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6 A LEITURA DO ESTADO EM ALFRED MARSHALL – SÉCULO XX

6.1 A LEITURA INDIRETA DO ESTADO NOS PRINCIPLES

Visando a análise dos Principles of Economics de Marshall optou-se por destrinchar cada livro individualmente para, então, ao final, elaborar uma conclusão geral acerca da leitura marshalliana do Estado. Entretanto, é importante destacar, ainda aqui, no início da análise, que o Estado está abstraído da obra de Marshall (1920) e aparece apenas em alguns trechos, quando das discussões sobre impostos. Nesse sentido, é possível aproximar esta abstração àquela feita por Ricardo (1982), na qual a estrutura estatal se encontra excluída do sistema econômico erigido. Ao longo da análise dos seis livros que compõe os Principles, buscaremos demonstrar as mudanças metodológicas na ciência econômica introduzidas pelo autor e como essas impactam o que, ao final, caracterizaremos em sendo sua leitura do Estado. O capítulo exige paciência do leitor, já que os desvios do objeto principal, quando da apresentação das categorias marshallianas, são constantes, isso porque, cremos, não haveria outra possibilidade de compreensão da visão de nosso autor acerca do Estado que não essa.

Antes de entrarmos no Livro I, é importante que percorramos algumas diretrizes estabelecidas pelo autor nos prefácios à primeira edição, de 1890, e à oitava edição, de 1920 – a qual nos valemos, a partir de uma reimpressão de 2013, para a análise. Logo ao início do prefácio à primeira edição, Marshall (1920) sai em defesa do paradigma marginalista surgente, ou em suas palavras, “as novas doutrinas”, “o trabalho da atual geração”:

Some of the best work of the present generation has indeed appeared at first sight to be antagonistic to that of earlier writers; but when it has had time to settle down into its proper place, and its rough edges have been worn away, it has been found to involve no real breach of continuity in the development of the science. The new doctrines have supplemented the older, have extended, developed, and sometimes corrected them, and often have given them a different tone by a new distribution of emphasis; but very seldom have subverted them (MARSHALL, 1920, p. xix).

Portanto, diferentemente do que estamos afirmando até aqui, o autor não crê que o paradigma ao qual pertencia, ou mais que isso, ao qual dá consistência teórica ao sintetizá-lo em seus

Principles, represente um rompimento com os economistas predecessores. Logo, do ponto de vista marshalliano, o consenso formado dentro da historiografia econômica nesse século, pós oitava edição de sua magnum opus, estaria equivocado, já que subversões contidas no paradigma marginalista quanto aos clássicos seriam raras. Caberá, portanto, que sejam expostas aqui essas subversões ao longo dos seis livros, e ficará ao critério do leitor classificá- las como raras e insignificantes, ou como substanciais.

Adiante, Marshall (1920) caracterizará o Princípio da Continuidade como um dos pontos

especiais de seu trabalho133. Esse princípio permitirá que o autor atribua tanto ao, digamos,

trabalhador de uma indústria de tecidos, como ao acionista dessa indústria, a capacidade de deliberar suas ações a partir de “cálculos” precisos quanto aos prós e contras dessas (no Livro I essa exposição se fará mais clara). Dará também força aos argumentos já expressos, ainda de maneira subsumida, na Teoria Pura quanto a não diferenciação entre lucro e renda (ver nota 131). Ainda no prefácio, vai também aprofundar os argumentos em favor da não necessidade

das categorias Capital, Terra e Trabalho, aproximando-os à quase unidade134:

Again, though there is a sharp line of division between man himself and the appliances which he uses; and though the supply of, and the demand for, human efforts and sacrifices have peculiarities of their own, which do not attach to the supply of, and the demand for, material goods; yet, after all, these material goods are themselves generally the result of human efforts and sacrifices. […] As, in spite of the great differences in form between birds and quadrupeds, there is one Fundamental Idea running through all their frames, so the general theory of the equilibrium of demand and supply is a Fundamental Idea running through the frames of all the various parts of the central problem of Distribution and Exchange. (MARSHALL, 1920, p. xxi) [grifo nosso].

Aqui, Marshall (1920) já demonstra a inflexão da nova doutrina, não apenas quanto às categorias base da Economia Política, como também à subversão de seu problema central. Se, nos autores até aqui estudados, e neles incluído Keynes, o objeto de estudo era a produção, o novo paradigma coloca a troca e a distribuição como objetos principais de análise. Não obstante, as quantidades agregadas, antes objeto de estudo, são substituídas pelos incrementos marginais à produção:

I was led to attach great importance to the fact that our observations of nature, in the moral as in the physical world, relate not 80 much to aggregate quantities, as to increments of quantities, and that in particular the demand for a thing is a continuous function, of which the " marginal " 1 increment is, in stable equilibrium, balanced

133 “If the book has any special character of its own, that may perhaps be said to lie in the prominence which it

gives to this and other applications of the Principle of Continuity” (MARSHALL, 1920, p. xx).

134 Para além do trecho citado no corpo do texto, Marshall ainda afirma “There is not in real life a clear line of

division between things that are and are not Capital, or that are and are not Necessaries, or again between labour that is and is not Productive” (Ibid., p. xxii).

against the corresponding increment of its cost of production (MARSHALL, 1920, p. xxii)

O prefácio à primeira edição é, por tudo aqui exposto, virtuoso ao demonstrar, em um pequeno número de páginas, as diretrizes básicas do paradigma econômico que se consolidava na Inglaterra ao final do século XIX. Além disso, embora não tenhamos exposto aqui, Marshall (1920) apresenta um conhecimento profundo não apenas quanto à matemática e aos autores de economia política, como também a alguns expoentes da filosofia, como Hegel. Ao longo dos Principles é notório o conhecimento do autor quanto aos debates de economia política, da história inglesa e da filosofia europeia.

Outrossim, no prefácio à oitava edição, escrito em 1920, portanto, após a publicação da primeira edição de Industry and Trade, livro tido por Marshall (1920) como uma continuação

de seus Principles135, o economista inglês assumirá que seu tratado aborda a economia de

maneira estática: “its central idea is "statical," rather than "dynamical." (Ibid., p. xxv). Todavia, afirma que como a preocupação de sua análise repousa sobre fenômenos que causam movimento, os modelos podem ser considerados dinâmicos. Mais ainda, a parte estática dos modelos (ceteris paribus) é por ele considerada cada vez menor, e àquela dinâmica, cada vez maior:

Gradually the area of the dynamical problem becomes larger; the area covered by provisional statical assumptions becomes smaller; and at last is reached the great oentral problem of the Distribution of the National Dividend among a vast number of difierent agents of production. Meanwhile the dynamical principle of "Substitution" is seen ever at work, causing the demand for, and the supply of, any one set of agents of production to be influenced through indirect channels by the movements of demand and supply in relation to other agents, even though situated in far remote fields of industry. (MARSHALL, 1920, p. xxvi).

Em mais uma subversão aos princípios da Economia Política, o economista inglês dirá que a tendência aos rendimentos decrescentes, como elaborada inicialmente por Ricardo (1982) com respeito à renda da terra, e depois por Mill (1994) e também Marx (2013; 1986) de

maneira aplicada à produção industrial, já não é mais válida136. Desse modo, defende mais

uma vez a “nova doutrina” econômica, e argumenta que o método marginalista ainda não está pronto, não possui dogmas e levaria mais uma geração para que seja completamente dominado.

135 “Industry and Trade, published in 1919, is in effect a continuation of the present volume” (MARSHALL,

1920, p. xxiv)

136 “But in the present age, the opening out of new countries, aided by low transport charges on land and sea, has

almost suspended the tendency to Diminishing Return, in that sense in which the term was used by Malthus and Ricardo, when the English labourers’ weekly wages were often less than the price of half a bushel of good wheat” (Ibid., p. xxvii).

O Livro I apresenta uma introdução aos pontos principais da “nova doutrina”, inclusive alguns de seus pressupostos, e revela a forma na qual os Principles serão redigidos: a forma de manual. O conteúdo constante nesse primeiro livro permanece, essencialmente, inalterado na ortodoxia econômica até hoje, um século depois da oitava edição.

Em Marshall (1920, p. 1) economia será definida como “a study of mankind in the ordinary business of life; it examines that part of individual and social action which is most closely connected with the attainment and with the use of the material requisites of wellbeing”. O trabalho diário formará as características do indivíduo, portanto, a pobreza causará degradação: “No doubt their [Those who have been called the Residuum of our large Towns] physical, mental, and moral ill-health is partly due to other causes than poverty: but this is the chief cause” (Ibid., p. 2).

Mais adiante, ao discutir a necessidade ou não de uma classe inferior (lower class), destinada a trabalhar e não aproveitar os prazeres da vida, Marshall (1920) argumentará que o progresso técnico observado durante o século XIX, sobretudo a partir do advento da máquina à vapor, já havia liberado muitos das condições mais degradantes. E a partir dessa constatação, inaugurará um sofisma repetido até os dias presentes, qual seja, que boa parte dos indivíduos lotados na classe inferior viviam de maneira mais nobre e refinada à sua época do que às

classes superiores de um século antes137. Definirá também que a característica da indústria

moderna não é a competição138, mas sim a livre escolha individual, ou a liberdade

econômica139. Essa nova meta-categoria se mostrará, ao longo do tratado, de extrema importância para a leitura do Estado no autor, já que, determinado imposto governamental pode, em última instância, mitigar o poder individual de livre escolha. Aqui encontramos, em Marshall (1920), uma característica similar àquela observada em Smith (1996), isto é, a utilização de um rígido axioma inicial para definições teóricas e projeções futuras.

137 “A great part of the artisans have ceased to belong to the " lower classes " in the sense in which the term was

originally used; and some of them already lead a more refined and noble life than did the majority of the upper classes even a century ago” (MARSHALL, 1920, p. 3). Parece evidente que se, por um lado, o progresso técnico trouxe inúmeras melhorias nas condições de vida das classes trabalhadoras, por outro, ao visitarmos um antigo palácio, como por exemplo o de Petergof, na Rússia, que nem mesmo a classe média, de hoje, possui o mesmo luxo e espaço detido pela aristocracia do século XVIII.

138 “It is often said that the modern forms of industrial life are distinguished from the earlier by being more

competitive. But this account is not quite satisfactory” (Ibid., p. 4)

139 “We may conclude then that the term "competition" is not well suited to describe the special characteristics of

industrial life in the modern age. We need a term that does not imply any moral qualities, whether good or evil, but which indicates the undisputed fact that modern business and industry are characterized by more self-reliant habits, more forethought, more deliberate and free choice. Economic There is not any one term adequate for this purpose: but Freedom of Industry and Enterprise, or more shortly, Economic Freedom” (Ibid., p. 8).

Ao defender a livre escolha individual, na visão do autor, característica marcante do sistema econômico-social que levou o ocidente ao patamar em que se encontrava, o economista argumentará que as visões românticas dos poetas e sonhadores de uma sociedade onde todos tenham reponsabilidade e a competição seja substituída pela cooperação, são irreais, já que ignoram as imperfeições presentes na natureza humana: “But in the responsible conduct of affairs, it is worse than folly to ignore the imperfections which still cling to human nature” (MARSHALL, 1920, p. 7)

Seguindo o seu raciocínio em defesa daquilo que nomeou “liberdade econômica” (ver nota 138), pela primeira vez ao longo do texto, aparecerá a consequência dessa definição metafísica em relação à sua leitura das ações do Estado. Marshall (1920, p. 9) argumentará que, por mais cruel e imprudente que possam ter sido algumas situações impostas pela classe

proprietária aos trabalhadores140, os males causados pela Lei dos Pobres (Poor Law), que

acabou por limitar a liberdade individual de escolha, foram ainda piores:

Meanwhile the kindly meant recklessness of the poor law did even more to lower the moral and physical energy of Englishmen than the hard-hearted recklessness of the manufacturing discipline: for by depriving the people of those qualities which would fit them for the new order of things, it increased the evil and diminished the good caused by the advent of free enterprise. (Ibid., p. 9).

Aqui, ainda ao início do tratado marshalliano, já é possível visualizar a estrita relação entre a categoria metafísica definida pelo autor como principal, e a leitura do Estado e seus impactos

que o autor apresentará141. A ideia implícita de liberdade individual faz com que qualquer

interferência nessa seja tida como um mal. Vemos aqui, portanto, uma primeira amostra do determinismo positivista da teoria de Marshall; esta é: haverá sempre um bem e um mal. Entretanto, diferentemente de Smith (1996), o economista inglês buscará justificar com maior consistência sua defesa da livre iniciativa. Mais ainda, tratará de explicar sua generalização quanto à natureza humana e do porquê da submissão de todos os intentos e desejos humanos à

mensuração monetária142. Desse modo, Marshall (1920) constrói uma teoria muito mais sólida

140 “The abuse of their new power by able but uncultured business men led to evils on every side; it unfitted

mothers for their duties, it weighed down children with overwork and disease; and in many places it degraded the race” (MARSHALL, 1920, p. 9).

141 No Livro III, quando aparecem a eficiência e o excedente do consumidor, a importância dessa meta-categoria

fica ainda mais clara.

142 “Everyone who is worth anything carries his higher nature with him into business; and there as elsewhere, he

is influenced by his personal affections, by his conceptions of duty and his reverence for high ideals. And it is true that the best energies of the ablest inventors and organizers of improved methods and appliances are stimulated by a noble emulation more than by any love of wealth for its own sake. But, for all that, the steadiest motive to ordinary business work is the desire for the pay which is the material reward of work. The pay may be on its way to be spent selfishly or unselfishly, for noble or base ends; and here the variety of human nature

que àquela de Smith (1996), pois mesmo que também atrelada a uma categoria metafísica, essa é melhor justificada, o que não, necessariamente, indica que a mesma é satisfatória. Uma premissa básica da justificação marshalliana da superioridade de um sistema baseado na “liberdade econômica” é a deliberação racional de todos os indivíduos que compõem esse sistema. E essa deliberação racional será defendida pelo autor da seguinte maneira:

For in this, as in every other respect, economics takes man just as he is in ordinary life: and in ordinary life people do not weigh beforehand the results of every action, whether the impulses to it come from their higher nature or their lower.

Now the side of life with which economics is specially concerned is that in which man's conduct is most deliberate, and in which he most often reckons up the advantages and disadvantages of any particular action before he enters on it. And further it is that side of his life in which, when he does follow habit and custom, and proceeds for the moment without calculation, the habits and customs themselves are most nearly sure to have arisen from a close and careful watching the advantages and disadvantages of different courses of conduct (MARSHALL, 1920, p. 17).

Isto é, o autor definirá, mesmo que com uma ressalva inicial, que toda a ação humana é, direta ou indiretamente, tomada a partir de uma deliberação racional. É importante lembrar que, no prefácio à primeira edição, o autor define seu livro baseado no Princípio da Continuidade, e esse é utilizado pelo mesmo para estender a racionalidade dos homens de negócios, que

supostamente deliberariam a partir de cálculos cuidadosos, para o homem comum143, que

mesmo sem a mesma capacidade intelectual, em certa medida, agiria da mesma forma. Essa continuidade será aplicada novamente, pois agora, assim como o homem de negócios visa uma compensação monetária por sua decisão, a finalidade das ações do homem comum poderá ser, também, resumida à unidade monetária. Não que Marshall (1920) defenda que o

fim da ação humana seja o dinheiro, mas como é esse o meio para o fim desejado144, é em

unidades monetárias que devem ser medidos os desejos e as escolhas individuais.

Marshall define os axiomas de sua teoria como se segue: i) a similaridade no processo de tomada de decisão dos diferentes indivíduos; ii) a “liberdade econômica” como base da sociedade ocidental moderna; e iii) a não distinção entre terra, trabalho e capital, resumindo as

comes into play. But the motive is supplied by a definite amount of money : and it is this definite and exact money measurement of the steadiest motives in business life, which has enabled economics far to outrun every other branch of the study of man” (Ibid., p. 12). “For instance the pleasures which two persons derive from smoking cannot be directly compared : nor can even those which

the same person derives from it at different times. But if we find a man in doubt whether to spend a few pence on a cigar, or a cup of tea, or on riding home instead of walking home, then we may follow ordinary usage, and say that he expects from them equal pleasures” (Ibid., p. 13).

143 “They [the modern economists] deal with man as he is : but being concerned chiefly with those aspects of life

in which the action of motive is so regular that it can be predicted, and the estimate of the motor-forces can be verified by results, they have established their work on a scientific basis” (MARSHALL, 1920, p. 22)

144 “In short, money is general purchasing power, and is sought as a means to all kinds of ends, high as well as

low, spiritual as well as material” (MARSHALL, 1920, p. 18). The “attractive force [of an occupation] can be estimated and measured by the money wages to which they are regarded as equivalent” (Ibid., p. 19).

três categorias a custos de produção. Isto posto, tratará das leis econômicas no terceiro capítulo do primeiro livro. Em primeiro lugar, o autor explica que aquilo que é nomeado lei econômica é, na verdade, sempre a constatação de uma tendência. E, determinada causa

resultará em determinado efeito caso outros fenômenos não ocorram para evitá-lo145. Cabe

lembrar que Marx (1986), quando da definição da lei tendencial da queda da taxa de lucro, já apresenta alguns dos fatores contratendentes, diferentemente a Ricardo (1982), que define uma lei tendencial sem oferecer, ou mesmo vislumbrar, possíveis fatores contratendentes. Pela característica distinta da ciência econômica em relação às ciências naturais, Marshall (1920) ressaltará que não se pode comparar a precisão das leis econômicas com, por exemplo, a precisão da lei da gravidade.

The term "law" means then nothing more than a general proposition or statement of tendencies, more or less certain, more or less definite. […] Economic laws, or statements of economic tendencies, are those social laws which relate to branches of conduct in which the strength of the motives chiefly concerned can be measured by a money price. (MARSHALL, 1920, p. 27)

Ficam, portanto, claros dois pontos acerca da construção teórica marshalliana: a) a unidade