bateu em Fred’

b. The car hit the tree.

‘O carro atingiu/bateu (n)a árvore’

c. Pete hit the ball into the field.

‘Pete bateu a bola para dentro do campo’

(JACKENDOFF, 1990, p. 125) Segundo o autor, a análise proposta em S&C não dá conta da distinção dos papéis semânticos das sentenças em (21). Por exemplo, em (21a), Sue é um Agente, mas não há nada na teoria que indique o papel semântico de Fred. Uma primeira análise indica que Fred é o argumento afetado, mas de acordo com Jackendoff a afetação não é capturada por nenhum predicado proposto em S&C. A definição mais próxima seria a de Tema, mas o autor define esse papel simplesmente como “a entidade em movimento ou localizada em algum lugar”, o que não é o caso em (21a). Por analogia com (21b), em que the car é Tema e the tree é Meta, pode-se considerar Fred como Meta; porém, a generalização não serviria para (21c), uma vez que the ball está em movimento e precisaria ser Tema. De modo a explicar a relação semântica entre os objetos diretos nos três usos do verbo hit, Jackendoff conclui que são fundamentais as noções de “entidade afetada” (ou seja, de Paciente) e de Ator, que não estão presentes na teoria proposta em S&C. O autor sugere o seguinte teste para a identificação de entidades afetadas em eventos dinâmicos:

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(22) What happened to NP was…

What Y did

‘O que aconteceu/O que Y fez com SN foi…’

(JACKENDOFF, 1990, p.125) De acordo com esse teste, Fred, the tree e the ball (cf. (21a, b, c)) são entidades afetadas e, portanto, podem ser definidos como Pacientes (p. ex., O que aconteceu com Fred foi que Sue bateu nele.). Contudo, Jackendoff destaca que o papel de Paciente é independente dos papéis temáticos definidos estruturalmente na EC, pois não há uma correspondência direta entre, por exemplo, Temas e Pacientes, ou Metas e Pacientes (cf. (24) abaixo). No mesmo sentido, o papel de Ator – identificado pelo teste em (23) – pode estar relacionado, entre outros, aos papéis de Tema ou Origem, como podemos observar em (24):

(23) What NP did was…

‘O que SN fez foi…’

(JACKENDOFF, 1990, p.126-127) (24) a. Ana bateu em Fred.

Tema Meta (camada temática) Ator Paciente (camada acional) b. Pedro jogou a bola.

Origem Tema (camada temática) Ator Paciente (camada acional) c. Paulo entrou na sala.

Tema Meta

(camada temática) Ator

(camada acional) d. Maria recebeu uma carta.

Meta Tema

(camada temática)

(camada acional)

(Adaptado de JACKENDOFF, 1990, p.126) Com base nessas observações, Jackendoff argumenta que é necessária uma representação funcional na EC para codificar os papéis de Ator e Paciente. Para tanto, o autor introduz a camada acional nas representações léxico-conceituais das eventualidades, que consiste na função biargumental AFF (do inglês, affect (“afetar”)):

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(25) [EVENT] → AFF (〈[THING]〉, 〈[THING]〉)

(JACKENDOFF, 1990, p. 127) Jackendoff define que o primeiro argumento de AFF é o Ator, enquanto o segundo argumento é o Paciente. É importante destacar que ambos os argumentos dessa função são opcionais, característica que a distingue de todos os outros predicados primitivos na teoria.

Considerando-se essa nova camada de representação, a estrutura léxico-conceitual da sentença em (21b), The car hit the tree, passaria a ser a seguinte:7

(26) INCH [BEc ([CAR], [ATc [TREE]])]

Event AFF ([CAR], [TREE])

(JACKENDOFF, 1990, p. 127) A estrutura léxico-conceitual em (26) codifica formalmente o fato de que o argumento the car é tanto o Tema (primeiro argumento de BEc na camada temática), como o Ator (primeiro argumento de AFF na camada acional), ao mesmo tempo em que the tree é a Meta (argumento de ATc, que por sua vez consiste no segundo argumento de BEc) e o Paciente do evento (segundo argumento de AFF). Uma vez que os argumentos de AFF são opcionais e, crucialmente, ordenados, já que há diferença entre o primeiro e o segundo argumento, Jackendoff estabelece a seguinte convenção para a notação da camada acional no caso de apenas um argumento estar presente:

(27) a. [AFF ([X])] (X = Ator ou Paciente?) b. [AFF ([X]), ] (X = Ator apenas) c. [AFF ( ,[Y])] (Y = Paciente apenas) d. [AFF ([ ],[Y])] (Ator implícito) e. [AFF ([X],[ ])] (Paciente implícito)

(JACKENDOFF, 1990, p. 128) Caso a notação em (27a) fosse utilizada, haveria ambiguidade em relação ao papel semântico do argumento, segundo Jackendoff. Com isso, o autor propõe as notações em (27b-e), que fazem distinção entre as posições argumentais mesmo no caso de haver apenas um participante na eventualidade.

7 O diacrítico em BEc e ATc refere-se ao traço [+contact], uma elaboração das funções locacionais proposta por Jackendoff para representar verbos que especificam explicitamente a noção de contato, como touch ou hit, por exemplo.

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No que diz respeito à representação da noção de volição em sua teoria, Jackendoff propõe que seja utilizado o traço [±vol] no predicado AFF. Com essa elaboração de AFF, Jackendoff busca capturar a noção de “ator volicional”, a qual não era codificada em S&C.

Segundo o autor, essa noção não deve ser representada da mesma maneira que a de “causador extrínseco da ação”, isto é, como o primeiro argumento de CAUSE na camada temática. A principal motivação para isso é o fato de atores volicionais poderem estar presentes mesmo em eventos não causativos, conforme (28):

(28) Bill rolled down the hill.

‘Bill rolou colina abaixo’

GO ([BILL], [DOWN [HILL]])

a. AFF+vol ([BILL], ) (realizador intencional da ação) b. AFF-vol ([BILL], ) (realizador não intencional da ação) c. AFF( , [BILL]) (paciente da ação)

(Adaptado de JACKENDOFF, 1990, p. 129) Como podemos observar em (28), o papel de ator volicional é codificado formalmente como o primeiro argumento de AFF+vol na camada acional, independentemente da presença ou não do predicado CAUSE na camada temática. Dessa maneira, Jackendoff decompõe a noção de Agente em três configurações distintas: (i) causador extrínseco da ação – primeiro argumento de CAUSE –, (ii) ator volicional – primeiro argumento de AFF+vol –, e (iii) realizador não intencional da ação – primeiro argumento de AFF-vol.

Conforme discutirei mais detalhadamente na seção 1.4, a camada acional tem um papel fundamental na teoria de linking proposta por Jackendoff (1990).8 Em linhas gerais, o primeiro argumento de AFF, isto é, o Ator, é invariavelmente ligado à posição de sujeito em inglês, ao passo que o segundo argumento de AFF, o Paciente, é ligado à posição de objeto direto em sentenças transitivas. Contudo, antes de discutir a teoria de linking proposta por Jackendoff (1990), vejamos o tratamento proposto pelo autor para a causação na EC.