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A justificativa embasada na incapacidade financeira

4. AS PARCERIAS PÚBLICO-PRIVADAS NO CONTEXTO

4.2 Mapeamento dos discursos justificativos das parcerias e crítica

4.2.1 A justificativa embasada na incapacidade financeira

Diferentemente do que se observa em grande parte dos países que também desenvolveram esta nova disciplina jurídica, a concepção das parcerias público-privadas reporta-se, no caso brasileiro, especialmente, a critérios financeiros. Tal qual asseverado, a título de contextualização, no item 3.2, a parceria público-privada encontraria fundamento na insuficiência de recursos públicos para alocação em investimentos de grande porte, em especial os relativos às obras de infra-estrutura.

Conforme dito no item 3.2, parte das experiências estrangeiras com parcerias público- privadas amparam-se na busca por aumento nos coeficientes de eficiência da prestação de certas atividades. É que, para uma variada gama de atividades de satisfação de interesse público, o Estado passou a prestá-las de modo insatisfatório, com aparato técnico e pessoal incapacitado para a gestão de interesses complexos. Este diagnóstico levou alguns países a buscarem, através das parcerias público-privadas, socorro junto a entidades privadas para a execução de ditas atividades, possibilitando-se, não só o investimento privado em serviços e obras públicas, mas, também, uma pretensa melhoria no oferecimento da atividade, capaz de conduzir, em última análise, à conseqüente redução de encargos para o cidadão-usuário.

Passou-se a delegar a prestação de atividades de satisfação de interesse público, antes a cargo do Estado, a parceiros privados, oferecendo-lhes contraprestação pública variável conforme seu desempenho, sua performance, àqueles serviços que não poderiam ser custeados exclusivamente por seus usuários.

No caso brasileiro, todavia, o discurso oficial afasta as parcerias público-privadas das justificativas de ineficiência estatal no oferecimento de atividades de satisfação de interesses públicos, buscando enquadrá-la como a melhor alternativa para a viabilização de

investimentos em áreas cujas demandas não são suficientemente atendidas por recursos públicos.

Toma-se, como exemplo, trecho da mensagem do Projeto de Lei encaminhado pelos Ministros da Fazenda e do Planejamento, Antônio Pallocci e Guido Mantega, respectivamente, ao Presidente da República Luís Inácio Lula da Silva, justificando a necessidade da aprovação do estatuto das parcerias:

As Parcerias Público-Privadas permitem um amplo leque de investimentos, suprindo demandas desde as áreas de segurança pública, habitação, saneamento básico até as de infra-estrutura viária ou elétrica. Veja-se que o Projeto de Plano Plurianual do Governo, encaminhado para vigorar no período de 2004 a 2007, estima a necessidade de investimentos na ordem de 21,7% (vinte e um vírgula sete por cento) do Produto Interno Bruto - PIB até 2007, como condição à retomada e sustentação do crescimento econômico do país, o que torna indispensável a existência de instrumentos de parcerias que possibilitem a sua concretização (BRASIL, PL 2546/2003).

Tal qual se depreende da própria análise da mensagem que acompanhou seu Projeto de Lei, tangencia o núcleo fundante das parcerias público-privadas, em nosso contexto, a busca imediata por maior eficiência na prestação do serviço. Deduz-se, aliás, que é a pretensão principal de seus idealizadores desonerar diretamente o Estado, buscando junto à iniciativa privada capital necessário para que se dê início a determinado pacote de obras, de cujos valores o erário não disporia.

Perfila-se, ao entendimento exposto, a opinião, por exemplo, do economista Antônio Delfin Netto, para quem até que seja executado um rigoroso corte de gastos de custeio e uma reforma tributária inteligente, investimentos significativos do governo em infra-estrutura inexistirão, cabendo tão-somente ao Estado apoiar-se nas parcerias público-privadas para atrair investimento estrangeiro (2004, p. 2).

A justificativa de insuficiência de recursos foi recepcionada, ainda, por parte da doutrina administrativista. Almeida e Zymler, por exemplo, reconhecem a parceria público-privada como meio pelo qual o Poder Executivo pretende viabilizar investimento em infra-estrutura sem utilizar recursos fiscais, praticamente indisponíveis na realidade atual (2005, p. 228). Egon Bockmann Moreira, a seu turno, prega que a parceria público-privada seria a mais nova

proposta de solução para problemas de desenvolvimento econômico, propiciando investimento de alta monta em infra-estrutura e em demais atividades (SUNDFELD (org.), 2005, p. 120).

O que, entretanto, passa despercebido nos debates é o fato de que a concepção de nova disciplina contratual, cujo requisito é a disponibilidade de altas cifras, não é garantia, por si só, da elevação de índice de desenvolvimento. Aliás, é perigoso que reformas legislativas e executivas sejam orientadas pelo discurso da carência de recursos, quando se sabe que as entidades administrativas nacionais são, via de regra, mal geridas.

Para ilustrar o raciocínio desenvolvido, tomam-se os dados disponibilizados pelo próprio governo federal, que acabam desmentindo o argumento da insuficiência financeira de recursos que pretensamente justifica a concepção, o desenvolvimento e a adoção das parcerias público-privadas. De acordo com a Subsecretaria de Comunicação Institucional da Secretaria Geral da Presidência da República, o governo federal gastou com publicidade – propaganda em televisão, rádio, jornal, outdoors e internet -, entre 1998 e 2005 aproximadamente 6,542 bilhões de reais (SECOM/SG – PR, 2006).

Em contrapartida, dos quatro projetos que se pretendem viabilizados por parcerias público-privadas nos próximos anos, três deles - o Anel Ferroviário de São Paulo, a Variante Ferroviária de Guarapuava-Ipiranga/PR, e a adequação e duplicação das BR 116 (Bahia/ Minas) - têm custo estimado, ao longo dos anos, de aproximadamente 1,7 bilhões de reais (MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO, ORÇAMENTO E GESTÃO, 2006). Em outras palavras: o valor gasto com publicidade oficial nos últimos sete anos foi quase quatro vezes o custo estimado para a execução de obras que o próprio governo entende como prioritárias à retomada do crescimento econômico e social.

Nesta esteira, Jorge Ulisses Jacoby Fernandes admite que as parcerias público-privadas caberiam, por força de sua justificativa ora em análise, a projetos necessários e indispensáveis para os quais o erário não disporia, a princípio, de recursos financeiros suficientes. Assim, toma-se o pacote de projetos prioritários que se pretendem viabilizados pelo poder executivo federal, que englobaria rodovias, ferrovias e portos. De acordo com o levantamento suscitado por Fernandes, trata-se de um total de investimentos de cerca de dez bilhões de reais.

Traduzindo: o governo federal não disporia de dez bilhões de reais para investimentos em obras de infra-estrutura consideradas indispensáveis ao crescimento econômico nacional, razão pela qual aqueles projetos haveriam de ser direcionados, por parcerias público-privadas, à iniciativa privada.

Em que pese a aparente verossimilhança do discurso, cumpre considerar, noutro vértice, a política econômica nacional referente ao cumprimento das metas de superavit primário público66. Em que pese ter sido acordado, junto ao Fundo Monetário Internacional para o ano

de 2004, a meta de 4,25% do Produto Interno Bruto, equivalentes a 71,5 bilhões de reais, Fernandes constata que o superavit efetivamente alcançado foi de 4,61% do Produto Interno Bruto, ou seja, 81,11 bilhões de reais. O Brasil economizou, desta forma, um excedente de superavit em torno de 9,6 bilhões de reais, valor muito próximo aos cerca de dez bilhões de reais dos quais o governo pretensamente não dispunha para investimento público direto, nas obras tidas, no momento daquela análise, como prioritárias ao desenvolvimento econômico e social (2006, p. 5).

Dos dados colacionados conclui-se pela refutação do discurso oficial de insuficiência de recursos públicos para investimentos em infra-estrutura, para efeito de legitimar a adoção das parcerias público-privadas. Das breves constatações expostas, depreende-se que são as prioridades assumidas pelos governos que conduzem a um status de maior ou menor capacidade de investimento. As opções eleitas para despesas pela Administração Pública Federal é que têm diminuído, sistematicamente, a capacidade de investimento em obras de infra-estrutura.

Fosse o investimento estatal em obras de infra-estrutura prioridade de fato, haveria, ao que tudo indica, receita pública suficiente para os projetos pretendidos67. Mas a análise dos

números revelam que as prioridades eleitas sucessivamente pelos governos, para a alocação de

66 O superavit é genericamente entendido como saldo positivo entre receitas e despesas, ou a economia feita pelo

governo para o pagamento da dívida pública, definido pelas políticas públicas nacionais e ajustadas com o Fundo Monetário Internacional.

67 Neste sentido, ver Parceria público-privada: novos postulados para a Administração Pública brasileira, de

verbas públicas, parecem não traduzir a determinação governamental de empreender esforço concreto para a retomada do crescimento econômico e social.

Ao lado de todas as considerações aventadas, da alocação de recursos públicos em setores contraproducentes e da potencial existência de recursos para os projetos prioritários que se pretendem viabilizados por parcerias, o discurso oficial de escassez de verba pública para a melhoria de serviços e investimentos há que ser refutado com vistas à própria segurança jurídica.

Tal qual asseverado nas linhas anteriores, reformas legislativas e jurídicas orientadas pela insuficiência de recursos são expedientes perigosos, que devem ser tomados após esgotadas todas as alternativas possíveis para a solução dos problemas postos. Caso contrário, hipoteticamente, por conta da falta de recursos poder-se-iam tolher direitos fundamentais devidos pelo Estado, tal qual ser declarada a impossibilidade de o Estado financiar a atividade de polícia, negar auxílio ao desamparado, negar acesso gratuito à justiça, não reconhecer direitos dos servidores públicos, deixar de financiar a educação pública, dentre outras barbáries. O fato de o Estado estar diante de uma crise financeira, orientada em grande parte, diga-se de passagem, pela incapacidade gerencial dos governantes, não o exime de cumprir com suas obrigações constitucionais.

Em que pese tais considerações, o ordenamento jurídico sempre pode ser aprimorado. E sob esta perspectiva, de aprimoramento de instituições tradicionais, é que deve ser encarada a parceria público-privada. Antes de aceitá-la como panacéia dos problemas financeiros enfrentados pela Administração Pública, é juridicamente coerente admiti-la como disciplina aperfeiçoada do sistema tradicional de concessão, necessária para viabilizar a busca por investimento privado em áreas até então não atrativas ao mercado.

Sundfeld, por exemplo, diz que a Lei de Parcerias Público-Privadas veio, justamente, a instituir regras faltantes à contratação por concessão comum, disciplinando: a) o oferecimento pelo parceiro público de garantia de pagamento de adicional de tarifa; e b) a assunção, pelos particulares, dos encargos de investir e implantar infra-estrutura estatal e depois mantê-la, sendo remunerados em longo prazo (2005, p. 21, 22).

A refutação do discurso oficial de escassez de recursos públicos traz pelo menos, duas implicações relevantes. Em primeiro lugar: reafirma a capacidade crítica do corpo social, já que, através do desnudamento dos verdadeiros motivos que levam ao desenvolvimento de novos instrumentos jurídicos, expõe-se e abre-se ao debate pontos controversos, passíveis de impugnação inclusive na esfera judicial. Isso sem falar da tarefa interpretativa, que pode vir a se apoiar justamente na justificativa dos diplomas legislativos para a solução de controvérsias.

Outra conseqüência que decorre da refutação da justificativa de insuficiência financeira para investimentos é o reconhecimento de que o valor econômico do projeto de parceria público-privada não deveria, a priori, orientar a disciplina dessas modalidades de concessão.

Como dito anteriormente, as parcerias público-privadas, em um variado número de países estrangeiros, são lançadas para, ao mesmo tempo, viabilizar o investimento privado em setores e atividades não auto-sustentáveis, fomentar a modernização do oferecimento de serviços e exploração de obras públicas e diminuir o custo final ao cidadão-usuário, valendo- se da capacidade empresarial privada para a gestão de atividades de satisfação de interesses públicos mediante a repartição de encargos entre os parceiros.

O que se quer dizer é que as parcerias público-privadas podem ser lançadas para atividades em que, mesmo o Estado dispondo de recursos para sua exploração, busca-se junto à iniciativa privada a conjunção de esforços para o alcance de melhores coeficientes de eficiência. Atraem-se parceiros privados impossibilitados de atuarem nesta espécie de empreitada, blindando os contratos administrativos contra o malfadado calote estatal, pela previsão de instrumentos diferenciados de garantia, de solução de litígios, entre outros.

Nas palavras de Adilson de Abreu Dallari:

As parcerias público-privadas servem, exatamente, para conferir viabilidade econômica a serviços públicos essenciais mas de baixa rentabilidade econômica, ou seja, em situações nas quais, sabidamente, não existe possibilidade de assegurar a sustentabilidade do serviço exclusivamente pelo pagamento de tarifas por parte de seus usuários. Não se trata de, incidentalmente ou eventualmente, pagar um subsídio para compensar diferenças eventuais ou episódicas. Trata-se, sim, de se estabelecer no próprio momento de celebração do contrato entre o particular e o Poder Público, que este vai, necessariamente, efetuar pagamentos ao particular executante, seja para completar o volume de recursos demandados pelo

empreendimento, seja para remunerar, em todo ou em parte, os serviços prestados (BRANCO; DALLARI, 2006, p. 129).

Esse é o fundamento que autoriza e deve justificar a aplicação de parcerias público privadas a atividades passíveis de serem carreadas pelo Poder Público, sob o ponto de vista financeiro, mas que, por razões de eficiência, são executadas e geridas pela iniciativa privada, como, por exemplo, as referentes, no caso brasileiro, às concessões administrativas para serviços de limpeza urbana, administração de presídios, entre outras.

Dessa sorte, se a justificativa para a parceria público-privada fosse estritamente financeira, eventual abonança econômica conduziria a perda de legitimidade do instituto. Ou seja, se algum dia sobrar recursos, dever-se-ia deixar de utilizar as parcerias público-privadas. Por isto, a verdadeira justificativa para as parcerias público-privadas deve repousar na eficiência administrativa, na busca junto ao parceiro privado de técnicas e métodos de gestão que melhor satisfaçam o interesse público, o que deve ser apurado caso a caso68.