Capítulo 4: Doutos, sábios, cultos e scientes: a língua portuguesa no Culto à Ciência e no
2. A língua portuguesa no Ginásio de Campinas
Dando continuidade ao enfoque sobre a língua portuguesa nos colégios republicanos campineiros, nesta seção fazemos um breve panorama do ensino de Português no Ginásio de Campinas, através dos perfis dos lentes que ocuparam essa cadeira, entre 1897 e 1910, e da referência a algumas obras gramaticais utilizadas no período24.
No primeiro Regulamento dos Ginásios do Estado, de 1895 (decreto n. 293/1895), a primeira e a segunda cadeiras eram chamadas de “Português”, mas, na versão de 1900 (decreto n. 858/1900), pós-equiparação ao Ginásio Nacional, a segunda cadeira passou a ser denominada “Literatura”. A informação é interessante porque parece demonstrar que as duas áreas de estudos de linguagem eram vistas como tão intrínsecas a ponto de se aglutinarem num mesmo “nome”, ou seja, significando que “literatura é língua”. Nesse sentido, fica evidente como os autores e os textos literários selecionados para as aulas representariam o modelo de língua culta – de língua legítima (BOURDIEU, 2008) – a ser transmitido para e reproduzido pelos alunos. Não que isso tenha se alterado com a divisão das cadeiras, pois as aulas de Português seguiriam baseadas em compêndios gramaticais nos quais os exemplos de língua provinham quase exclusivamente da literatura, isto é, de escritores referenciais.
Ademais, havia o trânsito dos mesmos docentes por entre as duas cadeiras e, ainda, em alguns períodos, a regência de ambas por um único lente, conforme pode ser observado no quadro abaixor:
Quadro 1 – Lentes de Português e Literatura do Ginásio de Campinas (1897-1910)
1ª. Cadeira – Português 2ª. Cadeira – Literatura
1897-1900 – Henrique de Barcelos 1897-1900 – Henrique de Barcelos 1900-1906 – Bento Ferraz 1900-1901 – Bento Ferraz
1906-1910 – Américo Brasiliense
Antunes de Moura 1901-1904 – Henrique Coelho Neto 1904-1910 – Bento Ferraz
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Informações obtidas através dos “Mappas das faltas de comparecimento do pessoal administrativo e docente do Gymnasio de Campinas” (acervo: APESP) e das atas das seções da Congregação (acervo: EECC).
No caso de Henrique de Barcelos, além de agregar a docência das duas disciplinas, ele também foi diretor da instituição entre os anos de 1898 e 190125. Para alcançar o prestígio de ocupar duas cadeiras e ainda o topo da hierarquia de cargos do Ginásio, Barcelos se valeu da teia de relações estabelecidas com os campineiros, a partir de experiências sociais comuns. Isso porque ele não tinha a “distinção” do diploma de ensino superior e, ao que tudo indica, era de origem humilde26: português dos Açores, chegou à cidade em 1873, aos dezenove anos, e dedicou-se ao comércio, como caixeiro de loja de ferragens (GALZERANI, 1998). Em seguida, associou-se a outros comerciantes e, juntos, fundaram o jornal Diário de Campinas (1875), de feição republicana e abolicionista, que fazia oposição à Gazeta de Campinas, periódico ligado aos bacharéis. Depois de ingressarem no jornalismo, todos os redatores do Diário passaram a se dedicar também ao magistério (BLANCO, 1995), e Barcelos tornou-se lente de Português no Colégio Culto à Ciência (1876 a 1884).
É intrigante o fato de Henrique de Barcelos ter se inserido no espaço do Culto à Ciência, uma vez que os idealizadores do colégio pertenciam à “socialização endógena” dos bacharéis (ALONSO, 2002). Todavia, a “rixa” não deveria ser tão grande, já que Barcelos também atuou ao lado do bacharel Alberto Sales nos jornais A Sensitiva (1873) e A Mocidade (1874), cujo nome se alterou para Atualidade (1875) e, finalmente, para Diário de Campinas (GALZERANI, 1998) – ou a “rixa” não seria tão grande a ponto de impedir que Barcelos estabelecesse relacionamentos com aqueles que poderiam conferir-lhe reconhecimento e capital simbólico27. Ainda pode ter fortalecido a escolha de Barcelos como lente de língua portuguesa o fato de ele ser português – aventando-se a hipótese de que, tal qual Júlio Ribeiro, os republicanos campineiros consideravam o Português Europeu a língua
legítima, e, assim, nada melhor do que um “nativo” para ensiná-la28. Outra hipótese é que, representando o setor do comércio, sua escolha como docente se vinculasse à proposta dos fundadores do Culto à Ciência de abrir a instituição aos “pobres”, isto é, a jovens oriundos do estrato intermediário, no intento de promover o que consideravam “instrução popular”29.
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Cf. Capítulo 3 desta Tese.
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As fontes biográficas não dão muitos detalhes sobre a fase inicial de sua trajetória. Blanco (1995) apenas aponta que ele não cursou a Faculdade de Direito de São Paulo.
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E esse aspecto remete a uma das incoerências que identificamos na trajetória de Júlio Ribeiro, aproximando os dois personagens: criticar os bacharéis, mas se aproximar deles para conseguir ascender na esfera intelectual. Vale ressaltar que, pertencendo a um grupo mais radical de republicanos, Barcelos apoiaria Ribeiro nas Cartas
Sertanejas (1885).
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Hipótese a ser verificada na próxima seção do capítulo, onde analisamos a colocação pronominal em textos de Júlio Ribeiro e de Henrique de Barcelos e a comparamos com os resultados obtidos sobre escritos de intelectuais republicanos paulistas, por Santos Silva (2012), e de autores portugueses oitocentistas, por Oliveira (2011).
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Cf. Capítulo 2 desta Tese, sobretudo a acepção restritiva dada a “instrução popular” pelo discurso dos republicanos campineiros.
Nota-se como foi rápida a ascensão de Barcelos – um “outsider” – ao grupo dos “estabelecidos” (ELIAS, 2000) da cidade, o que possivelmente o levou também a compor, posteriormente, o corpo docente e diretor do Ginásio. Barcelos ainda foi redator e diretor dos jornais Correio de Campinas e Comércio de Campinas, organizador de almanaques e sócio fundador do Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA). É referido como “um dos maiores homens da imprensa de Campinas” e “o mais completo jornalista da época” (MONTEIRO, 1976, p. 32).
Na cadeira de Português, Barcelos foi substituído por Bento Ferraz (1865-1944). As informações obtidas atestam que ele provinha de Araraquara, era filho de sitiantes, foi convertido ao presbiterianismo por missionários norte-americanos, em Dois Córregos, e depois encaminhado a São Paulo para estudar na Universidade Mackenzie. Tornou-se pastor e ao lado de Eduardo Carlos Pereira – lente de Português do Ginásio da Capital – foi contrário à aceitação pela Igreja Presbiteriana do Brasil de membros e pastores pertencentes à maçonaria. Dessa dissidência, formou a Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, em 1903.
O lente que o sucedeu, Américo Brasiliense Antunes de Moura (1881-1953), nascido em Santa Bárbara do Oeste, difere dos anteriores por ter se formado pela Escola Normal da Capital (1903), onde posteriormente seria professor de Português (RIBEIRO, 2015), e ter se diplomado pela Faculdade de Direito de São Paulo (1920). Ingressou no Ginásio de Campinas ao vencer concurso disputado com Othoniel Motta e Raul Soares. Teve vida sociocultural ativa, sendo membro da Academia Paulista de Letras, da Sociedade Paulista de Escritores, da Sociedade Paulista de Filologia, da Sociedade Científica de São Paulo, e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.
Por fim, destaca-se a figura de Coelho Neto, que, embora não tenha sido lente de Português, foi escritor e professor de Literatura – pensando na relação entre esta e a língua, de que tratamos anteriormente – e, até hoje, é um dos mais afamados professores do Ginásio.
O maranhense Henrique Coelho Neto (1864-1934), filho de pai português e mãe índia, transferiu-se para o Rio de Janeiro aos seis anos de idade e estudou os preparatórios no externato do Colégio Pedro II. Ingressou mas não concluiu os estudos superiores nem em Medicina, no Rio, nem em Direito, em São Paulo e Recife. Antes de se mudar para Campinas, Coelho Neto fizera parte do grupo de Olavo Bilac, Guimarães Passos e Paula Ney, fora companheiro assíduo de José do Patrocínio, na campanha abolicionista, trabalhara na imprensa, e já havia publicado vários livros, tendo “um nome literário nacional” (LAPA, 1960), e tinha sido nomeado professor de História da Arte da Escola Nacional de Belas Artes.
Em 1901, partiu para Campinas atraído pela abertura do concurso para a cátedra do Ginásio e motivado por uma crise financeira:
Conta ainda seu filho que no ano anterior (1900) o pai chegou a interromper a sua colaboração para os jornais, devido a grave enfermidade. Estancada a fonte de renda, viu-se obrigado o escritor a vender, em leilão, os seus móveis, livros e cristais [...]. Tantos dissabores o levaram, com a família, a aceitar o aceno do magistério campineiro”. (LAPA, 1960, p. 21)
Na cidade, além de ser professor no Ginásio, Coelho Neto foi sócio do CCLA.
O fato de ter sido aprovado no concurso para lente de Literatura no Ginásio de Campinas teria favorecido, em 1909, sua nomeação para o mesmo cargo no Ginásio Nacional, sem precisar prestar novo exame (LAPA, 1960). Também em 1909 foi eleito deputado pelo Maranhão, secretário do governo do estado do Rio, professor e diretor da Escola Dramática Municipal, isso tudo sem deixar de publicar inúmeros livros e ser um dos mais assíduos colaboradores da imprensa diária e das revistas mundanas – um “polígrafo da imprensa” (SEVCENKO, 2003).
Em suma, as figuras de Júlio Ribeiro, Henrique de Barcelos e Coelho Neto ilustram como, numa época caracterizada pela inexistência de um campo intelectual “autônomo”, no qual um escritor pudesse viver exclusivamente da atividade literária, cabia aos “homens de letras” o exercício do magistério, do jornalismo, da burocracia ou de profissões liberais (MACHADO NETO, 1973). E eram essas profissões que, aliadas às teias de relações sociopessoais (ALONSO, 2002; SIRINELLI, 2003), os inseriam e legitimavam no universo letrado, proporcionando-lhes capital simbólico. Importante também é atentar que essas três personagens conseguiram adentrar ao grupo dos “estabelecidos” embora fossem “outsiders” de origem e, nas palavras de Ribeiro, “sábios de título negativo”, ou seja, não bacharéis.
Antes de investigarmos o padrão linguístico culto de tais lentes, consideremos ainda o suporte por meio do qual o modelo de língua “legítima” era transmitido aos alunos: as gramáticas30.
Entre 1897 e 1910, estas foram algumas das obras utilizadas nas aulas de Português no Ginásio de Campinas31:
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A partir de 1900, estava em vigor a equiparação do programa do Ginásio de Campinas ao do Ginásio Nacional. Com isso, os lentes deixaram de formular os programas de ensino de suas cadeiras. Estes passaram a ser organizados trienalmente pela Congregação do Ginásio Nacional e aprovados pelo Ministério dos Negócios do Interior (decreto n. 858/1900).
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- Grammatica Portugueza, de Júlio Ribeiro;
- Grammatica Historica da Lingua Portugueza, de António Garcia Ribeiro de Vasconcellos;
- Grammatica Descriptiva, de Maximino Maciel;
- Grammatica da Lingua Portugueza, de Pacheco Silva Junior e Lameiro de Andrade;
- Grammatica Portugueza, de João Ribeiro;
- Grammatica Expositiva, de Eduardo Carlos Pereira.
Renomado por sua Grammatica e autor “da casa”, Júlio Ribeiro esteve presente, por vários anos, nos títulos adotados: por escolha do lente Bento Ferraz, em 1901, 1903 e 1905, e por opção de Américo de Moura, em 1910. Se essa obra é tida como a “divisora de águas da gramaticografia no Brasil”, por representar uma ruptura epistemológica com a tradição filosófica e introduzir o modelo histórico-comparativo de estudo da língua, as demais gramáticas adotadas pelo Ginásio seguem a mesma toada, aderindo à orientação das correntes científicas (FÁVERO; MOLINA, 2006) e concedendo atenção (ainda que mínima) a dados do Português Brasileiro (COELHO; DANNA; POLACHINI, 2014).
De fato, tais obras foram publicadas posteriormente à reforma dos programas dos exames preparatórios, conduzida por Fausto Barreto, em 1887, válida para todo o Império e inspirada nas correntes científicas. Nas Procellarias, Júlio Ribeiro reproduz integralmente o programa de Barreto32 e tece comentários elogiosos a ele, como: “Não há negar; é este um programma organizado scientificamente, sobre as bases largas, solidas, da sciencia da linguagem” (RIBEIRO, 2007, p. 92), “nada de superfetações escholasticas, nada de metaphyisica medieval” (Ibid., p. 93); elogios que culminam com o nada modesto “auto- louvor” ao caráter precursor de sua própria Grammatica:
Si foramos vaidoso, era esta a hora de rejubilar: o programma de Portuguez, bem como os de todas as outras linguas que se ensinam officialmente no Brasil, está de accordo exacto, perfeito com os principios da grammatica scientifica, que, em 1881, tivemos a ousadia de arrojar á publicidade. (RIBEIRO, 2007, p. 93)
Um dos tópicos gramaticais arrolados por Fausto Barreto, o de número 40, refere-se à “collocação dos pronomes pessoaes”. Por constar de seu programa, representava um tema de
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destaque no estudo da língua portuguesa, mas, conforme veremos na próxima seção, as discussões a seu respeito não se restringiam ao espaço escolar.