217
MONTEIRO, Claudia Sevilha. Fundamentos para uma teoria da decisão judicial. Disponível em: <http://www.conpedi.org.br/manaus/arquivos/anais/bh/claudia_servilha_monteiro.pdf>. Acesso em: 06/12/2012.
A convicção de que as decisões jurídicas podem ser controláveis, advém da compreensão de que é plausível aplicar, ainda que de maneira parcimoniosa, mas útil, alguma espécie de lógica ao direito. Advém da compreensão de que o silogismo tem alguma serventia e que, mesmo nos casos em que não tem, é possível determinar parâmetros de verificação da racionalidade da decisão.
A interação entre lógica e direito é comumente recebida nos meios acadêmicos com certa desconfiança218. Depois da ascensão da lógica-deontica do positivismo kelseniano, no início do século XX e depois das duras críticas que a referida concepção recebeu na segunda metade do mesmo século, a postura de
defesa da aplicação da lógica ao direito, em qualquer forma, recebe críticas219. Mas,
a lógica que se está aqui a defender não é nada além de uma metodologia, um método jurídico para, no dizer de Atienza “aclarar os processos de interpretação e aplicação do direito e oferecer uma guia e uma fundamentação ao trabalho dos juristas”220.
Que fique claro, portanto, que não se defende a aplicação da lógica como única e integral solução para a controlabilidade das decisões judiciais e exposição de argumentos. O que se defende, na esteira de Alexy, é que a constatação de que a análise lógica não é suficiente para justificar decisões, não significa necessariamente que a aplicação da lógica seja nociva ou desnecessária ao
direito221. Ademais, rejeitam-se também as críticas de que o caráter eminentemente
interpretativo do direito impede a utilização da lógica. Agora, na esteira de MacCormick: “se a presença da interpretação impedisse a utilização da lógica jurídica, a lógica em qualquer domínio prático ou empírico também estaria
impedida”222.Acredita-se, então, segundo Atienza, MacCormick e Alexy, que a lógica
quando aplicada ao direito, em especial ao contexto que aqui interessa de aplicação das normas e resolução de problemas jurídicos práticos, possibilita meios de controle das decisões judiciais que contribuem para preservação de um dos pilares do Estado de Direito, que é a segurança jurídica. O direito em um Estado pluralista
218
VASCONCELLOS, Fernando Andreoni. O conceito de derrotabilidade normativa. 132 f. Dissertação (Mestrado em Direito) – Setor de Ciências Jurídicas, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2009.
219
ALEXY, Robert. Teoria da argumentação..., p. 33.
220
ATIENZA, Manuel. As razões..., p. 40.
221
Idem.
222
precisa ser maleável, mas maleabilidade não pode significar arbitrariedade ou relativismo despropositado.
Assim, a partir desse momento se demonstrará porque o processo de justificação está de alguma forma relacionado à lógica. Pretende-se, agora, neste tópico, contextualizar a teoria da argumentação dentro de um movimento geral de aproximação e afastamento entre o direito e a lógica. Para tratar do tema,recorrer-se-á a classificação elaborada por Maranhão, segundo a qual a lógica se relaciona com o direito, em um processo de interação histórica, que teria passado por três distintas fases: (i) a lógica material; (ii) a lógica deôntica e; (iii) a lógica da argumentação. O autor destaca que cada uma das fases descritas corresponde a
uma diferente concepção teórica e metodológica da aplicação do direito223.
A primeira fase, referente à ideia de lógica material, corresponde a um período que abrange especialmente a escola histórica alemã, a escola francesa da exegese e a escola da jurisprudência analítica inglesa. Algo que Atienza referencia como “formalismo jurídico”224. Segundo tal concepção, para a boa aplicação do direito seria necessária a elaboração de cânones interpretativos que permitissem a elucidação da vontade ou da intenção do legislador, a descoberta do verdadeiro “pensamento da lei”, uma vez que o sistema jurídico é completo e coerente, guardando uma resposta para cada caso, e apenas ao legislador é dado criar direito. O direito é um objeto cognoscível, estático que é válido por estar nos códigos, nas
obras de doutrina e nas compilações de jurisprudência225.
A segunda fase, referente à lógica deôntica, por sua vez, corresponde a teoria positivista do direito, lógica-formal, ou, para Atienza, “normativismo jurídico”226. Nesse momento, reivindica-se para o direito um objeto puramente ideal, o direito positivo, e rejeita-se toda questão sobre o fundamento valorativo das normas e decisões. Segundo Maranhão, com a lógica deóntica confirmam-se critérios como a
223
MARANHÃO, Juliano Souza de Albuquerque, “As Lógicas do Direito e os Direitos da Lógica”. In Schoueri (Coord.). Direito Tributário: homenagem a Paulo de Barros Carvalho. São Paulo: Quartier Latin, 2008. p. 97-125.
224
“De formalismo jurídico se habla en muchos sentidos, pero casi siempre con una connotacion peyorativa. El formalismo es (...) una actitud, un estilo que pude detectarse en la prática del estúdio, de la elaboración sistemática, de la aplicación, o de la interpretacion del derecho. ATIENZA, Manuel. El sentido..., p. 276.
225
LARENZ, Karl. Op. Cit., 9-39.
226
“La idea de que el derecho consiste fundamentalmente en normas es la concepcion seguramente la más difundida del siglo XX y sin duda lá más desarrollada desde de el punto de vista teórico”. ATIENZA, Manuel. El sentido..., p. 286.
completude e a consistência dos sistemas jurídicos227. Ao legislador caberia criar soluções normativas e ao aplicador apenas realizá-las, de maneira que a decisão por proceder de uma autoridade legítima ou por ser o resultado de uma simples aplicação de normas gerais, estaria já justificada228. O direito é alçado à categoria de ciência de normas, pelo esforço principal de Kelsen. A interpretação deve corresponder a uma atividade de conhecimento do sistema jurídico, um ato de
elucidação ou compreensão229. Quando existe mais de uma escolha ao aplicador, a
decisão é um ato de vontade e não uma decisão jurídica justificada230.
A terceira fase, referente àlógica da argumentação, por fim, é o momento ou a fase na qual se insere esse trabalho. Reconhece-se que a aplicação do direito exige mais do que a intuição da vontade de um legislador ideal (e irreal) ou da atuação de regras jurídicas pertencentes a um sistema completo. Assume-se que o legislador não pode dar conta de todas as hipóteses em que a norma se aplicará e nem de todas as hipóteses em que será necessária uma norma. Assume-se que o sistema de regras jurídicas e subsunção é útil, mas não é perfeito e as decisões judiciais não podem olvidar as valorações políticas e morais. Todavia, não se assume e nem se aceita que a decisão que implica mais do que subsunção implica necessariamente também, arbitrariedade.
Diante desse contexto, a lógica será imprescindível para auxiliar a criação de parâmetros que possibilitem o mínimo de racionalidade às decisões que empregam critérios morais, princípios e valores. O contexto em que se coloca a discussão é o contexto de utilização de conceitos jurídicos indeterminados. Na discussão metodológica sobre a aplicação do direito, o caso concreto (o problema) se torna fator de relevância. Surge a necessidade, então, de saber qual a motivação da decisão em um plano constitucional e o temor de que essa motivação seja arbitrária ou parcial.
De acordo com Atienza, esse momento compreende uma concepção de direito ainda em status nascendi que agrega autores diversos, adeptos das diferentes teorias filosóficas de compreensão do mundo: “no se trata de nada
227
MARANHÃO, Juliano Souza de Albuquerque. Op. Cit., s/p.
228
Idem.
229
LARENZ, Karl. Op. Cit., p. 91.
230
Nesse ponto, Guastini chega a equiparar o posicionamento dos positivistas ao posicionamento dos realistas, na medida em que existe uma aceitação de que as decisões que admitem mais de uma resposta se dão por ato de vontade arbitrário. GUASTINI, Riccardo. Teoría e ideologia de la interpretación constitucional. Madrid: Trotta, 2008.
parecido a un movimiento pero en sus obras pueden detectarse una serie de coincidências”231. Estas coincidências têm em conta resolver o problema do direito nos Estados Constitucionais, resolver o problema dos princípios, da moral, da
dinâmica da promoção da igualdade232. Estas coincidências derivam também de
uma esperança geral na possibilidade de controle das decisões judiciais.
Daí a imprescindibilidade de se buscar novamente a lógica, numa nova dimensão, que é a dimensão argumentativa. Segundo Larenz, é preciso conceber que os valores são susceptíveis de fundamentação e podem ser controláveis
racionalmente, pelo menos em alguma medida233. A lógica, portanto, ainda tem
como contribuir com o direito e as decisões judiciais, em tempos de pós-positivismo e neoconstitucionalismo, para proteção da segurança jurídica e do Estado de Direito. Nas palavras de Maranhão: “Si hay realmente un<<por qué>>, i.e. se no estamos hablando de decisiones arbitrarias sino de elecciones justificadas, entonces ellas ciertamente están dentro del alcance de la lógica”234.
2.6 JUSTIFICAÇÃO INTERNA E JUSTIFICAÇÃO EXTERNA – É CERTA A