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DE DESENVOLVIMENTO DESIGUAL E COMBINADO

1. A Lei de desenvolvimento desigual e combinado em Trotsky

A lei de desenvolvimento desigual e combinado foi formulado por León Trotsky para compreender as especificidades dos países atrasados dentro da dinâmica histórica. Trotsky (1985) se recusava a acreditar numa análise em etapas da sociabilidade capitalista nestas nações, pois o crescimento econômico era insuficiente para explicar este processo. Para Trotsky, era imperioso explicar estas “modificações” e, por consequência, dar conta da lógica das contradições econômicas e sociais dos países do capitalismo periférico ou dominados pelo imperialismo. O paralelo entre as desigualdades e especificidades dos países atrasados, no desenvolvimento do capitalismo a nível internacional, demonstrava que a sua absorção de elementos modernos das economias avançadas, em condições materiais atrasadas, denotava as sociedades arcaicas que de fato eram. Esses elementos estavam no campo tecnológico, cultural e político das sociedades avançadas e sua introdução nesses países alicerçava o elemento de combinação neste modelo.

[...] a defesa do revolucionário russo da tese de que os países “coloniais” e “semicoloniais” não poderiam conhecer uma etapa “democrático-burguesa” em sua história (e que, portanto, o que se colocava era a necessidade da “ditadura do proletariado”) tinha como pressuposto teórico a ideia de que, por estarem integrados numa

totalidade – o sistema capitalista internacional –, esses países de

desenvolvimento capitalista ultra retardatário não poderiam repetir o curso histórico vivido pelas nações pioneiras do capitalismo, onde a revolução burguesa assumiu contornos que ficariam conhecidos como “clássicos” (DEMIER, 2007, p. 78).

Löwy (1998) ressalta que a teoria do desenvolvimento desigual e combinado é interessante não apenas por sua contribuição à reflexão sobre o imperialismo, mas também como uma das tentativas mais significativas de romper com o evolucionismo, a ideologia do progresso linear e o eurocentrismo. A hipótese de Löwy se funda na formulação desta teoria, a partir da ascensão do capitalismo a um sistema mundial, tornando-se uma totalidade concreta (contraditória) e as condições do desenvolvimento social e econômico conhecem uma mudança qualitativa.

O capitalismo (...) preparou e, num certo sentido, realizou a universalidade e a permanência do desenvolvimento da humanidade. Por isto está excluída a possibilidade de uma repetição das formas de desenvolvimento de diversas nações. Forçado a se colocar a reboque dos países avançados, um país atrasado não se conforma com a ordem de sucessão (...)” (TROTSKY, 1977, p. 76).

É importante delimitar que Marx (1986) não escreveu sobre a expansão do capital no mundo anterior ao imperialismo, mas trouxe elementos importantes para demonstrar como o modo de produção capitalista exercia sua dominação sobre todos os outros modos.

No período da infância da produção capitalista, as coisas se passaram, muitas vezes, como na infância do sistema urbano medieval, onde a questão dos servos evadidos deveria ser mestre e quem deveria ser criado foi decidida, em grande parte, pela data mais recente ou mais antiga de sua fuga. Contudo, a marcha de lesma desse método não correspondia, de modo algum, às necessidades comerciais do novo mercado mundial, que fora criado pelas grandes descobertas dos fins do século XV. A Idade Média, porém, legou duas formas diferentes de capital, que amadurecem nas mais diversas formações socioeconômicas e, antes mesmo da era do modo de produção capitalista, contam como capital quand

même — o capital usurário e o capital comercial (MARX, 1986, p.

369).

Esses elementos de dominação do capitalismo em nível mundial podem ser observados quando Marx (1966) escreve sobre a expansão das grandes economias capitalistas sobre territórios, já no século XIV, que denomina como “as grandes descobertas”. Para Marx (1966) a nova manufatura foi instalada nos portos marítimos de exportação ou em pontos no campo, fora do controle do velho sistema urbano e de sua constituição corporativa.

A descoberta das terras do ouro e da prata, na América, o extermínio, a escravização e o encurtamento da população nativa nas minas, o começo da conquista e pilhagem das Índias Orientais, a transformação da África em um cercado para a caça comercial às peles negras marca a aurora da era de produção capitalista. Esses processos idílicos são momentos fundamentais da acumulação primitiva. De imediato seque a guerra comercial das nações européias, tendo o mundo por palco. Ela é aberta pela sublevação

dos Países Baixos contra a Espanha, assume proporção gigantesca na Guerra Antijacobina da Inglaterra e prossegue ainda nas Guerras do Ópio contra a China etc. (MARX, 1966, p. 370).

O Manifesto do Partido Comunista, obra de Marx e Engels (2019) em sua celebre frase “Proletário de todos os países, uni-vos!” demonstra o caráter mundial do capitalismo ao convocar os proletários de todo o mundo. A descoberta da América, a navegação pela África ofereceu à burguesia em assenso um novo campo de ação que eram os mercados da Índia e da China, a colonização da América.

A antiga organização feudal da indústria, em que esta era circunscrita a corporações fechadas, já não podia satisfazer às necessidades que cresciam com a abertura de novos mercados. A manufatura a substituiu. A pequena burguesia industrial suplantou os mestres das corporações; a divisão do trabalho entre as diferentes corporações desapareceu diante da divisão do trabalho dentro da própria oficina. O mercado mundial acelerou prodigiosamente o desenvolvimento do comércio, da navegação, dos meios de comunicação. Este desenvolvimento reagiu por sua vez sobre a extensão da indústria; e à medida que a indústria, o comércio, a navegação, as vias férreas se desenvolviam, crescia a burguesia, multiplicando seus capitais e relegando a segundo plano as classes legadas pela Idade Média (MARX & ENGELS, 2019, p. 3).

Encontra-se ao longo do manifesto, a análise de que novas estratégias haviam sido encontradas pelo capitalismo para sua legitimação como sistema de produção hegemônico e que tinha no mercado mundial, novas formas de exploração.

Lênin (1986) analisou a questão agrária na Rússia, mostrando os elementos de atraso neste país, a partir do avanço do capitalismo no campo. Para o autor (1986) as disparidades entre o avanço econômico na Europa ocidental e Oriental foram consideráveis.

Enquanto a Europa Ocidental, no final da Idade Média, evoluía para uma sociedade calcada nas trocas mercantis e onde o feudalismo começava a desintegrar a economia camponesa comunal e a introduzir o chamado “individualismo agrário”, a Europa do Leste manteve o regime servil, que lá chegou tardiamente (no século XVI,

com a chamada “segunda servidão”), até meados do século XIX (SILVA, 2012, p. 111) .

Para Lênin (1986), não obstante a existência de resquícios feudais, o mundo do agro estava investido pelo modo de produção capitalista. Procurou prová-lo através de uma espécie de radiografia da situação rural russa, utilizando abundantes dados estatísticos. Esses dados mostravam que a produção para o mercado dominava a economia rural, mesmo nas regiões mais atrasadas. A atividade do campesinato era subjugada por todas as contradições próprias das economias de mercado e do capitalismo: a concorrência, a luta pela independência econômica, a monopolização da terra (comprada ou arrendada), a tendência à concentração da produção nas mãos de uma minoria, a proletarização da maioria e sua exploração pela minoria que dispunha do capital comercial e que empregava operários agrícolas. No arrendamento ou compra de terras, nas profissões auxiliares, na adaptação ao progresso técnico, em todos esses campos era a luta e a concorrência que prevaleciam.

A lei do desenvolvimento desigual de Lênin mais o elemento combinado de Trotsky explicou o desenvolvimento das nações atrasadas e recebeu o nome de lei do desenvolvimento desigual e combinado. Segundo Löwy (1998), Lenin examinava o desenvolvimento do capitalismo na Rússia, sobretudo a partir das contradições internas da agricultura. Já Trotsky o aborda sob o ângulo da inserção da economia russa no sistema capitalista. A formação social russa era tomada como um subconjunto periférico do capitalismo mundial, que formava, de forma determinante, sua estrutura econômica e social: O capitalismo não se desenvolveu na Rússia a partir do sistema artesanal. Trotsky nomeava como lei do desenvolvimento combinado, o que designou sobre o desenvolvimento histórico dos países retardatários, pois não usava o termo desigual e combinado. Demier (2007) ressalta que foi George Novack que utilizou o conceito dessa forma no seu livro “A lei do desenvolvimento desigual e combinado da sociedade”. A utilização desse conceito ocorreu segundo Löwy (1998) somente em 1930. No primeiro capítulo do livro “História da Revolução Russa”, Lênin usa, ainda que brevemente, mas de forma clara o conceito da lei de desenvolvimento combinado, como proposição de alcance universal. Löwy (1998, pg. 76) ressalta que de forma curiosa, enquanto Trotsky formulava no seu livro A revolução permanente (1928) sua teoria geral da revolução

nos países capitalistas dependentes — “coloniais e semicoloniais” na linguagem da época, não se referiu à suas análises do desenvolvimento desigual e combinado. Uma breve passagem do prefácio à edição francesa refere-se, numa polêmica com Stalin, à lei do desenvolvimento desigual do capitalismo, mas é unicamente para constatar que “a originalidade de um tipo social nacional não é mais do que a cristalização das desigualdades de sua formação”.

Entretanto, Demier (2007) ressalta que já em 1906, na brochura Balanço e perspectivas, Trotsky assumiu a impossível viabilização de uma etapa revolucionária “democrática” no futuro da Rússia, naquele formato que ocorreu na Europa nos séculos XVIII e XIX. Diante dos processos sociais vistos na Rússia, Trotsky considerava que somente uma revolução socialista seria possível naquele país.

Somente a “ditadura do proletariado”, “arrastando atrás de si os camponeses”, poderia realizar as tarefas “democráticas” deixadas de lado pelo impotente, “débil” e contrarrevolucionária burguesia russa. Em outras palavras: na Rússia, medidas “democráticas”, de natureza capitalista – em especial a reforma agrária –, que, nos países avançados foram realizadas sob a direção da burguesia (e que foram vitais para o florescimento do capitalismo), só conseguiriam ser efetivadas na prática se os trabalhadores se apossassem do Estado (DEMIER, 2007, p.80).

Trotsky (1985) afirmou que a “teoria da revolução permanente” é em si a revolução socialista, que com tempo indeterminado ocorrem transformações nas relações sociais, numa luta interior. Essas mudanças transformam a sociedade em etapas e atingem a família, a economia, a ciência e outros setores da sociedade, que após essas grandes transformações não alcançam equilíbrio. Segundo Trotsky (1985) mora nessa questão o que denominou de “caráter permanente da revolução socialista”.

Ela [a ‘teoria da revolução permanente’] demonstrava que, em nossa época, o cumprimento das tarefas democráticas, proposto pelos países atrasados, conduzia diretamente à ditadura do proletariado, que coloca as tarefas socialistas na ordem do dia. Nisso consistia a ideia fundamental da teoria. Enquanto a opinião tradicional considerava que o caminho para a ditadura do proletariado passa por um longo período de democracia, a teoria da revolução permanente

proclamava que, para os países atrasados, o caminho para a democracia passa pela ditadura do proletariado. Por conseguinte, a democracia era considerada não como um fim em si, que deveria durar dezenas de anos, mas como o prólogo imediato da revolução socialista, à qual se ligava por vínculo indissolúvel. Dessa maneira, tornava-se permanente o desenvolvimento revolucionário que ia da revolução democrática à transformação socialista da sociedade.” (TROTSKY, 1985, p. 24).

A historicidade presente no conceito de Trotsky (1977) teve sua construção ao escrever “A História da Revolução russa” onde produziu sobre as consequências do capitalismo na atrasada Rússia e como o país foi levado desde o processo histórico de 1905 à revolução, em 1917.

No capítulo intitulado “Peculiaridades do desenvolvimento da Rússia”, Trotsky (1977) apresenta uma síntese extremamente rica da evolução histórica russa, destacando todas as contradições presentes em um país, que iniciou tardiamente sua modernização industrial capitalista. Segundo o autor a ideia de que as nações atrasadas desenvolveram seu capitalismo combinando dialeticamente elementos modernos e arcaicos esteve presente nas análises desde “Balanços e perspectivas” (1971). Somente em “Peculiaridades do desenvolvimento da Rússia” (1977) a lei do desenvolvimento desigual e combinado apareceu pela primeira vez nomeada, ainda que não integralmente. De acordo com Demier (2007) Trotsky demonstrou como as relações entre desenvolvimento econômico, Estado e classes sociais ao longo da história russa, distinguiam-se das ocorridas nos países originários do capitalismo. Nesse sentido, Trotsky dava continuidade à abordagem da evolução russa, que realizara (nos primeiros capítulos de Balanços e perspectivas) agora, contudo, tinha em mãos, em função dos vinte e seis anos transcorridos entre as duas obras, toda a experiência da vitoriosa Revolução Russa de outubro de 1917 para construir suas teses sobre o desenvolvimento desigual e combinado.

A experiência dos bolcheviques na Rússia foi dada como modelo para boa parte da Europa central que passava por uma crise econômica, entretanto não foi possível tomá-la como exemplo, uma vez que não ocorreu esse exitoso processo. Segundo Coutinho (1981) esse processo seria fundamental para entender o percurso feito por Antônio Gramsci nos Cadernos do Cárcere. Para o desenvolvimento dessa questão, o autor procedeu a elaboração original de conceitos básicos de Marx, Engels e Lênin.

Essa renovação gramsciana do marxismo e do leninismo é a tentativa até agora mais sistemática de responder às questões cruciais da estratégia de transição ao socialismo nos países desenvolvidos, uma transição que continua na ordem-do-dia, então a sua atualidade e a sua centralidade se fazem evidentes: assim como não era possível, na época de Gramsci, renovar o marxismo sem estabelecer uma relação prioritária de continuidade/ superação dialética com o patrimônio categorial de Lênin, tampouco é possível realizar hoje uma operação semelhante – no que ela tem de necessário – sem uma relação do mesmo tipo com a obra do autor dos Cadernos do Cárcere (COUTINHO, 1981, p. 65).

A concepção de Estado em Gramsci tem como base as contribuições dos clássicos acima mencionados a partir do desvelamento do caráter de classe e aprofundando a noção de sociedade civil. Lênin também usou desse diálogo para explicitar novas determinações a partir do desdobramento das anteriores, as quais – sendo dialéticas – eram determinações que exigiam uma renovação permanente. O autor fez isso em O Imperialismo, onde descobriu e analisou as novas determinações que o predomínio do capital monopolista trouxe para o modo de produção capitalista em geral. Coutinho (1981, p. 66) sinaliza que as colocações básicas de Lênin, assim, são conservadas (no que tem de essencial) e elevadas a nível superior (pela incorporação das novas determinações geradas pelo desenvolvimento histórico-social).

Segundo Simionatto (2008) é preciso esclarecer que os estudos de Gramsci foram elaborados em um tempo histórico e contexto sociopolítico específicos: o conceito de Estado é desenvolvido a partir das consequências econômico-sociais e políticas do pós-Primeira Guerra Mundial, questionando a crise do Estado liberal e a hegemonia do sistema capitalista no mundo ocidental.

Segundo Bianchi e Mussi (2017) os escritos no cárcere possibilitaram a Gramsci a construção de uma teoria da política na qual a força e o consenso não são elementos separados. O Estado é concebido como o resultado histórico de processos de forças entrelaçadas, processos que raramente produzem condições vantajosas para os grupos subalternos.

Ele escreveu sobre a necessidade de armar as lutas em todas as esferas da vida e sobre os riscos de uma acomodação hegemônica e de um “transformismo político”. Ele deu atenção especial para o papel – quase sempre deletério – dos intelectuais na vida popular e sobre a importância de avançar no marxismo enquanto visão de mundo integral – a filosofia da práxis (BIANCHI E MUSSI, 2017).

É nessa perspectiva que situaremos a contribuição de Gramsci para a análise do Estado e sua relação com os organismos da sociedade civil na construção da democracia e de novas hegemonias no Brasil para análise das determinações políticas, econômicas e sociais nos Governos Lula e Dilma, do Partido dos Trabalhadores.

2. - A teoria do Estado ampliado e Sociedade Civil em Antônio