4. A TEORIA RACISTA NO BRASIL E A POLÍTICA DE "BRANQUEAMENTO”
4.3. Desafio para a educação das relações étnico-raciais: práticas pedagógicas na perspectiva
4.3.1. A Lei nº 10.639/2003 e outras políticas afirmativas
Mais do que uma decisão do Estado, a Lei nº 10.639/03 representa a vitória do movimento negro e de várias pessoas da sociedade civil, educadores e intelectuais engajados na luta contra o racismo, por valorização, reconhecença e consolidação de direitos referentes à educação. Conforme Nilma Lino Gomes (2012)115, a Lei
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Nilma Lino Gomes é graduada em Pedagogia e mestra em Educação pela UFMG, além de doutora em Antropologia Social pela USP. Cumpriu estágio pós-doutoral na Universidade de Coimbra, supervisionado por Boaventura de Souza Santos. Professora da Faculdade de Educação da UFMG e integrante da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros – ABPN –, entre 2002 e 2013 coordenou o Programa de Ensino, Pesquisa e Extensão Ações Afirmativas na UFMG. Coordenou também o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações Étnico-Raciais e Ações Afirmativas (NERA) e o GT 21 – Educação e Relações Étnico-Raciais – da ANPED, durante a Gestão 2012-2013. Foi também membro do Conselho Nacional de Educação no período 2010-2014, designada para a Câmara de Educação Básica.Sua atuação nas áreas de Educação e Antropologia Urbana propiciou a realização de pesquisas de relevo em tópicos como organização escolar, formação de professores
Pode também ser entendida como uma resposta do Estado às demandas em prol de uma educação democrática, que considere o direito à diversidade étnico-racial como um dos pilares pedagógicos do País, especialmente quando se consideram a proporção significativa de negros na composição da população brasileira e o discurso social que apela para a riqueza dessa presença116. (GOMES, 2012, p. 19)
Foi uma alteração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n.º 9.394/96) que estabeleceu a todas as instituições de ensino públicas e privadas a obrigatoriedade do Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Esse feito orientou a inserção da educação das relações étnico-raciais nas políticas estaduais e municipais, correspondendo a um conjunto de ações afirmativas elaboradas a fim de combater o racismo.
De acordo com as Diretrizes
A Lei 10.639/2003 e, posteriormente, a Lei 11.645/2008, que dá a mesma orientação quanto à temática indígena, não são apenas instrumentos de orientação para o combate à discriminação. São Leis Afirmativas, no sentido de que reconhecem a escola como lugar da formação de cidadãos e afirmam a relevância de a escola promover a necessária valorização das matrizes culturais que fizeram do Brasil o país rico, múltiplo e plural que somos. (BRASIL, 2004, p. 7)
Desta maneira, as Diretrizes Curriculares aparecem incorporadas à conjuntura política e social inclusiva, uma vez que participam de “políticas de reparação, reconhecimento e valorização de ações afirmativas” (BRASIL, 2004, p. 11). Orientam, assim, os mecanismos que deverão ser aplicados na política educacional
Assim sendo, sistemas de ensino e estabelecimentos de diferentes níveis converterão as demandas dos afro-brasileiros em políticas públicas de Estado ou institucionais, ao tomarem decisões e iniciativas com vistas a reparações, reconhecimento e valorização da história e cultura dos afro-brasileiros, à constituição de programas de ações afirmativas, medidas estas coerentes para a diversidade étnico-racial, movimentos sociais e educação, relações raciais, diversidade cultural e gênero.Em 2013 e 2014 foi reitora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira – UNILAB –, tornando-se a primeira mulher negra a ocupar o cargo mais importante de uma universidade federal no Brasil. Em janeiro de 2015, deixou essa função para ser Ministra-chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República – SEPPIR/PR – que, em decorrência da reforma administrativa de setembro daquele ano, foi incorporada ao recém-criado Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos, do qual a autora esteve à frente até 2016. Disponível em <http://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/368-nilma-lino-gomes> 07/07/2018. Acesso: 19 jan. 2019.
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GOMES, Nilma Lino (Org.) Práticas pedagógicas de trabalho com relações étnico-raciais na escola na perspectiva da Lei nº 10.639/03. 1.ed. Brasília: MEC; Unesco, 2012. 19p.
com um projeto de escola, de educação, de formação de cidadãos que explicitamente se esbocem nas relações pedagógicas cotidianas. Medidas que, convém, sejam compartilhadas pelos sistemas de ensino, estabelecimentos, processos de formação de professores, comunidade, professores, alunos e seus pais. (BRASIL, 2004, p. 13)
Este documento reitera a promoção e o incentivo às políticas de reparações, por parte do Estado, e sugere que seja posto em evidência o seu dever de protagonizar o desenvolvimento e cumprimento dos programas de ações afirmativas. Ainda que o texto seja bem transparente quanto às políticas que são direcionadas à educação dos negros de forma a garantir o acesso, a permanência e sucesso escolar, além da valorização do patrimônio histórico-cultural afro-brasileiro, seu intento abarca todo o conjunto social brasileiro no que diz respeito ao sistema de ensino público e privado.
De forma a promover o reconhecimento, as políticas determinam que as práticas pedagógicas sejam efetivas na promoção da justiça social, na garantia de direitos iguais, civis, culturais e econômicos.
A professora Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva (2004)117 relatou o Parecer 03/04, que teve aprovação em 10 de março de 2004, pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) e homologado pelo Ministério da Educação em 19 de maio de 2014. Este Parecer respaldou a Resolução nº 1, de 17 de junho de 2004, que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.
Um dos argumentos relevantes apresentados pelo Parecer 03/04 diz respeito ao reconhecimento da escola como um ambiente privilegiado para a superação do racismo, além de fazer um alerta a todos os educadores e educadoras se envolvam na luta pela superação do racismo.
Mais um equívoco a superar é a crença de que a discussão sobre a questão racial se limita ao Movimento Negro e a estudiosos do tema e não à escola. A escola enquanto instituição social responsável por assegurar o direito da educação a todo e qualquer cidadão deverá se posicionar politicamente, como já vimos, contra toda e qualquer forma de discriminação. A luta pela superação do racismo e da discriminação racial é, pois, tarefa de todo e
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Gaúcha de Porto Alegre, Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva é graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com licenciatura em português e francês e tem trajetória no âmbito da Educação. Indicada pelo movimento negro para a Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação, Petronilha integrou como relatora à comissão que elaborou o parecer CNE/CP n.º 3/2004, o documento regulamenta a lei 10.639/2003 e estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nos termos do Artigo 26 da Lei 9394/1996 das Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em < http://www.palmares.gov.br/?page_id=26889>. Acesso em: 27 mar. 2019.
qualquer educador, independentemente do seu pertencimento étnico-racial, crença religiosa ou posição política. (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2004)
O reconhecimento da identidade é um dos argumentos primordiais apresentados pelo Parecer e presentes na Resolução que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. A Resolução 01/04, em seu Artigo 3º, dispõe
§ 1° A Educação das Relações Étnico-Raciais tem por objetivo a divulgação e produção de conhecimentos, bem como de atitudes, posturas e valores que eduquem cidadãos quanto ao seu pertencimento étnico-racial - descendentes de africanos, povos indígenas, descendentes de europeus, de asiáticos – capazes de interagir e de negociar objetivos comuns que garantam, a todos, ter igualmente respeitados seus direitos, valorizada sua identidade e assim participem da consolidação da democracia brasileira.
§ 2º O Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, meio privilegiado para a educação das relações étnico-raciais, tem por objetivo o reconhecimento e valorização da identidade, história e cultura dos afro- brasileiros, garantia de seus direitos de cidadãos, reconhecimento e igual valorização das raízes africanas da nação brasileira, ao lado das indígenas, europeias, asiáticas. (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, b, 2004)
A Lei nº 10.639/03, o Parecer CNE nº 03/04 e a Resolução CNE/CP nº 01/04, conforme Gomes (2012, p. 8) vinculam-se à garantia do direito à educação e expõem perante a sociedade brasileira a necessidade de mudanças estruturais e simbólicas na concepção de reconhecença da diversidade e, também, do arranjo de oportunidades sociais díspares em que se encontram alguns grupos sociais.
O Ministério da Educação apresentou, em 2008, o Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e o Ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. O propósito era que a efetivação da Lei nº 10.639/03 fosse avigorada e institucionalizada no sistema de ensino. Segundo a pesquisa recomendada pela UNESCO/MEC, Práticas Pedagógicas de Trabalho com
Relações étnico-Raciais na Escola na Perspectiva da Lei 10.639/2003 (2012), evidenciou-se
que a implementação efetiva da lei não foi considerada efetiva.
Entretanto, do papel para a vida social, há uma grande distância a ser transposta, e o desencadeamento desse processo não significa sua efetiva adoção, tampouco seu completo enraizamento no chão das escolas públicas e privadas do País. A efetivação e a implementação de leis no campo educacional dependem em grande medida de um conjunto de condições que lhes permitam a realização plena. Nesse cenário, a escola tem sido
considerada historicamente um espaço de repercussão e reprodução do racismo (GOMES, 2012, p. 23-24)
Gomes (2011) assevera que a efetivação da lei irá depender de uma mobilização de toda a “sociedade civil a fim de que o direito à diversidade étnico-racial seja garantido nas escolas, nos currículos, nos projetos político-pedagógicos, na formação de professores, nas políticas educacionais, etc.” (GOMES, 2011, p. 116).