2.7 O Funcionamento da Revisão Criminal no Brasil
2.7.3 A legislação projetada
dominado pelas circunstâncias, não relutou, vindo sob escolta policial para Araguari, onde foi metido na cadeia após prestar declarações.
No dia 30 de Setembro de 1952, nova revisão criminal foi, então, impetrada perante o Tribunal de Justiça de Minas Gerais. O pedido, perfeitamente instruído com a narrativa e comprovação do aparecimento da suposta vítima do crime dos irmãos Naves, foi protocolado sob nº 1.632 e trazia cumulado com o pedido revisional a postulação de reparação material dos danos suportados pelos condenados. No que tange ao falecido Joaquim, coube à sua viúva, Antônia Rita de Jesus, representá-lo na revisio. A 14 de Outubro de 1953, as Câmaras Criminais reunidas deram total provimento, por unanimidade de votos, aos pedidos formulados, absolvendo os irmãos Naves de toda acusação penal contra eles lançada e reabilitando-os perante a sociedade, deferindo-se, ainda o dever de indenizar por parte do Estado de Minas Gerais. Chegava, assim, ao fim, uma longa batalha judicial motivada pelo despudor mental de um delegado relapso e incompetente, desconhecedor dos mais básicos princípios de Direito e de um Poder Judiciário conivente, omisso e relutante em buscar a fundo a verdade real. A comoção nacional causada pelo caso dos irmãos Naves ainda é atual e serviu como forte embasamento à manutenção da revisão criminal pro reo como única forma de relativizar a coisa julgada penal nas alterações legislativas que posteriormente se verificaram.
processual criminal que tratava a revisão dos processos encerrados como um recurso de natureza extraordinária, desprovido de lapso temporal máximo para ajuizamento, trazendo para ela, basicamente, a mesma redação do Decreto nº 3.084, sendo que as hipóteses de cabimento eram as mesmas, excetuando-se apenas a previsão referente à revisio embasada pelo aparecimento de suposta vítima de homicídio, a qual foi suprimida. Este projeto de lei, denominado de Vicente Ráo, sequer chegou a ser votado, em decorrência do golpe de Estado ocorrido em 1937.
Posteriormente, no ano de 1963, verificou-se o chamado Projeto Tornaghi, de autoria de Hélio Tornaghi, responsável por tentar instituir uma drástica reformulação do processo penal brasileiro. Também consistiu num esboço legislativo que previa a revisão criminal como recurso extraordinário, o que recebeu algumas críticas por parte da doutrina então predominante porque se confrontava com a já consagrada natureza jurídica de ação penal atribuída à revisão criminal pelo atual Código de Processo Penal, já vigente na época. Era, ainda, um projeto que buscava ao máximo o retorno ao status quo ante para o acusado injustamente condenado que viesse a ser absolvido no procedimento revisional, sendo que as hipóteses de cabimento da mesma em muito se assemelhavam às atualmente existentes e datadas de 1941. Ainda que chamado de Projeto Tornaghi, as ideias propostas pelo ilustre doutrinador nem mesmo chegaram a ser apresentadas perante o Poder Legislativo para votação e eventual conversão em lei.
Em 1970, José Frederico Marques redigiu um projeto de lei promovendo a alteração das revisões criminais. A grande inovação trazida por ele foi o desmembramento da revisio em duas, uma vez que o projeto previa a existência de uma revisão criminal levada a efeito pela chamada “revisão comum” e outra consubstanciada na “ação penal revocatória”. A revisão criminal comum não era substancialmente diferente da então legalmente existente, mas Sérgio de Oliveira Médici (2000, p. 143) observa que:
Já a ação revocatória, além dos pressupostos da revisão, apresentava características próprias. Podia ser proposta após um ano da data em que foi proferida sentença condenatória contra réu foragido que não pôde apelar sem recolher-se à prisão; o pedido era formulado pelo seu cônjuge, descendente, ascendente ou irmão.
Assim, havia uma modalidade especial de revisão criminal prevista especificamente para os réus foragidos, detentora, porém, de um prazo decadencial não verificado nas revisões comuns. Esta mesma redação tornou-se o projeto de lei nº 633/1975, mas não chegou a ser aprovada como lei.
Finalmente, houve o projeto de lei nº 1.655/1983, de autoria do então Ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel. Este projeto fazia menção à revisão criminal como mecanismo de rescisão de uma decisão judicial condenatória definitiva. Neste aspecto, note-se que, da mesma forma que todos os demais projetos de lei que promoviam alguma alteração na revisão criminal brasileira, que sempre pugnaram pela manutenção da revisão criminal pro reo, este projeto de lei não promovia, por si só, uma drástica alteração da revisio, mas abria margem para que legislações sucessivas promovessem modificações substanciais em seu procedimento. Era ainda responsável por prever a absoluta necessidade de advogado para a formulação do pedido de revisão criminal, ou seja, o condenado seria totalmente destituído de qualquer capacidade postulatória, bem como por trazer a possibilidade de concessão de liminares, consistentes na interrupção do cumprimento da pena e no recolhimento do mandado de prisão expedido em desfavor do condenado, na hipótese de ser ele um foragido.
Dentre todas as alterações que se afiguraram possíveis na legislação processual criminal nacional, a única vez em que se aventou a possibilidade de criar uma revisão criminal pro societate em terras brasileiras ocorreu em 1926, em meio a votações parlamentares para alteração da Constituição então vigente, de 1891, através da alteração do artigo 59 da mesma. A intenção louvável, contudo, não foi levada adiante, pela predominância do princípio da vedação à reformatio in pejus, ou seja, alteração da sentença imposta ao acusado para prejudicá-lo.
Atualmente, encontra-se em trâmite um projeto de lei para instituir novo Código de Processo Penal no Brasil. Tal é o projeto nº 156/2009, apresentado no Senado Federal por José Sarney e já aprovado pelo mesmo em Dezembro de 2010.
Este esboço legislativo comina as previsões da revisão criminal entre seus artigos 655 e 662 e segue a tradição nacional de refutar a corrente tudesca que admite as revisões criminais pro societate, já que é expressa a proibição ao agravamento da sanção imposta ao condenado na decisão que aprecia a revisão interposta. As hipóteses de cabimento ficam adstritas às condenações proferidas em desconformidade com a lei ou a verdade emanada dos autos; quando a sanção
derivar de documentos, depoimentos ou exames falsos; e quando, após o trânsito em julgado da condenação, surgem novas evidências e provas que conduzem à demonstração da inocência do sancionado ou à autorização da redução da pena imposta ao mesmo. Inexiste previsão de lapso temporal máximo para a interposição da mesma, sendo concedido ao condenado o direito de ter nomeado um defensor para si. Por tudo isto, a revisão criminal prevista na legislação projetada não difere rigorosamente daquela existente atualmente.