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A liberdade de imprensa e o direito à imagem

É atual, pois, das discussões em seminários ou mesmo em lides judiciais, vem à tona a suposta contradição da Constituição da República Federativa do Brasil, quando assegura a liberdade de expressão e, ao mesmo tempo, garante e realçam os direitos da personalidade, como à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem das pessoas.

A liberdade de informação é tratada no § 1º, do art. 220 da CR: “Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º IV, V, X, XIII e XIV”. Tendo o § 2º do mesmo art. 220, da CR, arrematado: “É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”.50

Verifica-se de plano que o próprio dispositivo constitucional traz, em si, o imperioso limite, de forma a oferecer contornos à liberdade, para que não se exacerbe, e sob o pretexto de informar, termine o profissional da comunicação ofendendo intimidade, vida privada, honra e ou imagem das pessoas. Pois, caso tal aconteça, o profissional e seu órgão de comunicação, deverão ser responsabilizados.

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Caso é, de se evidenciar que liberdade não pode ser confundida ou mesmo travestida de libertinagem. Valendo buscar apoio em Paulo de Tarso, quando ao

escrever aos Coríntios, dizia: “Tudo posso, mas nem tudo me convém”. (I Cor. 10:23).51

Claro, a liberdade de informação deve ser resguardada e protegida. Porém, dada a sua importância para a manutenção do Estado Democrático de Direito e para o fluir da vida em sociedade, por óbvio, não pode ser exercitada sem limites. Aliás, impunidade e irresponsabilidade devem passar muito distante da atuação do profissional da imprensa. Tal profissional deve, obrigatoriamente, esgueirar-se pelo estreito e virtuoso caminho da ética. Deve ostentar em cada ato postulados da deontologia jornalística.

Cheira a despudorado cinismo, falar em “censura judicial”, quando se busca no Poder Judiciário, o necessário resguardo, sobretudo a direitos da personalidade, atingidos por afoitos órgãos de comunicação.

Ora, num Estado reputado Democrático de Direito, como anunciado no art. 1º da Constituição da República, a ninguém cabe querer chamar para si e ostentar o dom de se postar acima do bem e do mal. Em outras palavras, ninguém pode ficar e recair na esfera da irresponsabilidade, ficando impune, quanto a seus atos e palavras. Isto seria desmesurado privilégio, o qual não pode conviver e sobreviver em meio democrático.

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Portanto, no afã de exercitar o direito de bem informar, caso o profissional ou órgão de comunicação não o fez, na verdade, divulgou informação sem averiguar a sua exatidão, ou mesmo não sendo falsa, porém, apresentou distorções, por certo, que a lógica indica ser o caso de quem foi ofendido, acionar judicialmente ao faltoso, visando sua responsabilização. E isto nem de longe é “censura judicial”. É com certeza, o exercício livre, soberano e autônomo de seus direitos. Afinal, a própria Constituição da República dispõe, no seu art. 5º, inc. XXXV: “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direitos”.52

Em importante seminário Imprensa e Dano Moral – Responsabilidade Civil e Penal, com promoção, em Brasília - DF, pela Associação Nacional dos Jornais (ANJ) e pela Escola da Magistratura do Distrito Federal, o ministro Marco Aurélio de Mello, na época, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), e presidente da República interino, disse: “Não raramente alguns jornais, ao divulgarem a denúncia alheia, acusam sem apurar, sem ouvir a outra parte. Colocam o réu sem defesa na prisão da opinião pública. Enfim, condenam sem julgar”.53

Agora, seria correto, democrático ou mesmo humano, deixar sem correção tão profunda distorção da liberdade de imprensa? E que “poder” seria este de dizer as coisas e não ser responsabilizado pelos seus atos e palavras? Por certo que a impunidade é que seria um inominável contra-senso. Como se vê, inexiste a tal aparente contradição entre liberdade de expressão e resguardo a direitos da personalidade. O que se firma é a convicção de agir no limite do respeito. Caso opere-se transgressão, caberá ao Poder Judiciário, uma vez acionado, responder se

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52 BRASIL. Constituição, op. cit., p. 17.

53 MELLO, Marco Aurélio de. Imprensa e dano moral: responsabilidade civil e penal. In: Palestra

de fato houve ofensa a direito e estabelecer o valor e a forma de reparação. Nada mais justo e democrático. Quem tenta fugir, driblar tal lógica, está mal informado ou mal intencionado, ou pior, poderá estar acometido do ranço ditatorial, querendo que as pessoas, instituições e até que o Poder Judiciário dobre-se, diante de suas pretensões.

Está passando da hora de se investir na conscientização ética e deontológica, do que verdadeiramente seja interesse público e interesse do público.

Interesse público é quando ocorrem fatos, os quais, necessariamente devem ser divulgados, até mesmo no resguardo do direito à informação, o qual a todos pertence. Um exemplo que tornou, tristemente clássico, é o caso do ex-Juiz do Trabalho Nicolau dos Santos Neto. Por certo, como autoridade, investido em cargo público, fica Nicolau exposto e sujeito a qualquer momento ter que prestar contas de seus atos em público. Cabendo aos órgãos informadores se aterem dentro da veracidade do acontecido.

Interesse do Público é o quase mórbido e insaciável desejo das massas em saber fatos que estão acontecendo com a vida dos outros, quase sempre, artistas, políticos ou esportistas famosos que, agora, perdem o direito à intimidade por inteiro. Olha lá quando não sofrem profundas lesões em suas imagens ou até mesmo em seus direitos à honra. Tudo isso pelo descabido propósito de se manter alguns pontos, no Ibope, acima do veículo concorrente. É o que se verificou, não faz muito tempo, com a atriz Vera Fischer, tendo sua imagem e vida privada devassada, por situações de sua intimidade, quando não deveria ser importunada.

O que dizer das famigeradas CPI’s, nas quais desavergonhados deputados e senadores, tanto no âmbito federal como estadual, ofendem os princípios mais comezinhos de dignidade e de justiça, muitas das vezes ladeados por membros do Ministério Público, tais quais, papagaios de pirata, todos alquebrados e envoltos pela síndrome da LPM (loucos por mídia), como dizem os americanos?

Qual nada. Interesse público ou interesse do público. Fazem transparecer frustrações, ódios e vinganças pessoais. E amparados por uma mídia encabrestada no poderio econômico e político, sanguinolenta, sensacionalista e descompromissada com a verdade. Alimentam-se do vitupério e da desonra, conspurcando, sem dó e sem piedade, a dignidade humana (CR, art. 5º, inc. III), de roldão, arrasam os direitos da personalidade, sobretudo os previstos nos incs. V e X, do art. 5º da CR.

Só o Poder Judiciário salvou-se dessa sanha assassina da honra, da imagem e da dignidade alheia, pois, quando não foi vítima, por alguns de seus membros, injustamente trazidos a público por fatos dos quais não participaram. Foi o único Poder da República Federativa do Brasil que não se intimidou, não se acovardou e fez arquivar, sem instaurar sindicâncias ou processos, esses “trabalhos de CPI’s”, realizados no lodaçal da imundícia, da corrupção e, de outras mazelas piores, tudo a revelar como anda sem caráter o ser humano. Noutros momentos, o Poder Judiciário, presidiu, instruiu e julgou, absolvendo ou condenando, tendo respaldo dentro da ciência, decência e da consciência ética e deontológica, a qual transparece e emana de suas decisões; não se deixou influenciar, nem tampouco, deixou ruir a pilastra mestra, na qual mantém de pé o Estado Democrático de Direito.

Com certeza, nunca se ouviu falar de qualquer órgão de comunicação no Brasil e no mundo, ter sofrido condenação por ter divulgado a verdade. De forma que, cabe ao Estado-Juiz determinar o valor a ser pago numa ação indenizatória, pelos abusos cometidos pela imprensa em meios de comunicação em geral.

Oportunamente, ver-se-á que, caso o direito à imagem for ofendido, ficará facilitada a sua reparação. Sendo desnecessária qualquer demonstração além da própria violação de tal direito.