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A liberdade da filosofia e a liberdade da política

Começou-se o capítulo primeiro desta exposição, dedicado a “Dois conceitos de liberdade” de Isaiah Berlin, reproduzindo as perguntas com que esse autor formulava o conflito entre a concepção negativa e a noção positiva da liberdade. Para introduzir a reflexão arendtiana acerca da liberdade política e da liberdade filosófica, e seus derivados, inicia-se este segundo capítulo da mesma forma. Hannah Arendt quer responder às seguintes perguntas: A liberdade é uma propriedade do indivíduo isolado ou significa uma realização coletiva de agentes que interagem e se expressam? Deve-se analisá-la como um atributo individual ou colocá-la entre atores implicados num destino comum? No artigo “Que é liberdade”, da coletânea Entre o passado e o futuro, e também pode-se dizer que em toda a sua obra como um motto geral, Arendt faz uma decidida defesa da segunda parte da questão. A liberdade arendtiana é uma liberdade política como prerrogativa para a ação e para o exercício da cidadania. Apenas em um segundo plano reside a liberdade filosófica, definida como atributo do pensamento ou da vontade, fundamentalmente porque “parece seguro afirmar que o homem nada saberia da liberdade interior se não tivesse antes experimentado a condição de estar livre como uma realidade mundanamente tangível” (ARENDT, 2007a, p. 194).

A autora assegura que os gregos não tinham uma palavra que designasse a “fonte principal da ação”. Aristóteles estabeleceu o termo proairesis, isto é, escolha entre duas alternativas ou a preferência que leva a escolher uma ação ao invés de outra. Para Arendt, porém, isso não é mais do que uma aproximação. Já Gilson, lembra a autora, escreveu que “Aristóteles não fala de liberdade nem de vontade livre [...] o próprio termo falta” (GILSON, 1940, p. 307, apud ARENDT 2009a, p. 276). Segundo Arendt (2007a, p. 191), a tradição filosófica do Ocidente fundou-se explicitamente em contraposição à polis e, dessa forma, mostrou-se indiferente, quando não hostil, à liberdade do espaço público, isto é, da política:

A tradição filosófica, [...] distorceu, em vez de esclarecer, a própria ideia de liberdade, tal como ela é dada na experiência humana, ao transpô-la de seu campo original, o âmbito da Política e dos problemas humanos em geral, para um domínio interno, a vontade, onde ela seria aberta à autoinspeção.

Essa liberdade interna ou da vontade, que é o que Arendt chama de “liberdade filosófica”, é relevante, segundo a autora, somente para as pessoas que vivem como indivíduos solitários, fora das comunidades políticas. Em compensação, a liberdade externa, denominada por Arendt de “liberdade política”, somente pode manifestar-se em comunidades “onde o relacionamento dos muitos que vivem juntos é, tanto no falar como no agir, regulado por um grande número de rapports [relações] – leis, costumes, hábitos e similares” (ARENDT, 2009a, p. 468-469). Nessa perspectiva, a liberdade política é uma qualidade do cidadão – não do homem em geral – que a autora caracteriza com a expressão “eu-posso”. Por sua vez, Arendt faz corresponder a liberdade filosófica com a forma “eu-quero”23

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A noção estoica da liberdade exemplifica, segundo a pensadora, o fenômeno da alienação do mundo, que consiste na convicção da inutilidade dos atos dos indivíduos para influir no desenvolvimento dos assuntos humanos e, em contrapartida, na experiência do mundo como algo alheio que não se pode sentir como próprio e ao qual não se pertence. Segundo Arendt, Epicteto é o filósofo estoico que melhor exemplifica a convicção da superioridade da liberdade interna. Para ele, “a ‘ciência do viver’ consiste em saber como distinguir entre o mundo estranho sobre o qual o homem não possui poder e o eu do qual ele pode dispor como achar melhor” (ARENDT, 2007a, p. 193). Cabe lembrar que o contexto político no qual se inserem as reflexões de Epicteto é o da escravidão durante o declínio do Império Romano. Decorrente desse ponto de vista, há o divórcio entre a política e a liberdade, e a contradição de se achar um escravo na Terra sentindo-se, ao mesmo tempo, livre. É o que Berlin rotularia como uma retirada à “cidadela interior” (cf. BERLIN, 2002, p. 240-245).

Posteriormente, o Cristianismo subordinou a liberdade política à busca da salvação das almas individuais, salvação que só seria possível em outro mundo. Porém, essa liberdade cristã que, dito seja en passant, é mais uma libertação do que uma liberdade, tem o seu precedente na atitude dos filósofos frente à política, tratada como um passo prévio para a

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A autora informa que, do seu conhecimento, somente Montesquieu referiu-se, sem insistência, à dicotomia entre a liberdade filosófica e a liberdade política. Para Montesquieu (no Esprit des lois, livro XII, cap. 2), “a liberdade filosófica consiste no exercício da vontade, ou, pelo menos (se temos de levar em conta todos os sistemas), na opinião de que exercemos nossa vontade. A liberdade política consiste na segurança, ou pelo menos na opinião de que se tem segurança” (ARENDT, 2009a, p. 467).

instalação num patamar que eles consideraram mais elevado e mais livre, a vita contemplativa24.

Arendt, por seu turno, coloca-se sob a perspectiva da vita activa, que define a liberdade como uma construção coletiva de pessoas engajadas politicamente, esforçando-se para a consecução de objetivos compartilhados. E por isso a autora (2007a, p. 192) afirma que a liberdade é a “razão de ser” da política:

A liberdade, que só raramente – em épocas de crise ou de revolução – se torna o alvo direto da ação política, é na verdade o motivo por que os homens convivem politicamente organizados. Sem ela, a vida política como tal seria destituída de significado. A raison d’être da política é a liberdade, e seu domínio de experiência é a ação.

Para Arendt, a política não é unicamente um meio para conseguir a liberdade. Isso seria como fazer da liberdade um resultado exterior da política. No entanto, para a pensadora a liberdade é algo não somente intrínseco à própria atividade política como anterior a ela, posto que mesmo os que aprovam e enaltecem a tirania precisam levá-la em conta.