6 CAMINHOS PARA A PROMOÇÃO DA VIDA DIGNA DO INCAPAZ PORTADOR DE TRANSTORNO MENTAL
6.5 A LEI 10.216/2001 E A PROTEÇÃO DA PERSONALIDADE
Como já disposto no capítulo 3, a Lei n.10216/2001 foi resultado legal do movimento pela reforma psiquiátrica. Como tal, a lei busca romper com o paradigma anterior vinculado à internação, para privilegiar o atendimento ambulatorial, buscando assim adequar as políticas de tratamento de transtorno mental às ideias mais contemporâneas sobre o tema. Neste intento, acaba também por trazer diversas normas que podem ser utilizadas para resolver alguns dos problemas de violação da personalidade do portador de transtorno mental apontados no capítulo 5.
A lei inicia vedando qualquer espécie de discriminação ao portador de transtorno mental (art.1º), bem como enumerando seus direitos, que devem ser formalmente cientificados ao portador de transtorno mental e seus familiares ou responsáveis (art.2). Esta norma do caput do art.2º tem muito mais força simbólica do que efetividade, já que seu parágrafo único enumera direitos em nove incisos, que dificilmente seriam relatados na prática do atendimento diário.
Acredita-se que o ideal seria a edição de nova norma que, sem necessariamente modificar o citado dispositivo, criasse o dever de serem estes direitos afixados em local de destaque e visibilidade em toda unidade, pública ou privada, que preste atendimento voltado ao transtorno mental. Assim se alcançaria maior eficácia social com a norma, do que através do hoje existente dever de informar os direitos.
555 AGUIAR, Mônica. Modelos de autonomia e sua (in)compatibilidade com o sistema de capacidade civil no
ordenamento positivo brasileiro: reflexões sobre a resolução 1995/2012 do conselho federal de medicina. In:
A maior parte dos direitos elencados está voltada de modo mais abstrato para a promoção do acesso digno ao tratamento e da liberdade do portador do transtorno mental, protegendo, portanto, a personalidade de modo geral, como se pode notar pela transcrição do artigo abaixo realizada.
Art. 2º Nos atendimentos em saúde mental, de qualquer natureza, a pessoa e seus familiares ou responsáveis serão formalmente cientificados dos direitos enumerados no parágrafo único deste artigo.
Parágrafo único. São direitos da pessoa portadora de transtorno mental:
I - ter acesso ao melhor tratamento do sistema de saúde, consentâneo às suas necessidades;
II - ser tratada com humanidade e respeito e no interesse exclusivo de beneficiar sua saúde, visando alcançar sua recuperação pela inserção na família, no trabalho e na comunidade;
III - ser protegida contra qualquer forma de abuso e exploração;
IV - ter garantia de sigilo nas informações prestadas;
V - ter direito à presença médica, em qualquer tempo, para esclarecer a necessidade ou não de sua hospitalização involuntária;
VI - ter livre acesso aos meios de comunicação disponíveis;
VII - receber o maior número de informações a respeito de sua doença e de seu tratamento;
VIII - ser tratada em ambiente terapêutico pelos meios menos invasivos possíveis;
IX - ser tratada, preferencialmente, em serviços comunitários de saúde mental.
Alguns incisos, entretanto, trazem algumas proteções mais específicas relacionada com os direitos da personalidade em espécie. O inciso IV do citado artigo, traz proteção à privacidade do portador de transtorno mental, determinando o sigilo das informações que preste. As informações prestadas pelo portador do transtorno mental, quando do atendimento, são, a priori, sigilosas.
O inciso VI, por sua vez, auxilia contra a perspectiva de exclusão do mundo anteriormente abordada, ao permitir que tenha o sujeito livre acesso aos meios de comunicação disponíveis; é claramente norma que tem maior importância nas situações em que há a internação, mas que não deixa de se aplicar aos sujeitos que se encontrem em convívio familiar.
A grande dificuldade quanto ao disposto nos incisos IV e VI é a mediação destes direitos, o que acaba, inevitavelmente, ficando a cargo de um terceiro. É que no que toca à privacidade
das informações, por vezes será necessário ao médico transmitir algumas destas aos familiares ou autoridades competentes. Defende-se aqui, entretanto, que isto só deverá ocorrer quando sejam informações necessárias para o tratamento e que não possam ser executadas pelo próprio portador de transtorno mental, ou quando tenha o sujeito declarado intenção de causar danos a si ou a terceiros.
Nesta segunda situação, notadamente, caberá o juízo do profissional responsável pelo seu atendimento quanto ao grau de seriedade com que deve ser tratada a informação vinculada à ideia de causar danos. É que declarações raivosas de intenção de causar danos a si mesmo ou a terceiro podem surgir no curso de qualquer atendimento psicanalítico, por exemplo, seja o paciente portador de transtorno mental ou não, sem que isso implique necessariamente a intenção de leva-las a cabo. Em que pese as dos portadores de alguns transtornos mentais mereçam maior atenção, se tem que tomar cuidado para estar alerta à tênue barreira entre o cuidado e o preconceito.
Do mesmo modo no que toca à liberdade de acesso aos meios de comunicação. Por um lado, é extremamente importante a sua garantia, como modo de evitar a exclusão do sujeito do mundo. Nos casos em que a internação se faz necessária, a manutenção do contato social, ainda que por meio de telefone ou Internet, é fator importante para evitar a morte social. Por outro, corre-se o risco de que o sujeito, devido ao estado de crise em que se encontre, utilize os meios de comunicação para causar transtornos a terceiros.
Diante dos interesses em jogo e do histórico de exclusão, defende-se aqui que a comunicação seja sempre permitida, ainda que supervisionada em alguns casos, conforme o melhor juízo do grupo profissional responsável pelo atendimento. Entre a possibilidade de ficar o portador de transtorno mental incomunicável e sujeito a abusos, ou de um terceiros sofrer, por exemplo, uma ameaça telefônica, que possa ato contínuo ser esclarecida pela equipe responsável pelo tratamento, a segunda é certamente menos lesiva.
No que toca à proteção ao corpo, pode-se citar o inciso VIII, que determina que o tratamento deve se dar em ambiente terapêutico pelos meios menos invasivos possíveis. Pretende-se, assim, afastar o uso de tratamentos desumanos, já amplamente abordados.
Na mesma linha, o art.11, que determina que as “pesquisas científicas para fins diagnósticos ou terapêuticos não poderão ser realizadas sem o consentimento expresso do paciente, ou de seu representante legal, e sem a devida comunicação aos conselhos profissionais competentes e ao Conselho Nacional de Saúde”. Ocupou-se a lei com a preocupação já antes colocada da
realização de pesquisas nos portadores de transtorno mental, que são sujeitos especialmente vulneráveis.
O foco da lei, entretanto, é resignificar o papel da internação no tratamento do portador de transtorno mental. A internação deixa de ser a política padrão de tratamento, para se tornar apenas medida pontual. O próprio inciso IX acima transcrito deixa isto claro, ao afirmar que o tratamento deverá se dar, preferencialmente, em serviços comunitários de saúde mental. Prevê a lei internação de três tipos, a saber, voluntária, involuntária e compulsória. A internação voluntária, como o próprio nome indica, é aquela que se dá com consentimento do próprio sujeito (art.6, parágrafo único, I). A involuntária, por sua vez, se dá sem o consentimento do sujeito, a pedido de terceiro (art.6º, parágrafo único, II). A compulsória, por fim, é aquela que ocorre por conta de determinação judicial (art.6º, parágrafo único, III). Em qualquer dos casos a internação, que só deve ser utilizada como último recurso (art.4º), deve sempre visar a reinserção do portador de transtorno mental ao seu meio (art.4º, § 1). Também não pode a internação se dar em instituição que possua caráter asilar, sendo estas definidas como as que não concedem os direitos acima já destacados, ou que não ofereça assistência integral ao portador de transtorno mental, provendo serviços médicos, psicológicos, ocupacionais e de lazer, dentre outros (art.4º, § 3).
Dentre as três modalidades de internação, a involuntária, sem dúvida, é aquela que se coloca como a que exige maior fiscalização. Isto porque, acontecendo a pedido de terceiros, ao contrário da voluntária que parte do interesse do próprio sujeito, bem como da compulsória em que houve anteriormente o devido processo legal, abre maior espaço para internações indevidas. Os casos amplamente relatados acima, do Colônia, bem mostram isso.
Por conta disto é que a internação voluntária não apenas deve ser assinada por um médico devidamente registrado no Conselho Regional de Medicina do local onde ela acontece, como também deve ser comunicada no prazo de setenta e duas horas ao Ministério Público estadual, tanto o seu início, como seu término.