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A lógica da rede de atores do Programa Mulheres Mil

6.2 A construção dos problemas na policy-making e o subsistema político

6.4.1 A lógica da rede de atores do Programa Mulheres Mil

O PMM foi idealizado a partir de um trabalho conjunto entre a Associação das Faculdades Comunitárias Canadenses (ACCC) e a Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação (SETEC/MEC), intitulado “Projeto-Piloto ARAP”, que ocorreu entre 2005 e 2006. A ACCC coordenou o desenvolvimento e a im- plementação de programas de capacitação em cinco Centros Federais de Educação Tec- nológica (CEFETs) do Norte e Nordeste, por meio de parceria com as faculdades cana- denses. Após esse período, surgiu a oportunidade de um novo projeto, que envolveu 13 CEFETs do Norte e Nordeste e as faculdades canadenses, financiado pela Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional (CIDA) e pelo Ministério da Educação (BRASIL, 2006).

A primeira fase do PMM foi planejada para um período de quatro anos, entre 2007 e 2010, e teve como objetivo desenvolver sistemas e práticas consideradas inovadoras para os serviços de capacitação de mulheres em risco de vulnerabilidade social.

O suporte de financiamento solicitado ao Canadá foi de U$ 2.596.339 e ao Brasil foi de U$ 4.057.390 (BRASIL, 2006). Nessa fase, o programa foi formulado e imple- mentado pela ACCC, pelo Niagara College, pela SETEC e pelos 13 CEFETs do Norte e

Nordeste (BRASIL, 2006). No Quadro 4 estão os principais parceiros do PMM, com a coordenação geral em nível nacional.

Quadro 4 – Rede de atores do Programa Mulheres Mil na primeira fase

Nível Brasil Canadá

Nacional

Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação (SETEC/MEC).

Association of Canadian Community Colleges/

Associação das Faculdades Comunitárias Canadenses (ACCC)

Regional

Rede Norte e Nordeste de Educação Tecnológica (REDENET).

ACCC

Institucional

Centros Federais de Educação Tecnológica (CEFETs) no Nordeste e Norte: Alagoas, Bahia, Maranhão, Paraíba, Piauí, Roraima, Tocantins, Amazonas, Ceará, Pará, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe.

Niagara College (faculdade parceira líder) Canadian Colleges (selecionados com base na expertise individual)

Fonte: SETEC/ACCC (2006).

Nessa fase, o Mulheres Mil priorizou o seguinte objetivo:

1. O objetivo principal do Projeto Mulheres Mil é promover a inclusão social e econômica de mulheres desfavorecidas no Nordeste e Norte do Brasil, permitindo-lhes melhorar o seu potencial de mão-de-obra, suas vidas e as vidas de suas famílias e comunidades (BRASIL, 2006, p.1).

Por meio dos processos materiais transformativos “promover” e “permitir” (ex- certo 1), nota-se que a política pressupõe que a inclusão social e econômica de mulheres desfavorecidas oportuniza a melhoria do potencial de mão de obra. Esse pressuposto se relaciona ao discurso da teoria do capital humano, que sustenta que as competências, as habilidades e as aptidões de um indivíduo instituem o seu capital. Assim, a capacitação e a educação atuariam como um investimento, que viabilizaria o aumento da produtividade do indivíduo-trabalhador e potencializaria os seus rendimentos ao longo da vida (COSTA, 2009).

O objetivo também era que a inclusão social e econômica dessas mulheres pro- movesse a melhoria de sua qualidade de vida, estendendo-se às famílias e às comunidades das quais fazem parte. Conforme Carvalho (2008), a casa ganha uma centralidade a partir do século XIX, configurando-se como um local de reprodução do sistema psicossocial. Nesse contexto, a mulher é representada como o elemento central de estabilização das estruturas psíquicas dos indivíduos, sendo esse um importante pressuposto do PMM.

Por sua vez, o propósito do PMM representa aquilo que se deseja alcançar com o projeto:

2. O propósito do projeto é contribuir com o desenvolvimento da compe- tência da rede CEFET no Nordeste e Norte do Brasil, visando desen- volver as ferramentas, as técnicas e o currículo para oferecer, em um período de quatro anos, a um mínimo de 1.000 mulheres desfavore- cidas, os serviços de acesso, capacitação e relações com empregadores que lhes permitam entrar ou progredir no mercado de trabalho (BRASIL, 2006, p.1).

Constata-se que o pressuposto é que o desenvolvimento de determinadas compe- tências dos CEFETs na área de qualificação profissional permitirá o melhor relaciona- mento com os empregadores, assim como o ingresso e a progressão das mulheres desfa- vorecidas no mercado de trabalho. Esse fato é evidenciado por meio do processo material transformativo “contribuir”, no qual a meta é “as competências da rede CEFET no Nordeste e Norte do Brasil”. No excerto 2 também se identifica o processo material criativo “desenvolver”, em que a meta é “as ferramentas, as técnicas e o currículo”. Aqui, as mulheres consideradas desfavorecidas atuam como beneficiárias.

Logo, por intermédio de orações relacionais atributivas intensivas, os CEFETs e as faculdades canadenses são caracterizados como as instituições adequadas para desen- volver e implementar o instrumento de capacitação, como se percebe nos excertos 3 e 4, nos quais o portador é “os CEFETs” e os atributos são as “instituições apropriadas e sustentáveis” e “os instrumentos de mudança educacional e social”. Portanto, pressu- punha-se que a parceria entre as duas instituições promoveria um instrumento eficaz e capaz de incentivar as mulheres desfavorecidas a fazer parte da mão de obra formal:

3. Os CEFETs, semelhantes às faculdades canadenses, são instituições apropriadas e sustentáveis para desenvolver e implementar programas de suporte e capacitação para preparar e auxiliar as mulheres desfavo- recidas a fazer parte da mão-de-obra formal (BRASIL, 2006, p. 2). 4. Os CEFETs, com o apoio das faculdades canadenses parceiras, são os

instrumentos de mudança educacional e social para essas mulheres (BRASIL, 2006, p. 10).

Segundo Voss e Simons (2014), o instrumento fornece um propósito e um quadro de relevância para os atores e para as suas práticas, a fim de promulgar, dar vida e materializar o instrumento. Assim, a legitimação da rede de atores e de seu instrumento opera mediante a racionalização, em uma lógica econômico-financeira, como se observa na Figura 4.

Figura 4 – Elementos da Lógica de Funcionamento do PMM

Fonte: Brasil (2006).

Beger e Luckmann (2014, p. 124) argumentam que “a legitimação não apenas diz ao indivíduo por que deve realizar uma ação e não outra, diz-lhe também por que as coisas são o que são”. Dessa forma, “as pessoas fazem certas coisas não porque dão resultado, mas porque são certas – isto é, certas em termos das supremas definições da realidade promulgadas pelos especialistas no universal.” (p. 153). Em vista disso, no discurso, a SETEC e a ACCC legitimam as ações dos CEFETs e das faculdades canadenses por meio do desenvolvimento de novas tecnologias educacionais e de qualificação profissional, visto que “a legitimação não é apenas uma questão de “valores”. Sempre implica conhecimento.” (p. 124).

Na perspectiva mais construtivista, os instrumentos políticos são portadores de significados e valores e contribuem para a construção da realidade. Compreender os ins- trumentos como instituições significa reverter a relação causal entre os instrumentos políticos e outras possíveis variáveis ou fatores. Assim, os instrumentos têm sua própria história contextualizada e estruturam o comportamento dos formuladores de políticas (INGRAM; SCHNEIDER, 1993; BRAUN; CAPANO, 2010).