CAPÍTULO II – LEGISLAÇÃO, SALÁRIO E JORNADA DE TRABALHO
2.6 Jornada de trabalho docente e legislação: “tempo é dinheiro”
2.6.2 A JORNADA NA LEI 7.442/10 PCCR E NA LEI 11.738/08 PSPN
Em 2010, foi aprovado o Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração (PCCR) dos profissionais do magistério da rede pública estadual de ensino do Pará. As jornadas aprovadas no plano foram de 20, 30 e 40 horas semanais (mesmas do Estatuto do Magistério) e na composição das mesmas 25% resguardado para atividade sem a presença do aluno denominada de hora-atividade.
Art. 35. O servidor ocupante de cargo de Professor, em regência de classe, submeter-se-á às jornadas de trabalho a seguir:
I - jornada parcial semanal de 20 (vinte) horas; II - jornada parcial semanal de 30 (trinta) horas; III - jornada integral semanal de 40 (quarenta) horas.
§ 1º As jornadas de trabalho previstas neste artigo compreendem as horas- aula e as horas-atividade.
Não foi incluída no plano a jornada do PSPN por parte do governo do Estado na época (Ana Julia Carepa, do PT), sob a alegação de que não havia dotação orçamentária para implantação da jornada de 1/3 de atividade extraclasse da Lei 11.738/08, o que implicaria a contração de mais professores, e ainda havia sido suspenso o efeito da lei pela ADIN interposta por cinco governadores. Assim, o texto aprovado na lei ficou descrito com o seguinte conteúdo:
§ 2º A hora-atividade corresponderá ao percentual de 20% (vinte por cento) da jornada de trabalho, com a majoração desse percentual para 25% (vinte e cinco por cento) até quatro anos da vigência desta Lei.
As polêmicas e diferenças entre SINTEPP e governo do Estado se intensificaram e foi deflagrada greve no dia 07 de maio, como informou o portal do G1 Pará do mesmo dia:
Os professores da rede estadual de educação no Pará entraram em greve por tempo indeterminado, na manhã desta sexta-feira (7), para reivindicar reajuste salarial, melhores condições de trabalho e a aprovação imediata do Plano de Cargos, Carreira e Remuneração (PCCR).
No final da greve ocorreu a aprovação do PCCR, com diferenças entre a proposta do governo e a proposta dos professores, representados pelo Sindicato (SINTEPP). O argumento contra a proposta do executivo era que a mesma resultaria em perdas salariais à categoria, em função da eliminação de componentes da remuneração. No final, ainda se garantiu a vantagem pessoal por escolarização aos professores AD1 e AD2; a manutenção dos direitos assegurados no Estatuto do Magistério Público Estadual do Pará e no Regime Jurídico Único; a permanência do abono FUNDEB e das aulas suplementares; e a inclusão dos Especialistas em Educação no quadro permanente do Magistério da Educação Básica (ALVES, 2017).
A Lei 11.738/08, que instituiu o Piso Salarial Profissional Nacional do magistério (PSPN), descreve no artigo 4o: “Na composição da jornada de trabalho, observar-se-á o limite máximo de 2/3 (dois terços) da carga horária para o desempenho das atividades de interação com os educandos”. O restante da jornada, 1/3, deve ser cumprida fora de sala de aula em atividades extraclasse. A lei estabeleceu o PSPN para uma jornada fixa de 40 horas semanais e no caso do Pará os professores só puderam receber o piso nacional a parti de 2011.
A jornada de trabalho de acordo com o PCCR ficou delimitada de acordo com a tabela abaixo:
Tabela 8 - Jornada de trabalho de acordo com o PCCR – Lei nº 7.442/2010 JORNADA DE TRABALHO SEMANAL ATIVIDADE EM SALA DE AULA (75%) ATIVIDADE EXTRACLASSE (25%) 25%
40 HORAS 30 HORAS 10 HORAS 10
30 HORAS 22.5 HORAS 7.5 HORAS 7.5
20 HORAS 15 HORAS 05 HORAS 5
JORNADA DE TRABALHO MENSAL ATIVIDADE EM SALA DE AULA (75%) ATIVIDADE EXTRACLASSE (25%) 25%
200 HORAS* 150 HORAS 50 HORAS 50
150 HORAS 112.5 HORAS 37.5 HORAS 37.5
100 HORAS 75 HORAS 25 HORAS 25
Fonte: Elaborada pelo Autor.
No texto da lei é descrito dessa forma:
Art. 35. O servidor ocupante de cargo de Professor, em regência de classe, submeter-se-á às jornadas de trabalho a seguir:
I - jornada parcial semanal de 20 (vinte) horas; II - jornada parcial semanal de 30 (trinta) horas; III - jornada integral semanal de 40 (quarenta) horas.
§ 1º As jornadas de trabalho previstas neste artigo compreendem as horas- aula e as horas-atividade.
É justamente no tempo da jornada de trabalho que repousam os debates e questionamentos por parte de governantes e prefeitos, após a aprovação da lei do piso do magistério. Mesmo não se tratando de um trabalho produtivo23, o trabalho docente, ao não gerar mais valor, compreende certo limite de custos para os governos e para o Estado, sendo estes calcados na lógica do estado mínimo, em que a reprodução das relações de produção capitalistas constitui sua racionalidade dos gastos e do fundo público, de acordo com os interesses do mercado e da exploração do trabalho, por esse motivo o tempo tem grande significado.
Com isso se conclui que o valor do trabalho do professor é limitado nos gastos dos Estados por estar associado a “custos” e não a “investimentos” em educação e na qualidade do ensino. Voltamos a reafirmar a ideia de que “tempo é dinheiro”, é no âmbito da jornada que pode haver a valorização dos professores, pois diminuir o tempo de trabalho interfere diretamente na qualidade do trabalho e na saúde do professor, isto é, se diminuir o tempo em sala de aula com aluno é possível o crescimento da qualidade das aulas do professor, porém sem a diminuição de sua remuneração
Desse modo a jornada de trabalho, de acordo com a Lei 11.738/08, deve obedecer o esquema abaixo no caso dos professores da rede estadual de ensino do Pará:
23
“Só o trabalho que se transforma diretamente em capital é produtivo; portanto, só trabalho que faz do capital variável magnitude variável e, em conseqüência, torna o capital total C = C + ∆ (124). Se o capital variável, antes de se trocar por trabalho, for igual a x, de modo a se estabelecer à equação y = x, é produtivo o trabalho que converte x a x + h e, por conseguinte faz y = x, y' = x + h. Este, o primeiro ponto a elucidar: trabalho que produz mais-valia ou que é força que permite ao capital criar mais-valia, assumir a figura de capital, de valor que cresce por si mesmo. [...] Trabalho produtivo, portanto é o que - no sistema de produção capitalista - produz mais-valia para o empregador ou que transforma as condições materiais de trabalho em capital e o dono delas em capitalista, por conseguinte trabalho que produz o próprio produto como capital. Assim, ao falar de trabalho produtivo, falamos de trabalho socialmente definido, trabalho que envolve relação bem determinada entre o comprador e o vendedor do trabalho”. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1863/mes/prodcapital.htm. Acesso em 14 out. 2018.
Tabela 9 - Jornada de trabalho de acordo com a Lei nº 11.738/08 JORNADA DE TRABALHO SEMANAL *ATIVIDADE EM SALA DE AULA 2/3 ATIVIDADE (H.A)*EXTRACLASSE 1/3 1/3 (H.A)
40 HORAS 26,66 HORAS 13, 33 HORAS 13,33
30 HORAS 20 HORAS 10 HORAS 10
20 HORAS 13,33 HORAS 6,66 HORAS 6,6
JORNADA DE TRABALHO MENSAL ATIVIDADE EM SALA DE AULA 2/3 ATIVIDADE (H.A)*EXTRACLASSE 1/3 1/3 (H.A)
200 HORAS 133,33 HORAS 66,66 HORAS 66,66
150 HORAS 100 HORAS 50 HORAS 50
100 HORAS 66,66 HORAS 33,33 HORAS 33,33
Fonte: Elaborada pelo Autor.
*Mantemos o cálculo na integra, sem arredondamento.
Observa-se que diminui o tempo do professor em sala de aula e aumenta a atividade extraclasse, tornando progressiva a migração de 25% do PCCR para a jornada de 1/3 de hora- atividade. Porém, aqui se faz necessário, para efeito de implementação da jornada, a diferenciação entre hora-aula e hora-relógio, questão que vem emergindo da discussão da implantação da jornada entre o SINTEPP e o governo do Estado do Pará.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional estabelece a distinção entre hora e hora – aula. A hora é uma indicação precisa da vigésima quarta parte do dia, calculada com referência a dois períodos de 12 horas ou a um período único de 24 horas e se remete aos acordos internacionais celebrados pelo Brasil, pelos quais a hora é constituída por 60 minutos. O direito dos estudantes é o de ter as horas legalmente apontadas dentro do ordenamento
jurídico como o mínimo para assegurar um padrão de qualidade no ensino e um elemento de igualdade no país. Já a hora-aula é o padrão estabelecido
pelo projeto pedagógico da escola, a fim de distribuir o conjunto dos componentes curriculares em um tempo didaticamente aproveitável pelos estudantes, dentro do respeito ao conjunto de horas determinado para a Educação Básica, para a Educação Profissional e para a Educação Superior (BRASIL, 2004).
A SEDUC pratica no seu projeto político e pedagógico, no ensino fundamental e médio do estado do Pará nos períodos diurnos, a hora-aula de 45 minutos. Nesse caso não se pode confundir hora-relógio de 60 minutos com hora-aula, pois compreendem duas razões diferentes e complementares na medida em que a carga horária de um curso é medida por hora-relógio, senão vejamos:
A LDB estabelece que no Ensino Fundamental e no Ensino Médio, o efetivo trabalho letivo se constitui de 800 horas por ano de 60 minutos, de 2.400 horas de 60 minutos para o Ensino Médio e da carga horária mínima das
habilitações por área na Educação Profissional. Esse é um direito dos estudantes. Ao mesmo tempo, a LDB estabelece que a duração da hora-aula das disciplinas é da competência do projeto pedagógico do estabelecimento. O total do número de horas destinado a cada disciplina também é de competência do projeto pedagógico. No caso da pergunta do CEFET/GO, que manifesta a decisão de dedicar um mínimo de 60 horas para uma disciplina, modulando-a em aulas de 45 minutos, o mínimo de aulas a ser ministrado deverá ser o de 80 aulas (BRASIL, 2004).
Então, não podemos confundir para efeito da implementação da jornada de 1/3 de atividade extraclasse contida na Lei 11.738/08, hora-aula com hora-relógio, pois compreendem questões bem distintas.