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A lógica da soberania 445 : contrato e poder (nunca injusto)

CAPÍTULO 4. Liberdade e Estado: vida (natural e artificial) e poder

4.2. A lógica da soberania 445 : contrato e poder (nunca injusto)

§304 O aspecto jurídico do contrato e o aspecto político do poder estão

intimamente interligados na teoria hobbesiana da soberania na medida em que aquele é o que permite o uso absoluto (e, portanto, livre) do poder soberano; se, por um lado, os cidadãos/súditos transferem os seus poderes ilimitadamente, com exceção das suas vidas e dos meios de as preservar446, e renunciam ao direito a tudo, por outro, o soberano nunca renunciou o seu direito de natureza – juridicamente, então, a vontade do soberano está respaldada em fundamentos de ordem contratual. Ou seja, a vida dos homens é inalienável, e tudo, fora ela, é passado para o soberano, que continua no estado natural, enquanto os súditos obedecem suas vontades (leis e julgamentos) no estado civil.

§305 Em relação aqueles que realizam entre si o pacto social, é

necessário ressaltar que, no sistema hobbesiano, um indivíduo pode (irracionalmente) retirar a própria vida (possuindo liberdade, se poder tiver, para tanto)447; no entanto, está proibido de acordar com outrem que não se defenderá caso este tente retirar a sua vida. Se, por um lado, o indivíduo tem a possibilidade de não jogar fora os objetos do navio que pode afundar caso os mesmos continuem nele, por outro lado, o indivíduo não pode dispor, em relação a outrem, de seu direito natural de fazer tudo que estiver ao seu alcance para preservar a sua vida - “mesmo os criminosos tem a liberdade de lutarem pelas suas vidas”448. Assim, transferência de direitos (inclusive a realizada para instituir

445 A importância da soberania para o corpo do Estado se movimentar pode ser apreendida, mutatis

mutandis, pelas seguintes palavras de Hobbes: “uma república sem poder soberano não passa de uma palavra sem substância e não pode subsistir”. Leviatã. Parte 2 – Da República. Cap. XXXI – Do Reino

de Deus por Natureza. p. 299;

446 Adicionalmente as passagens já citadas quanto a este assunto: “há alguns direitos que é impossível

admitir que algum homem, por quaisquer palavras ou outros sinais, possa abandonar ou transferir...” e, mais a frente no texto, que “um pacto em que eu me comprometa a não me defender da força pela força é sempre nulo. Porque ninguém pode transferir ou renunciar ao seu direito de evitar a morte, os ferimentos ou o cárcere...e portanto a promessa de não resistir à força não transfere nenhum direito em pacto algum, nem é obrigatória” (Leviatã. Parte 1 – Do Homem. Cap. XIV - Da primeira e segunda leis

naturais. p. 115); “...o direito que por natureza os homens tem de se defenderem a si mesmos, quando

ninguém mais os pode proteger, não pode ser abandonado através de pacto algum” (Leviatã. Parte 2 –

Da República, Cap. XXI. Da Liberdade dos Súditos. p. 188-189);

447 vide Item 1.3 desta dissertação (“Suicídio”);

o Estado) é algo que envolve racionalidade449: um homem nunca pode fazer um pacto pelo qual se obriga a retirar a própria vida (porque isto seria contra a lei racional-natural no condizente à relação de um indivíduo consigo mesmo e com seu semelhante); mas pode fazer um pacto em que aceita que retirem a sua vida (pena de morte) caso faça o que estava proibido ou deixe de fazer o que havia sido ordenado a fazer:

“...o consentimento de um súdito ao poder soberano está contido nas palavras eu autorizo, ou assumo como minhas, todas as suas ações, nas quais não há nenhuma espécie de restrição à sua antiga liberdade natural. Porque ao permitir-lhe que me mate não fico obrigado a matar-me quando ele me ordena”450.

§306 E é esta indisponibilidade da vida dos homens que embasa o

chamado direito de resistência a uma ordem soberana451 e a quebra do que denominados de circularidade da vontade, segundo a qual o soberano age como se fossem os cidadãos/súditos que estivessem agindo em seu lugar.

§307 Já em relação ao soberano, o aspecto jurídico a ser enfatizado,

como já mencionado, é que ele não renunciou ao direito de natureza, não está como parte que pactuou e, consequentemente, não pode quebrar pacto algum mesmo que tenha atentado contra a finalidade do uso do poder soberano (que é a busca da paz); não é possível ao soberano, de acordo com a filosofia hobbesiana, cometer injustiça, já que quem faz a lei, no pensamento de Hobbes, não está sob ela, mas, sempre, acima dela. O único mundo jurídico que circunda o soberano, o qual vive no estado natural (mesmo quando o civil é instituído), é o da lei racional-natural, a qual é desprovida de força e, portanto, de possibilidade de

449 Inclusive na decisão soberana: “Se um monarca ou uma assembleia soberana conceder uma liberdade

a todos ou a qualquer dos súditos, concessão essa que lhe faz perder a capacidade de prover à sua segurança, a concessão é nula”. Leviatã. Idem retro. p. 188;

450 Leviatã. Idem retro. p. 186;

451 “se o soberano ordenar a alguém (mesmo que justamente condenado) que se mate, se fira ou se mutile

a si mesmo, ou que não resista aos que o atacarem, ou que se abstenha de usar os alimentos, o ar, os medicamentos, ou qualquer outra coisa sem a qual não poderá viver, esse alguém tem a liberdade de desobedecer...portanto, quando a nossa recusa de obedecer prejudica o fim em vista do qual foi criada a soberania, não há liberdade de recusar; caso contrário, há essa liberdade”. Leviatã. Parte 2 – Da

constrangimento quando de seu desrespeito452. Neste sentido, a maior liberdade que se pode ter, relativamente aos homens, é a do soberano: como esclarece o filósofo, Davi, ao matar Urias, não comete injustiça contra ele, mas, tão somente, comete iniquidade contra Deus, esclarecimento que permitirá ao filósofo defender que o poder ilimitado do soberano é compatível com a liberdade dos cidadãos/súditos; nas palavras de Hobbes:

“O mesmo vale também para um príncipe soberano que leve à morte um súdito inocente. Embora o ato seja contrário à lei de natureza, por ser contrário à equidade, como foi o caso de Davi ao matar Urias, contudo não constitui dano causado a Urias, e sim a Deus. Não a Urias, porque o direito de fazer o que lhe aprouvesse lhe foi dado pelo próprio Urias, mas a Deus, porque Davi era súdito de Deus, e estava proibido de toda iniquidade pela lei de natureza. Essa distinção foi confirmada pelo próprio Davi de maneira evidente, quando se arrependeu do fato e disse: Somente contra vós pequei”453

§308 O soberano é quem cria, suspende e extingue a lei civil454, naquilo

que ele considera melhor para a defesa da vida do Estado455; e se ele deve seguir as leis naturais, em razão de um mandamento racional-natural, não significa que

452 Valendo, quanto a psicologia do soberano, lembrar RYAN, citado por MARTINICH, o qual expressa

que “o que os indivíduos de Hobbes maximizam no estado de natureza é poder (Ryan 1988:92)” (tradução livre). Hobbes. p. 218;

453 Leviatã. Parte 2 – Da República. Cap. XXI – Da Liberdade dos Súditos. p. 182;

454 A potência do soberano fica clara quando apreendemos que as questões de direito intertemporal, ou

seja, as questões relativas a uma lei antiga e uma lei nova, está, na filosofia hobbesiana, condicionada à vontade atual do soberano. Nas palavras de Hobbes, as quais também expressam que um cidadão/súdito não pode mover um ação contra o soberano: “se o soberano pleitear ou tomar alguma coisas em nome do

seu poder, nesse caso deixa de haver lugar para qualquer ação da lei, pois tudo o que ele faz em virtude do seu poder é feito pela autoridade de cada súdito, e em conseqüência quem mover uma ação contra o soberano estará movendo-a contra si mesmo” (Leviatã. Parte 2 – Da República. Cap. XXI. Da Liberdade

dos Súditos. p. 188);

455 Segundo AGAMBEN, citando SCHMITT: “O paradoxo da soberania se enuncia: 'o soberano está, ao

mesmo tempo, dentro e fora do ordenamento jurídico'. Se o soberano é, de fato, aquele no qual o ordenamento jurídico reconhece o poder de proclamar o estado de exceção e suspender, deste modo, a validade do ordenamento, então 'ele permanece fora do ordenamento jurídico e, todavia, pertence a este, porque cabe a ele decidir se a constituição in toto possa ser suspensa' (Schmitt, 1922, p. 34). A especificação 'ao mesmo tempo' não é trivial: o soberano, tendo o poder legal de suspender a validade da lei, coloca-se legalmente fora da lei. Isto significa que o paradoxo pode ser formulado também deste modo: 'a lei está fora dela mesma', ou então: 'eu, o soberano, que estou fora da lei, declaro que não há um fora da lei'. Vale a pena refletir sobre a topologia implícita no paradoxo, porque somente quando tiver sido compreendida a sua estrutura, tornar-se-á claro em que medida a soberania assinala o limite (no duplo sentido de fim e princípio) do ordenamento jurídico”. Homo sacer – O poder soberano e a vida

ele não possa ser iníquo, porque, no mundo da praxis, nunca haverá, entre os homens, poder capaz de se sobrepor ao seu. Portanto, o soberano não precisa obedecer lei alguma (não precisa ter medo), sendo seu direito pleno e total a tudo aquilo que a sua vontade ditar e, neste sentido, ele é o único que resguarda o direito de natureza a tudo456457 458, e não apenas a defesa de sua vida (como ocorre com os cidadãos/súditos) ou defesa da vida do Estado (pois, inclusive, pode optar por sua não continuidade, ao não declarar o herdeiro de seu poder, quando estes naturalmente não existirem459).

§309 E se os homens permanecem com o direito de fazer tudo aquilo que

for necessário para a preservação da própria vida, uma vez criado o poder soberano, a questão passa do aspecto meramente jurídico para o físico-político do corpo do Estado. Deste modo, nos limitamos ao construir o Estado, nossa criatura, e, ao mesmo tempo, esta criatura se torna, em relação a nós, independente. E isto ocorre, justamente, porque tal criatura possui maior poder do que nós e, assim, pode impor a direção do movimento quando da composição de forças contrárias; no sistema hobbesiano o Estado pode destruir criaturas que Deus criou: eis o seu poder.

* * *

456 Segundo AGAMBEN: “...em Hobbes, o fundamento do poder soberano não deve ser buscado na

cessão livre, da parte dos súditos, do seu direito natural, mas, sobretudo, na conservação, da parte do soberano, de seu direito natural de fazer qualquer coisa em relação a qualquer um, que se apresenta então como direito de punir”- Idem retro. p. 113;

457 JANINE RIBEIRO expressa: “Hobbes insiste sempre em que, por duas razões, o soberano nunca é

injusto com seus súditos: porque não renunciou ao seu direito de natureza, e portanto, desobrigado, não conhece lei a transgredir; e porque, autorizado pelos demais, os atos seus sã deles (aí se funda a sua representação). Contudo, ao explicar de onde o soberano extrai o seu direito a punir, refere-se Hobbes apenas a primeira razão (XXVIII, p. 354) – como a indicar que a representação morre, quando o representante fere o representado”. Ao leitor sem medo – Hobbes escrevendo contra seu tempo. p. 93;

458 A abordagem acerca do poder soberano absoluto, pode ser feita, de um modo menos satisfatório (do

que, a nosso ver, o de AGAMBEN), quando nos voltamos para a questão da identidade, ou não, entre Estado e soberania; MARTNICH, citando SKINNER, expressa: “A explicação para a fusão da soberania

e do Estado está relacionada a indecisão sobre autorização e alienação. Quando ele [Hobbes] quer que as ações do soberano sejam livres de criticismo dos cidadãos (autorização), então ele identifica soberania com Estado. Mas quando ele quer que os súditos obedeçam o soberano (alienação), então ele separa a soberania do Estado (cf. Skinner 2002: 207-8)” (tradução livre). Hobbes. p. 228-229;

459 “...embora a natureza possa declarar quem são os seus filhos, e quem é o parente mais próximo,

continua dependendo da sua própria vontade (conforme se disse no capítulo anterior) designar quem deverá ser o herdeiro. Assim, se ele não tiver herdeiro, não há mais soberania nem sujeição”. (Leviatã.

4.3. Liberdade do soberano pelo Estado (segundo Hobbes): julgamento e