2 DESCONSTRUÇÃO DO SIGNO LINGUÍSTICO E ABERTURA AO PENSAMENTO
3.3 A carta/letra em O seminário sobre “A carta roubada”
3.3.4 A letra e a materialidade do significante
Lacan (1957/1998a) inicia O seminário sobre “A Carta Roubada” apontando a determinação significante e sua materialidade no inconsciente como o conteúdo a ser ilustrado nesse texto. Essa ilustração, no entanto parte menos do conteúdo da carta em questão, que não é revelado no conto e muito mais da circulação da materialidade da carta. Essa escolha demonstra as alterações feitas por Lacan na apropriação do signo saussuriano e especialmente no significante.
Seguindo a elucidação de Aires (2005), a preeminência do significante sobre o significado se faz presente no significante lacaniano. Enquanto o traço que separa os dois elementos em Saussure é apenas uma linha, em Lacan esse traço se faz barra separando esses elementos, permitindo-os circular de modo autônomo. Não sendo a barra intransponível, como mostra Aires (2005), a vinculação entre significante e significado e a organização da cadeia significante se dá de acordo com a contextualização e circunscrição da significação.
Tomando então o conteúdo velado da carta como significado e a materialidade de la lettre, da carta/letra como o significante, seguimos também o argumento de Aires (2005) de que nesse momento do ensino lacaniano o significante e a letra se encontram indistintos
equivalendo-se explicitamente em muitos momentos. Assim, a materialidade do significante é nesse contexto, o modo de aparição da letra em Lacan12.
A maneira como os sujeitos, as posições e os olhares se deslocam nas relações intersubjetivas do conto é colocado por Lacan (1957/1998a) de modo análogo ao deslocamento da cadeia significante, demonstrando o automatismo de repetição em questão. Assim, como fica claro na afirmação lacaniana, esse deslocamento “é determinado pelo lugar que vem a ocupar em seu trio esse significante puro que é a carta roubada” (Lacan, 1957/1998a, p. 18).
A despeito da busca e da não captura da carta no conto, já mencionadas anteriormente, Lacan (1957/1998a) afirma que a carta mantém relações singulares com o lugar, sendo essas mesmas relações singulares as que o significante mantém com o lugar. Aqui o autor localiza a impossível partição da carta/letra como uma dessas relações singulares da materialidade significante com o lugar:
essa materialidade é singular em muitos pontos, o primeiros dos quais é não suportar ser partida. Piquem uma carta/letra em pedacinhos, e ela continuará a ser a carta/letra que é, e num sentido muito diferente daquele de que a Gestalttheorie pode dar conta, com o vitalismo insidioso de sua noção de todo (p. 26).
Sobre essa materialidade, M. M. R. Vieira (1998) elucida que não se trata da materialidade empírica do significante sensível, já que “para Lacan os rasgões não destroem a significação, mas permitem lê-la” (p. 42). A possibilidade de leitura a partir do rasgo ou da destruição remonta a operação de Lacan com o significante que, separado do significado pela barra, abre o caminho para a leitura da mensagem que cada um desses pedaços veicula.
Tal materialidade que não é empírica ou sensível pode ser vislumbrada na observação de Lacan (1957/1998a) a respeito da mensagem que chega à destinatária, a Rainha, a despeito da partida do bilhete original ter sido substituído por um pedaço de papel insignificante. Desse modo, a materialidade do significante pode ser aportado mais na recepção da mensagem circulada pelo significante, no material significante a ser lido, do que nas propriedades sensíveis da carta, nos destinos empíricos da materialidade sensível.
Assim, a função significante se aproxima da observação de que “a mobilização do belo mundo cujos passatempos acompanhamos aqui não teria sentido, se a carta, por sua vez, se
12 Esse ponto – como outros trabalhados em O seminário sobre “A Carta Roubada”– também é claramente explicitado em A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud, onde Lacan (1957/1998b) associa o significante à letra pensando suas articulações com o inconsciente e o sujeito. Reservamo-nos a indicar esse texto apenas marginalmente acompanhando o movimento de Derrida apresentado no capítulo anterior e explorando a importância que a literatura, aqui com Poe, tem para esse trabalho.
contentasse em ter um” (Lacan, 1957/1998a, p. 29). O significante se encarrega unicamente da veiculação, da circulação da mensagem que é a carta roubada. Mensagem que não tem um sentido, mas tantos sentidos quanto destinos forem atravessados por seu trajeto.
Como Lacan (1957/1998a) afirma, no conto de Poe poderíamos supor sentidos diferentes da carta para a Rainha e para o ministro, por exemplo. Essa significação alternante não alteraria a sucessão dos acontecimentos para o autor, o que não quer dizer de onde a carta poderia chegar ou estar, mas do fato estrutural que é sua circulação, independente de seu significado. Sendo “carta de amor ou carta de conspiração, carta de delação ou carta de instrução, carta de intimação ou carta de desolação” (Lacan, 1957/1998a, p. 31), no conto o que se retém é o fato da Rainha encobrir a carta, circulando então o apagamento de seu conteúdo e o deslizamento da enormidade de sentidos possíveis.
A singularidade das relações da carta/letra com o lugar é ainda referida como o próprio sujeito do conto, explicitando ainda mais a equivalência entre significante e carta/letra:
a singularidade da carta/letra, que, como indica o título, é o verdadeiro sujeito do conto: é por poder sofrer um desvio que ela tem um trajeto que lhe é próprio. Traço onde se afirma, aqui, sua incidência de significante. Pois aprendemos a conceber que o significante só se sustenta num deslocamento comparável ao de nossas faixas de letreiros luminosos ou das memórias giratórias de nossas máquinas-de-pensar-como- os-homens, e isso, em razão de seu funcionamento alternante por princípio, que exige que ele deixe seu lugar, nem que seja para retornar a este circularmente (Lacan, 1957/1998a, p. 33, grifos do autor).
Retomando a crítica de Derrida (1975/2007) do capítulo anterior, para o filósofo a materialidade e a impossível partição da carta/letra e do significante são apoiadas numa idealidade que se constrói a partir da preservação do conteúdo ideal dessa carta/letra, nunca dado aos personagens e aos leitores. Se por um lado acompanhamos Derrida (1975/2007) na afirmação dessa idealidade que preserva a integralidade e garante seu destino, pontos discutidos no último tópico do capítulo anterior, por outro lado, essa mesma materialidade do significante na cadeia, autonomizado do significado a partir da alteração lacaniana no algoritmo saussuriano, permite a circulação dessa carta expondo-a a destinos e desvios de acordo com o que a incidência significante terá para cada leitor.
Como afirma Lacan (1957/1998a):
Se o que Freud descobriu, e redescobre com um gume cada vez mais afiado, tem algum sentido, é que o deslocamento do significante determina os sujeitos em seus atos, seu destino, suas recusas, suas cegueiras, seu sucesso e sorte, não obstante seus dons inatos e sua posição social, sem levar em conta o caráter ou o sexo, e que por
bem ou por mal seguirá o rumo do significante, como armas e bagagens, tudo aquilo que é da ordem do dado psicológico. (pp. 33-34).
A razão, portanto, do uso de Lacan do significante se afirma, na herança e na redescoberta do texto freudiano, seguindo a determinação que a linguagem opera nos sujeitos. Se o material clínico que os pacientes apresentam tem preeminência nas sessões analíticas, a teoria não poderia se esquivar dessa determinação. É a partir das falas e do que elas carregam, ocupando e desocupando as palavras, circulando entre os significados, que os sujeitos se afetam a partir da equivocidade e da ambiguidade da linguagem. Essa é uma importante marca da perspectiva lacaniana na abordagem da linguagem.
Ao significante nos moldes de como Lacan o concebeu cumpre ser essa ligação entre o que se articula no nível da fala e o que se escreve no inconsciente, que por sua vez tem como seu efeito “que o homem seja habitado pelo significante” (Lacan, 1957/1998a, p. 39).