No ano de 2001, o Cantinho da Leitura foi estendido aos alunos de 5ª a 8ª séries17 sob a nomenclatura Programa de Bibliotecas das Escolas Estaduais, atendendo com livros literários, mas também com livro de apoio aos professores nas disciplinas de português, matemática, língua estrangeira (inglês/ espanhol), sociologia, filosofia, geografia, história, ciências, artes e educação física. Freitas (2009) afirma que o programa atendeu a necessidade de oferta de material, mas não alcançou seu objetivo principal de formação de jovens leitores, uma vez que sua pesquisa revela o pouco uso do material e até mesmo o desconhecimento da existência dos livros por parte dos alunos.
Desse modo, é importante perceber que as políticas públicas de leitura por si só não efetivam a formação de leitores, pois, como assegura Fernandes (2013), entre livros e leitores há importantes mediadores, que, além da família, tem no professor figura fundamental na construção de uma história de leitura para cada aluno. Afinal, “cabe a ele o papel de desenvolver no aluno o gosto pela leitura a partir de uma aproximação afetiva e significativa com os livros”. (FERNANDES, 2013, p. 32)
(2002), a leitura, principalmente a literária, é uma experiência de libertação e de preenchimento que renova a percepção de mundo, modifica o olhar sobre as coisas e, por isso, possibilita formas de exercer a cidadania.
Fernandes (2013) afirma que o acesso à escolaridade e à leitura estão na pauta de todas as agendas governamentais e que as discussões apontam para a importância da leitura no contexto da escola, com o escopo de melhorar as condições de letramento da população brasileira. De acordo com a autora, a discussão em torno do tema se desenvolve a partir da necessidade de constituição de sujeitos que possam atuar como cidadãos, com uma postura crítica e política frente aos acontecimentos do mundo atual. Segundo a autora:
Na sociedade brasileira atual, a leitura constitui-se uma necessidade para todas as pessoas e um dos requisitos essenciais da cidadania. Entre outros exemplos básicos do cotidiano urbano, os letreiros de ônibus, as placas das ruas, os cartazes de supermercados e os caixas eletrônicos requerem práticas de leitura. Para competir no mundo do trabalho, é preciso ter um aprendizado permanente, e essa exigência de atualização profissional relaciona-se diretamente com a leitura. (FERNANDES, 2013, p.11-12)
Assim, saber ler, mais que um direito, passa a ser uma necessidade que deve ser respeitada e difundida nas escolas e na política nacional. No entanto, é importante pensar a diferença entre aprender a ler e se tornar leitor, pois a concepção de leitura aqui defendida é muito mais que decodificar o código; é dar sentido ao que se leu para transformar o lido em um novo conhecimento. Nos dizeres de Rojo (2009), para ler não basta conhecer e decodificar os grafemas e fonemas; é preciso compreender o que se lê. Isso exige que os conhecimentos de mundo sejam acionados para que o leitor possa inferir, prever, comparar e generalizar as informações lidas. Só assim é possível interpretar, criticar e dialogar com o texto. Por assim ser, mais que ser alfabetizado, é necessário que se considere as capacidades de leitura e escrita e o conhecimento que delas são apropriados.
Britto (2012) afirma que há muita imprecisão sobre o que é a leitura e quais são as suas formas de realização como parte da cultura e formação do leitor, tanto na atenção quanto nos investimentos políticos e econômicos. Para o autor, a leitura no Brasil tem sofrido com a disseminação de duas percepções equívocas: a primeira, de que se trata de um país de não leitores e, portanto, pobre cultural e intelectualmente; a segunda, de que a leitura é salvacionista, muitas vezes atribuindo-se a ela o sentido de um bem em si, civilizador e edificante.
Na ótica de Britto (2012), o alfabetismo, entendido como capacidade de ler e realizar tarefas pelo uso da escrita, tem recebido destaque em pesquisas e indicadores, os quais apontam que o Brasil universalizou o ensino fundamental e que as matrículas no ensino
superior quase triplicaram. Essas pesquisas18 atestam, entretanto, que o índice de alfabetismo do brasileiro está longe de alcançar a plenitude. Diante desse quadro, Britto indaga qual seria a figura do leitor e quais as concepções de leitura veiculadas nas escolas, na sociedade e na política. Em consonância com esse pensamento, Maués (2002) afirma que os resultados de relatórios, como o Retratos da Leitura no Brasil, revelam de forma explícita a exclusão social de grande parte dos brasileiros, que buscam diferentes formas de se tornarem leitores. E afirma:
Muitas vezes esse é um leitor quase que heroico, que consegue, de alguma forma – em igrejas, por empréstimos de amigos, por meio da escola ou das poucas e precárias bibliotecas existentes –, superar os obstáculos que lhe são impostos e chegar até o livro, contra quase todas as probabilidades. (MAUÉS, 2002, p. 70)
Para Rojo (2009), muitas mudanças ocorridas durante os anos 1990 foram importantes, principalmente o fato de se garantir o acesso universal de todos os alunos com idade entre 7 a 14 ao ensino público. Porém, segundo a autora, embora haja vagas, não há permanência e qualidade, mesmo com todos os programas de apoio do governo, os quais buscam minorar o processo de exclusão, repetência e fracasso escolar.
Ainda conforme Rojo (2009), a leitura escolar parece não ter avançado nos últimos anos, porque somente poucas e as mais básicas das capacidades leitoras têm sido ensinadas e cobradas pela escola; todas as outras são quase ignoradas. Portanto, apesar de esta ser uma sociedade altamente letrada, ainda há muito o que se fazer para alcançar uma leitura cidadã. O nível pleno de leitura, entendido como a capacidade de ler textos longos, localizando informações e realizando inferências e síntese, apenas é alcançado, segundo INAF de 2011, por 5% dos alunos do ensino fundamental, 35% dos alunos do ensino médio e 62%
dos alunos do ensino superior. (ROJO, 2009)
Silva (1994) destaca que o ato de ler é fundamentalmente uma forma especial de o homem se relacionar com o mundo e com os outros homens, abrindo perspectivas para o aumento quantitativo e qualitativo do conhecimento. Nessa direção, a leitura abre as portas a novos conhecimentos e um posicionamento crítico ao que está posto na sociedade, na escola e até mesmo em relação ao que se lê.
A leitura implica, também e principalmente, a produção e construção de sentidos e, nesse processo, o sujeito se forma como leitor em interação com o texto, com outros textos, a partir da sua própria história de leitor e de suas experiências de vida.
Considera-se, então, que o acesso aos bens culturais é fundamental para o processo de se tornar leitor, ao mesmo tempo que é essencial, para isso, realizar um tipo de trabalho com a leitura que possibilite refletir sobre essas relações, sobre os sentidos apreendidos no texto e sobre os sentidos construídos e reconstruídos pelo leitor.
(BERENBLUM; PAIVA, 2008, p. 20)
18SAEB (2011); INAF (2011).
Bomeny (2009), ao discutir a constituição do leitor, afirma que há um razoável consenso entre especialistas brasileiros que admitem ser a escola o espaço mais importante, senão o único, em que crianças e adolescentes entram em contato com a leitura. As dificuldades estabelecidas no desenvolvimento da leitura nas escolas estão diretamente relacionadas às práticas que nelas são efetivadas. A autora pontua que, na escola, é preciso haver práticas efetivas de leitura que corroborem para desenvolver habilidades leitoras. O gosto e prazer são consequências do aprendizado e o tempo despendido ao exercício de ler.
(BOMENY, 2009) Isso significa que saber ler é diferente de ter prazer na leitura, haja vista que, para despertar o prazer e o gosto pela leitura, é necessário desde um ambiente favorável até o cultivo e estímulo afetivo para a mesma.
Ainda de acordo com Bomeny (2009), a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) apresenta sistematicamente cinco fatores que contribuem para criar o hábito da leitura, que são: I – ter nascido em uma família de leitores;
II – ter passado a juventude em um sistema escolar preocupado com o estabelecimento do hábito da leitura; III – adequação do preço do livro para que todos possam ter acesso; IV – possibilitar o acesso ao livro em diferentes espaços e contextos; e V – atribuir ao livro o valor simbólico a toda população.
Fica difícil imaginar a sustentação de todos esses fatores para desenvolver hábitos de leitura considerando a realidade do Brasil. Se for levado em consideração que no início do século XX o índice de analfabetismo no país era de 76,4%, fica ainda mais improvável recorrer à família como fonte formadora do hábito de leitura. Por assim ser, a escola, e, consequentemente, a biblioteca escolar, juntas aos mediadores da leitura (professores, bibliotecários, coordenadores, diretores, pais) passam a ter papel primordial e o compromisso com o desenvolvimento do hábito da leitura, visto que:
Não é possível estimular a leitura e cativar novos leitores se não estamos convencidos das vantagens de ler. Não seremos capazes de converter analfabetos ou iletrados em leitores se não estamos convencidos da importância da leitura. Nós que estamos como intermediários entre os livros e as crianças – pais, mestres, bibliotecários, editores, livreiros e produtores culturais –, se não vivemos a leitura como um ato de permanente enamoramento com o conhecimento e a informação, se não praticamos o prazer da convivência com a leitura, não lograremos promove-la, nem ampliaremos o número de leitores. Ou seja, se não estamos capacitados, como capacitaremos outros? Ou melhor, se não estamos animados, como animar os demais? (YUNES, 1994, p. 20)
Por essa vertente, é interessante salientar que a extrema desigualdade social existente no Brasil, assim como as precárias condições de trabalho dos professores - que perpassam desde as dificuldades estruturais das instituições escolares até os parcos salários e
inadequada formação (BERENBLUM; PAIVA, 2008) - são apontadas como dificuldades de estabelecer a formação de leitores. Essas situações apontam para a necessidade de se rever não somente as políticas públicas de leitura, mas também a situação em que a leitura é vivenciada dentro da escola por seus mediadores.
Para Pinsky (1994), o brasileiro é leitor, pois ele lê o que é possível e disponibilizado a ele, como placas, legenda de filmes, bilhetes, denúncias de corrupção, classificados de emprego, horóscopo e xerox. O autor adverte que a leitura de livros ainda não é uma realidade efetivada no Brasil, pois os livros são, em sua maioria, caros numa realidade de salários baixos e de uma cultura que não investe em bibliotecas pessoais. Culturalmente, há dinheiro para um passeio ao shopping, para viagens, para o combustível, mas não há para a compra de livros. Além disso, existe a cultura do xerox e de leituras fragmentadas, desde o ensino fundamental até as universidades.
Mesmo sabendo que o professor universitário, formador de futuros educadores, tem nas mãos a responsabilidade pela construção de um percurso de leitura, o estudo de Andrade (2007) revela que, nos cursos universitários de formação de professores, o xerox se constitui como meio quase que exclusivo utilizado para as leituras e para as aulas. O estudo evidencia ainda que os alunos, além de efetuarem leituras fragmentadas, estabelecidas apenas por meio de partes dos livros xerocados, também não formam o hábito de frequentar bibliotecas, consideradas pelos professores pesquisados como espaços desatualizados. Porém, verificou-se que, mesmo quando as bibliotecas têm o material que procuram, os alunos optam por cópias das obras. Assim, deixa-se de constituir uma cultura de efetivação da compra de livros e de frequência às bibliotecas.
Britto (2012) aponta que as avaliações nacionais e internacionais que avaliam o nível dos alunos e a qualidade do ensino oferecido, encomendadas pelo governo, não consideram a realidade de um país diversificado, produzindo indicadores a partir da simples compra de livros. Como defende Silva (1994), tornar-se leitor não é apenas uma questão de querer, mas de poder, de ter condições física e mental, de tempo, de dinheiro, de acesso ao material escrito e valorização do processo da leitura. Desse modo, ler é um ato de conquista das circunstâncias concretas que permitem à pessoa ser realmente uma leitora e poder praticar a leitura nas diferentes facetas da vida.