Numa sessão de hipnotismo observa-se um impacto, não precisamente entre duas vontades, uma mais forte e outra mais fraca, mas, sim, um impacto entre a vontade,geralmente violenta, do ―sujeito‖ e a imaginação ou a idéias do hipnotista. Quanto mais forte aquela, tanto mais vitoriosa esta última. É a lei da reversão dos efeitos de Emile Coué :
―Num impacto entre a vontade e a idéia, vence invariavelmente a idéia.‖
Dentre os exemplos mais típicos dessa lei, ocorre-nos citar a sistemática dificuldade que experimentamos quando, de súbito, queremos lembrar um nome. Justamente no momento em que mais precisamos do nome, ele não vem à tona. Está, como se diz popularmente, na ponta da língua. Quanto maior a nossa pressa, quanto mais nos esforçamos, maiores as dificuldades. É o impacto da idéia do esquecimento contra a vontade imperiosa da lembrança a bloquear a memória. O nome invocado vem à mente à medida que renunciamos ou moderamos a vontade da lembrança.
Nas sessões de hipnotismo, essa reversão de efeitos se produz artificialmente pela intensa e súbita mobilização da vontade no ―sujeito‖. Dizemos ao ―sujeito‖ que ele é incapaz de lembrar-se de seu próprio nome. E ele reage desesperadamente à nossa sugestão, ou seja, à nossa idéia (no fundo vontade) de provocar o fenômeno, porém em vão.
Semelhantemente, sugere-se que ele não consegue articular uma determinada palavra, que está preso na cadeira, que não consegue abrir os olhos etc., etc., e o efeito, ou melhor, a reversão de efeitos, a produzir os resultados espetaculares que todos conhecemos das demonstrações de hipnotismo que realizamos ou às quais assistimos.
Subentende-se, entretanto, que a lei que acabamos de citar não se põe em ação com a mesma simplicidade com que se põe a funcionar um engenho mecânico, isto é, ligando uma chave ou apertando um comutador.
Para que a referida lei funcione é preciso que o ―sujeito‖ esteja convencido da autenticidade da experiência e, subsidiariamente, também das vantagens que se lhe propõem. E para tanto, é preciso que o hipnotista convença. Não fora assim e qualquer pessoa, sem nenhuma habilitação, em qualquer circunstância, poderia hipnotizar qualquer indivíduo. Bastaria proferir uma sugestão para ser obedecido, o que, sabidamente, não acontece.
Visto sob este aspecto, o hipnotismo, ao menos por enquanto, não é apenas uma ciência. É também uma arte. É a arte de convencer. Hipnotizar é convencer. E convencer é sugestionar. Só sugestiona quem convence. E só quem convence hipnotiza.
Com um mínimo de noções, um indivíduo ignorante pode hipnotizar perfeitamente,desde que as circunstâncias lhe sejam favoráveis e desde que convença. Os indivíduos vitoriosos na política, nas profissões liberais, no comércio, na indústria, nas carreiras artísticas e em tudo mais, usam, que o saibam ou não, as técnicas hipnóticas. São hipnotizadores potenciais. E note-se que em matéria de hipnotismo, o artista, não raro, leva vantagens sobre o cientista. Desde os primórdios da civilização até a época de Mesmer, o hipnotizador agia intuitivamente, baseado em premissas científicas inteiramente falsas. E ainda em nossos dias o êxito hipnótico vem frequentemente associado a uma espantosa ignorância em relação às leis psicológicas que presidem este fenômeno.
A capacidade hipnótica, antes adquirida de forma empírica e intuitiva, é hoje, graças aos conhecimentos técnico-científicos, suscetível de aquisição e desenvolvimento. A arte tende a transformar-se, como dissemos há pouco, em técnica e ciência, e, inversamente, a técnica e a ciência se convertem em uma verdadeira arte.
Não existe uma teoria abrangente e definitiva sobre hipnose. A definição que nos dá um dos mais acatados dicionários de termos psicológicos, o Dictionary of Psychology, deWarren, é a seguinte : ―Hipnose, um estado artificialmente induzido, às vezes semelhante ao sono, porém sempre fisiologicamente distinto do mesmo, tendente a aguçar a sugestibilidade, acarretando modificações sensoriais e motoras, além de alterações de memória‖. Um estado tendente a aguçar a Sugestibilidade. Equivale quase a dizer que hipnose é, Equivale quase a dizer que hipnose é, antes de tudo, do princípio ao fim, sugestão. É Sugestibilidade aumentada ou generalizada, na teoria de Hull.
Com efeito, todas as teorias e conceitos sobre hipnose, seja qual for a parcela de verdade que contenham e o grau de sua importância prática, não valem senão na medida em que elucidam as motivações e os mecanismos desse fenômeno eminentemente psicológico que é a sugestão, nas suas mais diversas graduações. Há uma tendência de desmerecer o fenômeno da hipnose com o argumento de que tudo não passa de sugestão. Como se a sugestão fosse necessàriamente coisa superficial, desprezível e sem maior importância para a nossa vida. Acontece que a sugestão representa uma das forças dinâmicas mais ponderáveis da comunidade humana, força essa que transcende aos limites da própria espécie, atuando sob a forma de reflexo condicionado, no próprio hipnotismo animal. Não acarreta unicamente alterações sensoriais e modificações de memória, podendo afetar todas as funções vitais do organismo, tanto no sentido positivo como no sentido negativo dessa palavra. A Sugestibilidade, embora sujeita a variações de grau e de natureza, é um fenômeno rigorosamente geral. Todos somos mais ou menos sugestionáveis e é possível que todos ou quase todos fôssemos hipnotizáveis se dispuséssemos de métodos adequados de indução. Não fora a sugestão uma força de eficiência social incomparável e não se justificaria a mais abrangente de todas as indústrias modernas, que é a indústria publicitária, isto é, os anúncios, que ocupam duas terças partes de quase todos os órgãos de imprensa, além dos dispendiosos patrocínios de rádio e televisão. Com efeito, já existem sistemas de publicidade, sobretudo a chamada ―publicidade indireta‖, capaz de criar no ânimo dos consumidores, um desejo irresistível, e, às vezes, inconsciente, de adquirir determinados produtos, deixando-os amiúdo num estado que se avizinha bastante da hipnose. Notemos que no mundo das atividades comerciais, convencer é, por sua vez, sinônimo de vender. É difícil encontrar exemplos mais convincentes da eficácia do poder da sugestão e de sua transcendência, do que os que nos fornece o hipnotismo comercial, consubstanciado nos modernos processos publicitários.
A figura abaixo retrata uma forma muito popular de hipnose, em que o hipnotista usa um pêndulo ou um relógio preso a uma corrente. Hoje em dia raramente encontramos esse tipo de indução apensar de ser ótima tanto quando a espiral hipnótica, pois causa cansaço ocular.
Podemos dizer:
―Enquanto você observa esse pêndulo sua concentração vai aumentando, você pode relaxar mais e mais conforme balanço o pêndulo de um lado pro outro‖ (quando perceber que o sujeito está ―vidrado‖ no pêndulo, diga de forma imperativa: ―FECHE OS OLHOS DURMA‖.