• Nenhum resultado encontrado

A língua / linguagem como objecto de estudo

3. Écrits de liguistique générale

3.6. A língua / linguagem como objecto de estudo

Enquanto no Cours a linguagem é claramente apresentada como objecto de estudo da linguística enquanto ciência, o mesmo não acontece nos Écrits. Com efeito, a indagação saussureana sobre a linguagem apresenta-nos esta última como algo desconhecido, misterioso e enigmático para quem se proponha estudá-la:

Compte des causes qui font du langage un objet situé hors de toute comparaison et non classé ni dans l’esprit des linguistes ni dans l’esprit des philosophes (Ibidem: 257).

A língua é apresentada por Saussure, na primeira conferência de Novembro de 1891 em Genebra, como tendo um valor próprio que, por isso, deve ser alvo de estudo adequado e conhecimento geral (Ibidem: 145).

Tal como surge no Cours, a linguagem é apresentada como algo complexo e de difícil análise:

Celui qui se place devant l’objet complexe qu’est le langage pour faire son étude abordera nécessairement cet objet par tel ou tel côté (Ibidem: 22).

1 “Que le langage soit, à chaque moment de son existence, un produit historique, c’est ce qui est évident”

Por isso, há muitos pontos de vista que se podem adoptar, aumentando o grau de subjectividade e diminuindo a generalização do estudo:

Or il y a ceci de primordial et d’inhérent à la nature du langage que, par quelque côté qu’on essaie de l’attaquer – justifiable ou non -, on ne pourra jamais y découvrir d’individus, c’est-à-dire d’êtres (ou de quantités) déterminés en eux-mêmes sur lesquels s’opère ensuite une généralisation (Ibidem: 23).

Por isso, na conferência citada, Saussure se questiona sobre se vale a pena ou não ter a língua como objecto de estudo. A resposta é clara: vale a pena… principalmente pela importância que tem a linguagem articulada, que nos distingue dos restantes animais, visto que foi ela que nos fez evoluir:

Le langage ou la langue peut-il donc passer pour un objet qui appelle, par lui-même, l’étude? (…) Ce qui est clair, comme on l’a répété mille fois, c’est que l’homme sans le langage serait peut-être l’homme, mais qu’il ne serait pas un être se rapprochant même approximativement de l’homme que nous connaissons et que nous sommes, parce que le langage a été le plus formidable engin de l’action collective d’une part, et d’éducation individuelle de l’autre, l’instrument sans lequel en fait l’individu ou l’espèce n’auraient jamais pu même aspirer à développer dans aucun sens ces facultés natives (Ibidem: 145).

Porém, o que acontece, e é criticado em termos saussureanos, é que se tem transformado o estudo das línguas num estudo da linguagem, considerada como faculdade do homem e, portanto, encarada do ponto de vista antropológico1. Para Saussure, o estudo da linguagem está contido no estudo das línguas2, pois, no fundo, a “langue et langage ne sont qu’une même chose; l’un est la généralisation de l’autre” (Ibidem: 146). Dessa forma, estudar a linguagem sem estudar as suas diferentes manifestações (línguas) é para, o linguista genebrino, “une entreprise absolument vaine, et chimérique” (Ibidem). No entanto, estudando estas línguas ter-se-á em consideração que estas são regidas por alguns princípios que são resumidos na ideia de linguagem – universais linguísticos.

No que diz respeito à parole, Saussure defende que ela só é estudada por meio do estudo das diferentes línguas3. Efectivamente, na conferência de Genebra de 1981, o linguista advoga que não há separação entre o estudo da linguagem e o estudo das línguas, ou o estudo de diferentes línguas, uma vez que cada língua importa para compreender o facto universal da linguagem:

Qu’il n’y a pas de séparation entre l’étude du langage et l’étude des langues, ou l’étude de

1 “Vous transformez l’étude des langues en l’étude du langage, du langage considéré comme faculté de

l’homme, comme un des signes distinctifs de son espèce, comme caractère anthropologique” (Ibidem: 145 – 146).

2 “C’est qu’en effet l’étude du langage comme fait humain est tout entier ou presque tout entier contenu dans

l’étude des langues” (Ibidem: 146).

3 “À supposer même que l’exercice de la parole (…) n’est abordable pour la science que pour le côté de la

telle ou telle langue ou famille de langues; mais que d’un autre côté chaque division et subdivision de langue représente un document nouveau, et intéressant au même titre que tout autre, pour le fait universel du langage (Ibidem: 147).

No entanto, Saussure salienta ainda nos Écrits que a linguística não tem um objecto de estudo definido, visto existirem tantos pontos de vista no estudo linguístico:

Rappelons-nous en effet que l’objet en linguistique n’existe pas pour commencer, n’est pas déterminé en lui-même. Dès lors parler d’un objet, nommer un objet, ce n’est pas autre chose qu’invoquer un point de vue A déterminé.

(…)

Dans le langage, de quelque côté qu’on l’aborde, il n’y a point d’individus délimités et déterminés en soi, et qui se présentent nécessairement à la attention (Ibidem: 23 e 26).

Por outro lado, a língua é um objecto de estudo tão complexo que todas as imagens ou comparações que se façam dão uma imagem errada da língua:

Il n’existe pas d’objet tout à fait comparable à la langue qui est un être très complexe, et c’est ce fait que toutes les comparaisons et toutes les images dont nous nous servons habituellement aboutissent régulièrement à nous en donner une idée fausse par quelque point (Ibidem: 152).

Assim, todo o trabalho do linguista culmina na delicada tarefa de propor a definição das

unidades. Para o linguista de Genebra, há uma unidade absoluta, que é a identidade, e unidades possíveis, das quais se distinguem duas ordens:

- aquelas que resultam da divisão racional ou não da cadeia sonora, ou sintagma, em diferentes fracções e que serão as unidades do mesmo corpo concreto;

- aquelas que resultam da classificação das unidades da primeira ordem em relação com outras unidades da mesma ordem, tomadas de outros sintagmas e tidas como semelhantes em nome de tal ou qual característica. Desta forma, obtém-se uma unidade abstracta, mas que pode considerar-se unidade tal como as anteriores.

Nenhuma destas duas séries de unidades obtidas são mais que uma, por isso se considera tão difícil a tarefa do linguista de definição das unidades (Ibidem: 26).

Do explanado, a língua é encarada como constituindo um conjunto de oposições ou diferenças que ela própria reconhece, não se preocupando com o valor absoluto de cada um dos termos opostos, uma vez que poderão variar sem que o estado de língua se perca. A margem que existe para reconhecer determinado valor é denominada por Saussure como «flutuação». Dessa forma, em todos os estados de língua, podem verificar-se «flutuações»:

Nous tirons de là, d’une manière générale, que la langue repose sur un certain nombre de différences ou d’oppositions qu’elle reconnaît et ne se préoccupe pas essentiellement de la valeur absolue de chacun des termes opposés, qui pourra considérablement varier sas que l’état de langue soit brisé.

La latitude qui existe au sein d’une valeur reconnue peut être dénommée «fluctuation». Dans tout état de langue on peut rencontre des fluctuations (Ibidem: 36).

Do mesmo modo, poderá existir flutuação fonética associada a uma latitude de pronunciação, uma vez que os indivíduos não pronunciam as palavras de forma igual, sem, no entanto, impedir a compreensão da mensagem:

On peut distinguer au premier d’abord dans le langage, celui que nous appellerons la

FLUCTUATION phonétique, mérite d’être dés le début tiré de la masse et posé à la fois

comme unique en son genre, et tout à fait caractéristique du principe négatif qui est au fond du mécanisme de la langue.

Il existe probablement dans toute langue certains éléments ou certains groupes qui offrent, on ne sait pourquoi, une latitude de prononciation, pendant que la grande majorité est absolument inflexible dans la façon de se prononcer (Ibidem: 71)

Embora diferentes, os sons pronunciados são aceites pela comunidade linguística “comme valant la même chose” (Ibidem: 72), isto é, como tendo o mesmo valor.

Documentos relacionados