6 RESULTADOS DAS INFORMAÇÕES INVESTIGADAS JUNTO AOS ALUNOS E PROFESSORES
6.1 A L EITURA DOS A LUNOS DO P ERÍODO N OTURNO
Uma primeira situação que se destacou, com relação aos alunos do noturno, correspondeu ao tempo de preenchimento das questões aplicadas. Os estudantes da manhã levaram, em média, de 7 a 9 minutos para responderem o questionário; à noite, 20 minutos, ou seja, mais que o dobro do tempo em comparação com os alunos da manhã.
O tempo gasto para responder aos questionários só não foi tão surpreendente quanto os comentários, realizados pelos alunos, durante a leitura. Entre os comentários, se destacaram indagações do tipo: “Ler todo dia? O aluno se perguntava, e ao mesmo tempo respondia ”Ler faz mal à saúde.” Outro dizia: “Existe biblioteca na escola? Se existe nem passo perto” Um terceiro perguntava: “Revista de fofoca vale como leitura?. Por fim um último, que indagou: “O que significa crítico e criativo”?
No período noturno, foram observadas as aulas do outro professor de Língua Portuguesa - PLP2 - e também da professora de Biologia (professora de Biologia do Noturno – PBN). Na disciplina PLP2, acompanhou-se uma atividade cujo objetivo era relacionar a leitura do filme “Auto da Compadecida” à peça escrita por Ariano Vilar Suassuna. Naquele dia poucos alunos estiveram presentes. Verificou-se que apenas três ou quatro haviam lido o texto solicitado. Esta pode ser uma das razões pela qual a atividade proposta não alcançou o efeito esperado.
Já a metodologia utilizada pela PBN, que atuava na escola, com alunos de 5ª série do Ensino Fundamental até o 3º ano do Ensino Médio noturno, despertou o interesse de todos, visto que se utilizou da imagem e do som para explicar os conteúdos.
A professora produziu CDs que podiam ser reproduzidos em DVD ou em Data Show. Ela gastou em média 30 horas para produzir um CD, visto que
precisou pesquisar o conteúdo, as imagens e o som. Em relato, a professora disse que passou a utilizar essas fontes com o intuito de tornar as aulas mais atrativas. Os alunos passaram a compreender melhor o que era ensinado. Mencionou que durante as apresentações dos conteúdos são feitas inúmeras pausas para explicar o que se queria dizer com a imagem, o som e a informação escrita, além de solicitar- se a participação dos alunos.
Ela disse que mesmo com esse trabalho, nem sempre os alunos apresentam desempenho satisfatório nas atividades solicitadas e em avaliações. Relatou: “Se com todo esse meu empenho eles vão mal, imagine sem isso, por essa razão procuro diversificar, para ver se aprendem”.
A professora narrou que procurava utilizar sons/músicas desconhecidos por muito destes alunos, como os clássicos. Exprimiu que, quando começou com esse trabalho, os estudantes, em um primeiro momento, mostravam- se sempre inquietos a cada novo som apresentado, mas quando compreenderam, passaram a ler sobre a relação do som/música com o conteúdo e o som, então, passou a fazer sentido para eles. Justificou que hoje eles estavam habituados a ouvir, sem aquela agitação inicial. A professora relatou que muitos comentavam com ela, que passaram a apreciar esse estilo de música.
Tendo presente o trabalho realizado pela PBN, perguntou-se aos alunos se após a exposição da professora eles procuravam ler o conteúdo retratado em livro didático, na “internet” ou em revistas. A resposta foi que apenas ficavam com a explicação feita na aula. Só retomavam o conteúdo quando solicitado nas avaliações, mas essa releitura nem sempre ocorria com freqüência, mesmo que fosse para as provas.
Conforme foi relatado, foi possível acompanhar dois professores frente ao trabalho com as diferentes fontes de Leitura, apontadas na pesquisa. Porém, em uma disciplina foi possível constatar maior participação dos alunos, que em outra. No entanto, a atividade com as diferentes fontes, nestas situações, não levou os alunos a buscarem leituras extraclasses, mas, notou-se o esforço de alguns professores em tentar despertar o interesse dos alunos para compreender o conteúdo trabalhado.
Entendeu-se que as diferentes formas podem servir como recursos didáticos, porém as fontes devem ser levadas mais adiante, isto é, devem ajudar o aluno a incorporar o conhecimento trabalhado e também viabilizar a mediação para
a Leitura de Mundo, assim como para a Leitura do texto verbal e em situações extraclasse.
Os alunos do período Noturno relataram muitos fatos, que já haviam sido observados na escola: quando sabiam que o professor iria passar algum filme, muitos faltavam e, quando compareciam, dormiam durante a aula. Diziam que se fosse para assistir filme, o veriam em casa. Perguntou-se, então ao PLP2, que passou o filme, se alguma vez propusera aos alunos assistirem aos filmes em casa, para depois realizarem as análises. Frente a nossa questão, relatou que quando ofereceu isso aos alunos, a maioria acabou não assistindo.
Durante a aplicação dos questionários, os alunos do Noturno reclamaram que se sentiam excluídos, pois nunca aconteciam atividades diversificadas, das quais pudessem participar. Por outro lado, quando era proposto algo que fugisse à rotina, eles não compareciam.
À noite, enquanto um mundo paralelo acontecia nos corredores e nas salas da escola, existia na biblioteca uma única aluna que, em meio aos livros, buscava compreender o conteúdo ensinado durante as aulas. Essa aluna podia ser um caso à parte, uma exceção, visto que já possui uma idade mais elevada (55 anos) e busca retomar os estudos, abandonados por falta de condições financeiras. Durante os dias seguintes da pesquisa, no período noturno, essa cena se repetiu.
Antes da entrevista com a aluna, a bibliotecária já nos tinha informado de sua assiduidade e também do esforço que faz para convencer seus colegas da importância de ler e estudar. Em relato, disse: “Eu sempre falo para meus colegas aproveitarem o tempo que passam na escola para ler e estudar, pois só o tempo poderá mostrar o quanto está desperdiçando as oportunidades da vida”.
Os alunos do Noturno, de um modo geral, consideram que a escola contribuiu para sua formação. Essas informações levaram a ponderar que para muitos alunos do período noturno, o ambiente escolar é o único espaço em que se deparam com situações que, ao mesmo tempo, oferecem oportunidades para ler e para solicitar retorno das práticas de Leitura.