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1 INTRODUÇÃO

2.5 Ditadura Militar (1964-1985)

2.5.5. A Lei 6766 /79

De acordo com Nabil Bonduki (2007) o loteamento constituiu o modelo mais comum de expansão urbana no Brasil desde 1930. O autor ainda enfatiza que o início dos anos 60 sinalizou um aprofundamento da crise urbana e habitacional tendo em vista a maior intensidade que esses processos de urbanização e industrialização aconteciam. Nesse contexto, o período militar foi marcado por dois grandes eventos nacionais (civis) que agregaram força política e conhecimento sobre os problemas17 desencadeados pela transformação. O primeiro foi o Seminário sobre Uso do Solo e Loteamento Urbano, realizado em Salvador em 1969, promovido pelo CEPAM18, com caráter eminentemente técnico (sobretudo em relação aos loteamentos). Criado em 1967 como órgão estatal, o CEPAM participava como entidade de assessoramento técnico dos municípios paulistas – justamente por isso tinha bastante contato com os principais problemas urbanísticos da época (LEONELLI, 2010, p. 114) No encontro foi debatido um anteprojeto de lei de parcelamento e, posteriormente, encaminhado para apreciação ao Executivo Federal.

O segundo evento de destaque foi o Simpósio “O Homem e a Cidade”, proposto pela Fundação Milton Campos em 1975, com caráter mais político e menos técnico que o outro mas com igual anseio por uma lei federal que abarcasse todos os aspectos necessários à reformulação da política urbana. Ainda que o governo militar tenha reprimido duramente os movimentos sociais em prol da reforma urbana, a atuação dessas instituições garantiu que pelo menos as discussões se mantivessem durante o período. O CEPAM foi importante órgão de representatividade nesse sentido, assim como universidades públicas, representantes do SERFHAU, IAB de Pernambuco e IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada também se fizeram presentes. (LEONELLI, 2010, p.116). Enquanto

17 - Nelson Saule Junior, p. 20, 200817: “Plano de expansão urbana como condição de extensão do perímetro urbano – “Há a necessidade de definição de zona de expansão urbana no Projeto de Lei e a inclusão da obrigatoriedade do plano de expansão urbana no Artigo 7o Deve constar da revisão da Lei Federal nº 6.766/79 que os planos de expansão tornem-se obrigatórios na abertura de qualquer novo loteamento que se encontre em uma zona de expansão urbana. Nestes planos de expansão deve ser determinada, ainda, a obrigatoriedade de percentual de doação de terra para implementação de HIS. O marco regulatório do parcelamento do solo – tanto nacional como local –, com sua visão privatista (gleba a gleba) e rentista (percentuais fixos, sem rela- ção com os diferentes sítios urbanos e situações municipais quanto à necessidade de infra-estrutura e equipamentos), tem incidido de forma negativa tanto no processo de expansão adequada das cidades quanto na disponibilização de terras para moradia. Na experiência internacional de planejamento urbano, raros são os países desenvolvidos que prescindem de um planejamento da expansão urbana, no qual já se predefinem os sistemas viários e de mobilidade básicos, assim como o dimensionamento e a localização de equipamentos, áreas verdes e áreas de lazer

o crescimento econômico do “milagre brasileiro” acontecia a posição repressiva do governo militar se sustentava. Entretanto, ao fim da década de 70 o Brasil entra novamente em crise e as pressões populares se intensificam sobre o regime. Nesse contexto, em 1979 o projeto da Lei Federal de parcelamento é aprovado, tanto em virtude dos estudos e movimentos que sustentaram o projeto desde o início quanto em função do apelo populista que a aprovação poderia ter, apaziguando os ânimos contra o governo (SANTORO, 2012) No que tange à influência dessa lei sobre a expansão urbana, destacam-se os seguintes aspectos:

- A partir do art. 3º fica limitada a possibilidade de parcelamento do solo com uso urbano somente em área urbana e de expansão urbana. Isso incumbe as prefeituras do dever de definir o perímetro urbano em lei municipal (esperando, assim, evitar o espalhamento da cidade sobre a zona rural)

- A lei não defini os critérios específicos para que uma zona possa ser considerada de expansão urbana. Dessa forma, argumenta-se que ela não garantiu que o crescimento urbano se desse por contiguidade, favorecendo a expansão “em retalhos”, a gosto dos investidores imobiliários. (Leonelli, 2010, p.174)

- De acordo com Paula Santoro (2012, p.100) A aprovação da Lei induziu muitos a municípios definir seus perímetros tanto para poderem regular seu crescimento, quanto para regular usos e preços da terra, criando um “mapa” sobre onde cobrar impostos (influência tributária)

- Foi estabelecido um mínimo de áreas públicas a serem resguardadas em cada empreendimento, cumprindo assim função coletiva da cidade:

“35% da área total da gleba objeto do parcelamento deverá ser utilizada com áreas públicas (4º), cuja definição deve constar no projeto e memorial descritivo (art.9º) e não deverão ser alteradas. Como se trata de uma lei federal, atribui o controle sobre onde serão estas áreas ao município que poderia, por exemplo, a partir da certidão de diretrizes de uso do solo (art.6º) enviada ao parcelador, manifestar-se sobre alguns detalhes de projeto de interesse público, como a necessidade de reserva de espaço para vias previstas em seus planos, etc. (SANTORO, 2012, p. 102)

- A lei obriga o município a emitir diretrizes de uso do solo antes de poder aprovar o parcelamento. O que acarretaria em maior planejamento do território e determinação dos zoneamentos

- A lei elencou uma série de punições a loteadores irregulares. Dentre elas, destaca- se a que prevê crime contra a Administração Pública (art.50) pelo não cumprimento de suas regras e parâmetros, com previsão de coautoria de crime envolvendo loteadores, funcionários do executivo, órgãos licenciadores e do registro de imóveis.

Dentre todas as inovações é importante salientar que a 6766 praticamente inaugura o perímetro urbano como política de regulação da organização periurbana, e é inegável os avanços que ela trouxe para a área, pouco discutida no ordenamento. Entretanto, existem muitas críticas sobre a eficácia dos instrumentos na prática. Paula Santoro (2012), por exemplo, argumenta que muitos técnicos da prefeitura terminam aprovando os projetos enviados sem respeitar todos os critérios, muitas vezes porque a cidade não estabeleceu diretrizes de expansão viárias ou de zoneamento. Isto é, a lei demanda uma quantidade bastante alta de fiscalização para que possa surtir efeito. E, no período de crise que o Estado brasileiro se encontrava foi bastante difícil encaixar essas tarefas no orçamento.

Além disso, a dependência de repasse de recursos pelo governo federal deixou muitos municípios reféns do setor privado na execução de obras, fazendo com que os projeto irregulares fossem (e são) aprovados com vista grossa da prefeitura. É obvio que não se pode excluir a culpa das administrações públicos por serem coniventes com essa prática. Entretanto, o enfraquecimento orçamentário das gestões locais, somados ao crescente poder da indústria de construção civil criou ambiente ideal para a existência de relações políticas de favor, tradicionalmente presentes na história como bem demonstram as investigações da polícia federal em 2016 e 2017.

Também, a pretensão fiscalizatória e punitiva demandava uma quantidade extraordinária por funcionários. Sendo assim, as determinações penais não conseguiram ser aplicadas , sendo ainda mais prejudicadas pelos lentos processos judiciais, que com frequência acabavam em prescrição.