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3 O AMBIENTE DE PESQUISA A METODOLOGIA ADOTADA A TEORIA DO

4.5 A leitura do conto Negrinha, de Monteiro Lobato

A maioria dos contos selecionados para a realização deste trabalho tem crianças ou pré-adolescentes como personagens que viviam em situação social relativamente estável e com o direito a vivenciar as delícias e descobertas da infância. Isto posto, decidimos que seria apropriado, considerando a situação de negação total de ser criança em toda a sua amplitude à

personagem principal do conto Negrinha, abordarmos nesta etapa de pré-leitura o que está previsto na Declaração Universal dos Direitos da Criança como parâmetro para uma infância saudável e feliz.

Para tanto, propusemos aos alunos assistirem a um vídeo de aproximadamente um minuto e meio, no qual vozes de duas crianças (um menino e uma menina) declamavam uma forma resumida do poema da escritora Ruth Rocha: Os direitos das crianças38. Logo a seguir, sugerimos que fossem rapidamente anotados nos cadernos alguns desses direitos. Após isso, exibimo-lo outras duas vezes para que pudessem verificar o quanto conseguiram lembrar e anotar, mas também para se atentarem a algum outro não contemplado. Finalmente, em conjunto com os alunos, resumimos no quadro branco os principais direitos aludidos.

4.5.2 Introdução

Iniciamos esta etapa, anotando no quadro o título do conto e informando aos alunos que o autor era o mesmo que havia escrito o livro Reinações de Narizinho. Havíamos emprestado em outra escola pública exemplares de diferentes obras infantis de Monteiro Lobato, das quais fomos apresentando os títulos e repassando-as à afoita classe que concorria para manuseá-los. Enquanto isso, apresentávamos de forma interativa um pouco mais de sua vida e obra.

Monteiro Lobato, um dos grandes nomes da literatura brasileira, sobretudo a infante, encanta várias gerações de leitores de qualquer idade com suas obras que por sua alta qualidade estética podem possibilitar prazerosas leituras capazes mesmo de transportar adultos para um mundo de imaginação de uma fase da vida em que os sonhos são mais puros, mais ricos e, por isso mesmo, mais gostosos, a infância. Dentre suas obras mais conhecidas, estão aquelas que se passam no imaginário Sítio do Picapau Amarelo.

Seu primeiro livro infantil foi lançado em 1921 sob o título A menina do narizinho arrebitado (que posteriormente, com acréscimo de alguns episódios passou a Reinações de Narizinho). Em 1924, lança A Caçada da Onça (posteriormente, As Caçadas de Pedrinho). Há ainda: Viagem ao Céu (1932), Memórias de Emília (1936), Histórias da Tia Nastácia (1937), O Sítio do Picapau Amarelo (1939), A Reforma da Natureza (1941), A chave do tamanho (1942), Os doze trabalhos e Hércules (1944), entre outros.

Foi, contudo, com o livro de contos Urupês, lançado em 1918, que este talentoso escritor começou a ganhar notoriedade. Já Negrinha teve sua primeira publicação no ano de 1920 em livro de mesmo nome, composto, originalmente, por seis narrativas curtas. Ítalo Moriconi, crítico e ensaísta, o incluiu na seleção dos considerados cem melhores contos brasileiros do século XX.

Salientamos que a apresentação desses elementos característicos da vida e obra deste grande autor brasileiro não se realizou como citação simplesmente, mas em tom de diálogo e sempre com o cuidado de relacionar, na medida do possível, a informação com as obras do autor que levamos aos alunos. Nosso intuito era despertar o interesse pela leitura de outras produções literárias do autor, assim oportunizando uma melhor apreensão destas informações e as tornando interessantes à classe.

4.5.3 Leitura

Entregamos os textos aos alunos para seu momento de leitura individual silenciosa. Toda a classe ficou em total silêncio e concentração. Sequer um dos alunos reclamou das quatro páginas completas do texto que leriam e absolutamente todos os dezessete presentes mantiveram-se assim até que todos terminassem de ler. Depois, procedemos com a enumeração dos parágrafos e auxiliamos alguns que se atrapalharam na enumeração daqueles introduzidos por travessão. Houve quem celebrasse ter enumerado corretamente todos os parágrafos: “Égua, acertei! Até que enfim.”

4.5.4 Interpretação

Para incitar a discussão sobre o conteúdo temático do conto, partimos da questão: Quais dos direitos das crianças citados no vídeo foram assegurados a Negrinha? Por quê? Contribuições: “Ela não sabia nem o que era boneca”, “Ela não tinha direitos”, “Não, ela tinha direitos, mas a mulher (Dona Inácia) negava”, “Os direitos da Negrinha não eram respeitados, ela não podia brincar, não tinha liberdade”, etc. Prosseguimos: E como era a vida da Negrinha? As várias vozes se misturavam: “Ela era muito espancada”, “Davam pontapé, beliscão e puxão de orelha nela”, “Puseram um ovo quente na boca dela”, “Chamavam ela de diabo e peste”.

Provocamos: E por que Negrinha tinha seus direitos de criança negados? Apontaram como prováveis motivos: ela era pobre, filha de negros, escrava. Mas e o que isso tem a ver

com a negação de seus direitos? “A Dona Inácia era muito racista, porque ela apelidava a criança de preta, de negra, etc. Isso é racismo!”. Mas era só com a Negrinha que Dona Inácia agia assim? As primeiras respostas afirmavam que era com todas as crianças que ela agia assim. Outra voz, porém, enfaticamente, contrapôs: “Não era com toda criança não, era só com a Negrinha, porque se fosse com todas as crianças, ela trataria as sobrinhas dela do mesmo jeito”. Alguém complementou: “Ela não gostava muito de crianças porque não tinha filhos”.

Em seguida, debatemos sobre a perseguição daquela senhora com os, outrora, escravos. Houve quem argumentasse que naquela época ainda havia escravidão. Lemos juntos em voz alta parágrafos que desfizeram essa ideia e enfatizaram que, para Dona Inácia, a concepção de “negro ser igual a branco” era uma indecência, por isso ela agia de forma cruel com os negros que para ela trabalhavam e, principalmente, com Negrinha, a qual mantinha consigo, não por caridade, mas sim como um derivativo.

Em seguida passamos a contrapor a imagem que a sociedade tinha de Dona Inácia, o que ela era de fato na intimidade e a ironia com a qual era tratada pelo narrador. Juntos, encontramos e discutimos as expressões irônicas presentes na narrativa as quais denunciavam o real caráter daquela “virtuosa senhora”. Nenhum aluno, até então, sabia o significado da palavra ironia, o que explicamos com exemplos do conto, pelos próprios alunos citados: “Ela não tinha nada de santa, porque batia, espancava, xingava e torturava a Negrinha”, afirmou um. Já outro: “Nossa, se ela é santa eu sou o quê?”.

Eles enfatizaram ainda o grande número de insultos maldosos disfarçados de apelidos com que a pobre órfã era agredida e, ao explanarmos sobre o episódio do ovo quente, foram rápidos e espontâneos em citar exemplos conhecidos de tortura de crianças, assim como em reprová-los. Diante disso, questionamos: a Negrinha era feliz? Respostas: “Professor, a única alegria dela era ver o cuco do relógio cantar”. “Ela não era feliz porque ela era muito maltratada”. “A maior alegria dela foi ver pela primeira vez a boneca”. “Ela não tinha nenhuma liberdade ou direito”.

Prosseguimos para o momento em que a história de Negrinha começou a mudar. Neste momento, contrapomos o perfil da criança negra com o das sobrinhas de Dona Inácia. Indagamos: o que Negrinha sentiu quando viu as duas meninas louras entrarem correndo pela sala sem serem reprovadas por ninguém e quis participar da “festa” também? Um aluno que quase sempre ficava tímido e calado leu o parágrafo que descrevia o peso da tristeza provocado pela exclusão da menina pobre e negra. Ressaltamos, contudo, que tal exclusão não provinha das crianças louras, pelo contrário, estas não tiveram uma atitude de

discriminação, mas de reconhecimento de que Negrinha era criança como elas, quando a aceitaram em seu meio dividindo com esta seus brinquedos e brincadeiras.

Seguiu-se a discussão sobre o episódio da boneca a partir do qual Dona Inácia finalmente amoleceu o coração compreendendo que Negrinha era sim uma criança e permitiu que esta fosse brincar com as sobrinhas no jardim. Foi então que, motivados pela descrição da imensa alegria que a menina negra sentiu, instigamos a reflexão sobre o excerto “Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma – na princesinha e na mendiga.” Concluiu-se que todas as crianças são iguais não importa quem sejam.

Além disso, lemos juntos em voz alta os parágrafos em que Negrinha se descobre como ser, como pessoa. Uma aluna questiona: “O que significa ‘desabrochara-se a alma’”? Com a ajuda dos colegas e nossa, ela compreendeu que aquela criança enfim entendeu que não era “coisa” como todos – principalmente Dona Inácia – a fizeram se sentir, mas que era também um ser humano. Retomamos rapidamente toda a história triste da menina, contrapondo-a com os poucos dias de felicidade que viveu com as crianças louras para então partirmos para o desfecho do conto.

Um voluntário continuou a ler os parágrafos, depois lemos todos juntos a descrição da morte da pequena órfã, a qual muito sofreu e pouco foi feliz, felicidade fugaz que, após ter sido experimentada, transformou-se em veneno para sua alma. Ao término, perguntamos: esse final é feliz ou triste? Os entendimentos divergiam: “Triste porque ela morreu”, “Feliz porque ela foi pro céu”. Para concluir, perguntamos se existem hoje em dia muitas crianças que vivem como Negrinha. Os alunos argumentaram que toda criança que tem algum direito negado se assemelha a esta personagem. Há, inclusive, como ela, crianças que não têm sequer o direito a um nome. Ao se comparar o perfil de Negrinha com os das outras crianças personagens principais dos demais contos, os alunos concluíram que estas, diferente daquela, tiveram seus diretos de crianças respeitados.

4.5.5 Algumas considerações sobre o quinto encontro

Na fase da leitura, precisamos dar certo tempo à classe antes de iniciarmos a leitura silenciosa do conto, pois muitos alunos que estavam com os demais livros de Monteiro Lobato os folheavam e os liam curiosos. À medida que encontravam figuras e nomes de personagens riam e apontavam para colegas, comparando-os entre si. Não podíamos interromper esse contato com as obras haja vista que aquele seria nosso último encontro com a turma, por isso não poderíamos fazer o empréstimo dos livros.

Destacamos que dentre todos os momentos de leitura do projeto, este foi aquele do qual os alunos mais participaram fazendo leituras em voz alta quando solicitados sem que precisássemos insistir para que o fizessem. Também foi neste encontro que houve mais contribuições de diferentes alunos, inclusive daqueles mais tímidos, no momento da interpretação.

Tal como se sucedeu no dia da leitura do conto Espelho meu, nossa aula de leitura precisou ser interrompida bem em meio às discussões devido ao recreio. Todavia, aqui, depois que as retomamos, manteve-se a atenção e a participação na maior parte do tempo, apesar da agitação e rápidas dispersões já no final das discussões.

Por se tratar do último dia de nossa pesquisa, fizemos com a turma uma recapitulação de todos os contos e outros textos lidos em sala de aula, bem como de seus autores. Não houve maiores dificuldades para recuperar estas informações. À medida que textos e autores eram citados, anotávamo-los no quadro. Procedemos da mesma forma ao recapitularmos quem eram os personagens principais de cada conto, destacando os perfis leitores das crianças dos três primeiros textos e ressaltando a importância do ato ler.

Depois de tudo anotado no quadro, chamamos a atenção de todos para a quantidade de textos lidos por eles durante a aplicação de nosso projeto. Foram dez. Se considerarmos o curta metragem do conto Chuvas e trovoadas, de Maria Lúcia Medeiros, teremos um total de onze obras literárias “lidas” pelos alunos. Interpelamos: Vocês já tinham feito tantas leituras assim em sala de aula? O não foi a resposta geral. Também quisemos saber: Vocês gostaram? Valeu a pena lermos tanto? Para nossa satisfação, todos responderam afirmativamente.

Finalizamos este encontro, entregando os questionários de sondagem sobre as atividades de leitura de contos em sala de aula e, posteriormente, sorteando alguns livros de leitura literária e cópias do filme A Bela e a Fera, as quais foram muito solicitadas por uma parte da turma.

Findadas as descrições e análises das propostas aplicadas, passemos à análise dos questionários de sondagem.

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