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Os clubes negros em Campinas e Piracicaba

2.1 Os homens de cor de Piracicaba

2.2.1 A Irmandade, o Colégio e o Centro Literário

Luiz Alberto Gonçalves, ao estudar as práticas educativas das populações negras paulistanas na Primeira República, considerou que as irmandades religiosas eram uma espécie de embrião para as “organizações políticas negras” do início do século XX, formando, através da instrução, algumas de suas lideranças57. Apesar do caráter teleológico e evolutivo de sua tese, ele tem um pouco de razão. Alguns trabalhos sobre a formação dos primeiros Clubes Sociais Negros têm apontado que houve fortes relações entre as irmandades e os clubes na formação dos últimos; muitas vezes elas foram a primeira forma de experiência dos negros em organizações coletivas com algum tipo de assistência mútua58. Entretanto, a proliferação de espaços laicos com esse tipo de serviço não pôs fim às entidades religiosas, o funcionamento complementar desses dois tipos de agrupamentos foi o mais comum. Na cidade de Campinas, isto é evidenciado na história da “Irmandade de São Benedito” e da “Federação Paulista dos Homens de Cor”, que em diferentes momentos controlaram o “Colégio São Benedito”.

A irmandade existe desde pelo menos 1835, e era destinada às pessoas que identificadas como pretas, enquanto os mulatos frequentavam a “Irmandade de Nossa Senhora do Rosário” e os brancos a “Irmandade de Santa Cruz”. Para Cleber Maciel e José Pereira Galdino de Oliveira, ela sempre foi “um espaço de afirmação da submissão dos grupos negros”59 e mais “uma forma de controle”, impedindo o culto aos ancestrais 60; os autores

julgam que a presença de brancos em algumas de suas diretorias comprovam esta função. Entretanto, a pesquisa de Regina Célia Xavier demonstrou que, contrapondo-se a setores do

57 GONÇALVES, Luiz Alberto Oliveira. “Negros e educação no Brasil”. In. LOPES, Eliane Marta Teixeira; FARIA FILHO, Luciano Mendes de; VEIGA, Cyntia Greive. 500 anos de Educação no Brasil. Belo Horizonte: Ed. Autêntica, 2000.

58 RASCKE, Karla Leandro. Samba, Caneta e Pandeiro: Cultura e cidadania no sul do Brasil. Curitiba: CRV, 2019; RASCKE, Karla Leandro. Irmandades Negras: memórias da diáspora no sul do Brasil. Curitiba: Appris, 2016; MAC CORD, Marcelo. Artífices da cidadania: mutualismo, educação e trabalho no Recife oitocentista. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2012; MÜLLER, Liane Susan. As Contas do Meu Rosário São Balas de

Artilharia: irmandade, jornal e sociedades negras em Porto Alegre – 1889-1920. Dissertação de Mestrado,

PUCRS, Departamento de História: Porto Alegre 1999; SAYÃO, Thiago Juliano. “As Heranças do Rosário: associativismo operário e o silêncio da identidade étnico-racial no pós-abolição, Laguna (SC)”. Revista

Brasileira de História. São Paulo, v. 35, n. 69, pp. 131-154, 2015. Disponível em

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882015000100131&lng=pt&tlng=pt, acessado em 20 nov. 2019.

59 MACIEL, Cleber da Silva. Discriminações raciais op. cit. p. 98.

clero e das elites que tentavam controlar os negros, estes usaram a irmandade para lidar com problemas próprios e exercer o catolicismo a sua maneira61. Além disso, a escolha do santo padroeiro estava ligada ao fato de sua trajetória de vida ser similar à dos irmãos, negros e escravos, o que permitiu que a autora acreditasse que “os santos ocupavam, aliás, funções similares aos ancestrais, ao intermediar o mundo do visível com o invisível”62.

Tal afirmação da autora se sustenta nas pesquisas sobre o mundo Atlântico que chamaram a atenção para a existência de um catolicismo africano desde o século XV. John Thornton aponta que o cristianismo foi aceito na África Central por conta dos pontos de aproximação com as religiões locais, fazendo com que não fosse visto como uma nova religião. Os rituais e símbolos católicos foram reinterpretados a partir das práticas culturais e religiosas existentes anteriormente63. Na América, essa situação contribuiu para que os africanos escravizados formassem um catolicismo popular próprio das irmandades negras. No entanto, houve momentos em que a flexibilização da Igreja em relação aos rituais servia como controle, em outros ela precisou ser rígida para estabelecer seu poder. Deste modo, a irmandade foi um espaço de disputa de poder com negociações e conflitos constantes.

Assim como no caso de outras irmandades, a “Irmandade de São Benedito” oferecia a seus membros ajuda financeira em casos de infortúnio; médica, quando estavam enfermos; e nos funerais, organizando todos os ritos fúnebres e o enterramento. Além disso, celebrava festas e prestava devoções ao padroeiro. Suas festas eram públicas e implicavam a circulação de muitas pessoas pelas ruas da cidade, causando reclamações de fazendeiros “sobre os perigos de se permitir a reunião de ‘pretos’”64. Elas passaram a ser mais controladas

na década de 1870, com o processo de urbanização da cidade e o aumento do controle dos espaços públicos, porém não foram proibidas. Neste período, também, os irmãos se esforçaram para construir a capela de São Benedito, algo que o mestre Tito de Camargo Andrade se empenhava desde que comprara sua liberdade, em 1865. A obra pode ter sido responsável pela diminuição das festas da irmandade, pois exigia mais gastos, contudo, ela foi o epicentro da disputa com o clero.

A responsabilidade de construir capelas em homenagem aos santos de devoção costumava ser das irmandades, mas isto mudou em Campinas quando o vigário Souza e

61 XAVIER, Regina Célia Lima. Religiosidade e escravidão no século XIX: Mestre Tito. Porto Alegre, RS: Editora da UFRGS, 2008.

62 Idem. p. 143

63 THORNTON, John K. A África e os africanos: na formação do mundo atlântico, 1400-1800. Rio de Janeiro, RJ: Elsevier, 2004.

Oliveira tentou estabelecer “maior controle sobre a vida religiosa em sua paróquia, na tentativa de reafirmar a autoridade de sua jurisdição”. Ele passou, então, a rivalizar com mestre Tito publicamente pela liderança da execução da construção e, consequentemente, da irmandade. A vitória foi de Tito que, até seu falecimento, em 1882, foi o responsável pela edificação, que terminou cerca de três anos depois. O vigário foi se afastando do cotidiano da irmandade, sofreu algumas acusações de uso indevido de verbas da igreja e se retirou da paróquia de Campinas no início da década de 1880. A saída do vigário Souza de Oliveira não pôs fim às tentativas de controle do clero sobre a irmandade.

A “Irmandade de São Benedito” foi caindo em ostracismo ainda na segunda metade da década de 1870. Como as verbas eram destinadas à capela em construção, “as festas já não aconteciam, e as missas pareciam ser excepcionais, ocorrendo somente em datas especiais”, então, “ao não mostrar-se nas cores, músicas e danças de suas festas, no coro e esplendor de suas missas semanais, na eleição de suas mesas administrativas e na definição de seus cargos devocionistas”, ela foi desaparecendo da vida pública e cotidiana da cidade. No funeral de Tito de Camargo Andrade, a irmandade não foi representada e em seu testamento ele não “definiu ali sua mortalha nem a forma como queria que fosse realizado seu sepultamento”, como os irmãos costumavam fazer65. Talvez este gesto tenha acontecido por

brigas internas ou porque de fato a irmandade não estivesse mais funcionando. Em todo caso, sabe-se que em 1885 houve eleições para uma nova mesa administrativa e a irmandade voltou a aparecer em público. Ao mesmo tempo, as formas de controle se tornaram mais agressivas. Em 1906, por exemplo, a irmandade foi dissolvida porque a mesa administrativa se reuniu em local estranho, contra a vontade do vigário e sem sua presença. Ele só permitiu a sua reorganização, no ano seguinte, após a eleição de uma nova mesa e mudanças no seu compromisso66.

Não foram encontradas informações sobre onde era o “local estranho” da reunião da mesa, porém alguns irmãos também frequentavam a “Federação Paulista dos Homens de Cor”, desde 1904. Esta instituição teria sido criada para solucionar o problema da falta de autonomia que os irmãos tinham dentro da irmandade. Para José Galdino Pereira, esta era a razão das brigas que se manifestavam na disputa pelo controle de uma escola e na rivalidade entre o professor Francisco de Oliveira e o padre José de Almeida67.

65 Idem. p.325. 66 Idem.

Em 1893, foi aprovado o projeto de construção de um anexo na Capela de São Benedito onde seria construída a “Escola dos Libertos”. O pedido, feito pelo tesoureiro da “Irmandade de São Benedito”68, é o mais antigo registro de um espaço de instrução da

irmandade. Três anos depois passou a funcionar a “Sociedade de Instrução São Benedito”; Francisco Bueno de Miranda, que antes era tesoureiro da irmandade, tinha o mesmo posto na sociedade. Os estatutos só foram registrados em 190269, com atas de reuniões dos anos anteriores. Sua finalidade era manter uma escola para os membros da irmandade e seus filhos, mas era uma organização independente da irmandade, apesar de ser formada por seus irmãos e funcionar no mesmo lugar em que aconteciam suas reuniões. A criação dessa sociedade tanto garantiu que o vigário não interferisse na escola, quanto deu a ele o poder de negar que verbas da irmandade fossem utilizadas para financiá-la. Algo que aconteceu.

A “Escola de São Benedito”, como foi batizada a escola da irmandade, começou a funcionar em 1897, com uma sala de turma mista regida pela “hábil e distinta” professora Ana de Almeida70. Após um ano de funcionamento, ela conseguiu um colega e passou a oferecer aulas para seções masculina e feminina. Apesar do aparente progresso nos anúncios publicados nos jornais campineiros, o financiamento para a instrução era precário. Segundo Galdino Pereira, os irmãos não podiam usar a verba arrecadada pela irmandade em suas festas, que era prontamente repassada aos seus cofres por seu presidente, o padre Pedro dos Santos, então eles passaram a esmolar separadamente pela cidade em prol do colégio71. Em 1903, a prática mudou, pois, além dos irmãos, os estudantes também passaram a esmolar e a escola começou a organizar suas próprias festas para conseguir fundos.

A mudança ocorreu com a chegada do professor Francisco de Oliveira, em 1902. De acordo com o depoimento de Benedito Evangelista, militante da “Federação Paulista dos Homens de Cor”, Francisco José de Oliveira era um ex-seminarista mineiro, que lecionava em Ribeirão Preto e, em uma visita à cidade, hospedou-se no estabelecimento de “um negro de nome Francisco (Chico) Vilela”, frequentado por outros negros. Os membros da irmandade, “ao descobrirem que o visitante era professor, tiveram a ideia de convidá-lo para criar uma escola para alfabetizar os filhos dos homens de cor da cidade, aproveitando os fundos da

68 Escola da Irmandade de São Benedito. “Requerimento de construção e alinhamento pela rua Lusitânia”. Campinas, Finanças Correspondências Interna. Arquivo Municipal de Campinas. 18 abr. 1893.

69 Sociedade de Instrução São Benedito. “A ata da sessão de instalação da sociedade de 8 de dezembro de 1896”. 1º Cartório de Registro de Imóveis e Anexos 13 out. 1902. Há uma notícia sobre matrículas em “Escola de S. Benedito”. Cidade de Campinas, 23 jun. 1897, p. 3.

70 “Escola de S. Benedito”. Cidade de Campinas, 29 jun. 1897, p. 3.

Igreja de São Benedito, onde funcionava a escola de música”72. Em um esboço histórico da

escola, escrito pelo próprio docente, ele considerou que a ideia de construir uma escola ao lado da capela era mais antiga. No evento de inauguração da capela, o senhor Torlugo de Camargo lembrou que mestre Tito tivera a ideia de construir ao seu lado “uma casa de educação, onde os filhos do homem de cor bebessem as luzes necessárias para as lutas a vida”. Em seguida alguns irmãos conversaram sobre o assunto com Cônego Cipião, que aderiu a ideia, mas, por motivos de doença, retirou-se da cidade antes de iniciar qualquer obra73.

O esboço fazia parte da documentação enviada para seu registro, que foi também publicado no jornal para legitimar as ações e importância da escola na sociedade campineira. O texto também servia como resposta ao vigário. De acordo com José Galdino Pereira, a relação entre o clérigo e o professor era tensa desde o começo74. Em poucos meses o professor se tornou secretário da irmandade e passou a dirigir a escola. Logo a registrou em cartório e nos órgãos competentes, depois deu visibilidade a ela, ao promover desfiles e festas abertas com seus estudantes, ao passo que a irmandade passou a celebrar datas cívicas, como o 13 de maio, junto com as celebrações religiosas.

A fundação do “Centro Literário dos Homens de Cor”, em 1903, seria, na interpretação do autor, mais uma estratégia dos irmãos, liderados pelo professor, em busca de autonomia75. Francisco de Oliveira, Benedito Florêncio e Torquato Braga eram membros da irmandade e compuseram a primeira diretoria do centro, que era responsável pelo jornal O

Baluarte. Em seu estatuto é possível notar que as duas organizações podiam rivalizar em

serviços prestados aos homens de cor.

O “Centro Literário dos Homens de Cor” pretendia “socorrer seus sócios, quando enfermos, dando-lhes médico, farmácia e despesas”; auxiliar os inválidos e “contribuir para os funerais do sócio que falecer sem meios para o seu enterramento”; “educar gratuitamente os sócios”, entre outros objetivos. Os programas do centro e de seu periódico também evidenciavam que ambos buscavam atuar na defesa dos “interesses dos homens de cor, sem distinção alguma de crenças religiosas e políticas”76. O endereço de funcionamento d’O

Baluarte e do centro literário era o mesmo do “Colégio de São Benedito”, rua General

72 Idem. p. 25-26.

73 OLIVEIRA, Francisco José de. “Esboço Histórico da Fundação da Capela de São Benedito e Colégio Anexo à Mesma”. Cidade de Campinas, 19 mar. 1903, p. 2.

74 PEREIRA, José Galdino. Os negros e a construção da sua cidadania op. cit. 75 Idem. Ver especialmente seu capítulo 1.

Carneiro, 153, e o colégio era também responsável por sua administração e redação, contudo ele era “órgão oficial do ‘Centro Literário dos Homens de Cor’”. Tudo reforça a ligação entre essas associações, mas a relação entre elas se fazia mais por conta de seus participantes. Somente em 1910 foi que o controle do colégio passou a ser feito pela “Federação Paulista dos Homens de Cor”, entidade que substituiu o centro cerca de um ano depois de sua criação. Deste modo, o centro funcionava como uma entidade mutualista, provavelmente seus fundadores tinham a intenção de que ele amparasse os irmãos naquilo que não lhes era mais ofertado pela entidade religiosa, inclusive na questão racial. A preocupação com a educação parece comprovar isto, porque apesar de a ideia inicial ter sido ofertar aulas para os membros da irmandade e suas crianças, segundo as notícias coletadas, seus estudantes eram crianças e não adultos.

A velocidade com que Francisco de Oliveira ascendeu na irmandade e pôs a escola em evidência, junto com sua liderança na formação de uma associação mutualista para homens de cor, permite concordar com José Galdino Pereira que julga que a presença dele rivalizou, quase que instantaneamente, com o poder do vigário, presidente da mesa administrativa. O autor pensa ainda que suas ações no colégio e na federação foram responsáveis pela destituição da mesa em 1906. Um ano antes deste ato, o então secretário da irmandade, Alberto Lencastre, informava que a escola que o professor pretendia edificar não era “continuação da escola que a Irmandade mantém anexa a sua igreja”, lembrando que “a este respeito, o presidente, o Revmo. Vigário desta paróquia, já deu sua informação” e finalizava explicando que não faziam “esta declaração com o fim de prejudicar ninguém”, queriam “somente salvar” a sua responsabilidade77. Este anúncio era importante porque neste

momento existiam na cidade dois “Colégio São Benedito”, um que funcionava no “vasto e higiênico salão anexo à capela” do santo, onde o docente de cor Oscar de Moraes lecionava, “sob a inspeção do zeloso reverendo vigário da Conceição”78, e o novo estabelecimento do

veterano professor79.

A explicação do secretário tentava desfazer qualquer confusão entre as duas instituições, no entanto ela expunha uma disputa de poder. Para Francisco de Oliveira, seu colégio era a continuação da escola da irmandade, porque junto com ele estavam outros irmãos que compunham a “Sociedade de Instrução São Benedito”, inclusive o corpo documental da escola da irmandade ficou em posse de Benedito Evangelista, que era membro

77 LANCASTER, Alberto. “Colégio S. Benedito”. Cidade de Campinas, 24 jun. 1905, p. 2. 78 “Irmandade São Benedito”. Cidade de Campinas, 18 jul. 1905, p. 1.

da “Federação Paulista dos Homens de Cor”. Ou seja, o docente levou consigo a documentação quando retirou o colégio do anexo da capela.

A relação entre a “Irmandade de São Benedito”, o “Colégio São Benedito” e o “Centro Literário dos Homens de Cor/Federação Paulista dos Homens de Cor” aponta para a busca dos homens de cor por espaços de autonomia, onde pudessem discutir seus problemas e traçar caminhos para solucioná-los. O antigo espaço religioso não dava mais conta de seus anseios, seja por conta das antigas hierarquias, que foram reforçadas no regime republicano, quanto pelas novas exigências do período. As novas associações de homens de cor foram organizadas com a participação de políticos da cidade, que se envolviam em suas atividades públicas como forma de legitimação.

O surgimento de outros tipos de organização não significou que houve um processo de evolução, em que uma forma de agrupamento substituiu a outra. Por exemplo, Francisco de Oliveira faleceu como membro da “Irmandade de São Benedito” – registro que indica que ele talvez tenha saído da irmandade e voltado a ela ou que nunca tenha dela se desligado. No jornal negro em que Benedito Florêncio trabalhou na década de 1920, há várias referências à irmandade como um espaço importante para os homens de cor; no Largo São Benedito eles festejavam, na igreja celebravam as missas e seus membros estavam nas comissões de diversas celebrações. A entidade religiosa ganhou, assim, uma nova função ao lado das outras organizações.