Clifton Morais Correia
2. A LIBERDADE DE IMPRENSA E O PODER DA MÍDIA
A liberdade de imprensa, como princípio se encontra no art. 5º da Carta Política atual, onde tem relação direta com a liberdade de informações, de pensamento e de expressão. Com base nisso, é possível admitir a inclusão da atividade jornalística no rol dos direitos e garantias fundamentais (OLIVEIRA, 2014).
Frente a isso, “ao utilizar-se da liberdade de imprensa, usa-se das prerrogativas e garantias conferidas à liberdade de pensamento e concomitantemente ao direito à informação” (SILVA, 2003, p. 246). No cenário atual, a imprensa possui enorme relevância para a sociedade, principalmente porque mostra a realidade que circula nas esferas públicas, das instituições sociais e na comunidade em geral.
A liberdade de imprensa, que é disciplinada na legislação pátria, tem por “objetivo proibir que o Estado cerceie ou dificulte a circulação e o acesso às informações, assim como para que este não venha a intervir na liberdade destas informações” (OLIVEIRA, 2014, p. 05).
Ainda sobre a sua finalidade, expõe-se:
Cumpre observar que o direito de informar, ou ainda, a liberdade de imprensa leva à possibilidade de noticiar fatos, que devem ser narrados de maneira imparcial. A notícia deve corresponder aos fatos, de forma exata e factível para que seja verdadeira, sem a intenção de formar nesse receptor uma opinião errônea de determinado fato. O compromisso com a verdade dos fatos que a mídia deve ter vincula-se com a exigência de uma informação completa, para que se evitem conclusões precipitadas e distorcidas acerca de determinado acontecimento (PRATES; FELIPIM, 2008, P. 34).
Nesse mesmo caminho, Silva (2003, p. 246) acrescenta que “a liberdade do dono da empresa jornalística ou o jornalista é reflexa no sentido de que ela só existe e se justifica na proporção do direito dos indivíduos a uma informação imparcial e correta”.
Ancorado a isso, é importante ressaltar que a liberdade de imprensa não é ilimitada. Por haver muitas críticas ao seu mecanismo de execução é que a liberdade de imprensa não pode se opor a outros direitos individuais e coletivos tutelados pela Carta Magna. Valverde, (2014, p. 11) afirma que a “informação é essencial, mas não deve deixar escoar seu direito fundamental, nem fugir ao seu objetivo que é o de proporcionar ao público informações verdadeira, diante de situações em que se é possível formar uma opinião”.
Em conformidade com o supracitado, Branco (2011, p. 298) explica que a liberdade de imprensa não é “assegurada de forma absoluta, como todo e qualquer direito fundamental, tem sua aplicabilidade de forma relativa, quando colidido com outros direitos fundamentais, sofrendo assim, algumas limitações”.
As restrições são limitadas à imagem, à intimidade, à honra, à reputação, à vida privada e em outra escala aos princípios da presunção da inocência e da dignidade da pessoa humana, que é o princípio basilar de toda e qualquer norma jurídica brasileira. Nesse sentido:
[...] a liberdade de imprensa é um valor de hierarquia constitucional, que não pode ser conspurcado com restrições como a censura prévia. Mas não pode ser esquecido que, ao lado ou em posição da liberdade de imprensa, existem outros valores de igual nobreza constitucional que são intimidade, a imagem, a honra, o devido processo legal e a presunção de inocência (TUCCI, 1999, P. 114).
Dentro do direito de liberdade de imprensa existe a “mídia”. Em um conceito abstrato mídia se refere aos chamados meios de comunicação em massa difusores de informações. De acordo com Lima (2004, p. 50) quando se fala em mídia, refere-se “ao conjunto das emissoras de rádio e televisão (aberta ou paga), de jornais e de revistas, do cinema e das outras diversas situações que utilizam recursos tecnológicos na chamada comunicação de massa”.
No cenário atual, a mídia ganhou força e influência que não deve ser descartada. Como influência designa-se “o processo pelo qual o indivíduo modifica a sua própria representação da realidade social a partir do que é apresentado pelos e nos meios de comunicação” (TEIXEIRA, 2011, p. 56). Essa influência é cada vez mais presente na sociedade moderna, uma vez que houve uma proliferação de veículos midiáticos (internet, por exemplo) que acabam chegando aos indivíduos a todo minuto e de maneira constante.
Com isso, “a sociedade é influenciada pelo que vê e ouve através da mídia, formando, assim, a chamada opinião pública” (MENDONÇA, 2013, P. 372). Sobre a opinião pública, entende-se como “o juízo coletivo adotado e exteriorizado no mesmo direcionamento por um grupo de pessoas com expressiva representatividade popular sobre algo de interesse geral” (NERY, 2010, P. 08). Com essa definição pode-se entender que os veículos midiáticos são capazes de formar e transformar a consciência pública.
Alguns autores afirmam que a opinião pública em muitos casos não coincide com a verdade, já que é mera opinião. Nessa defesa, expõe-se a seguinte observação:
Nesse contexto, pode-se afirmar que a opinião pública, considerada como o amálgama de ideias e valores que externam o modo de pensar de determinados grupos sociais acerca de assuntos específicos, é edificada sobre o tripé sujeito- experiência-intelecto. Com a difusão da
comunicação de massa, foi acrescida a esse contexto a informação mediatizada, que, conjugada ao analfabetismo funcional que assola a população brasileira, passou a ditar unilateralmente o quadro fático-valorativo a ser absorvido pela massa populacional (CÂMARA, 2012, P. 268).
Seja qual for a explicação para o crescimento da mídia, o fato é que ela hoje desempenha um importante papel informativo e social, influenciando diretamente a opinião ou formação de uma opinião de qualquer indivíduo, alfabetizado ou não.
Menciona Mendonça (2013, p. 373) que “muito se fala que a mídia seria o quarto poder. Não se mostra tão ousado assim afirmar, uma vez que as sociedades modernas de hoje são marcadas pela onipresença da mídia nos mais diversos setores”.
Para o sociólogo John B. Thompson (2005 apud GUARESCHI, 2007, p. 08) “vive-se atualmente uma sociedade midiada, na qual não há nada que não esteja profundamente relacionado com a mídia nem esteja intrinsecamente por ela influenciado, desde a economia até a religião, passando-se pela política e pelo direito”.
Dessa forma, a mídia atua como propagadora de tudo o que ocorre no mundo, em todas as áreas, informando e atualizando o ser humano sobre o que ocorre a sua volta e ajudando na convivência e comunicação nos ambientes em que frequentam. A mídia, que está ligada diretamente ao jornalismo, também influencia inclusive nos julgados do Tribunal do Júri, local onde são decididos os casos de crimes contra a vida.
Assim que esses crimes macabros ocorrem, a sociedade vai à busca de explicações e querem a todo custo que a “justiça seja feita”. Nesse momento emerge o poder e influência da mídia “que equivocadamente, acabam noticiando os fatos, e declarando informações muitas vezes
absurdas e que contrariam o Estado Democrático de Direito” GOUVEIA (2015, p. 02).
Além disso:
[...] a mídia se vale de técnicas de argumentação e retórica avançadas, para se aproximar ainda mais do seu público alvo. O modo como os jornalistas anunciam uma notícia, a entonação de voz, a moderação da fala. Tudo é minuciosamente trabalhado, para que chegue ao público final, e ganhe confiança do público alvo. É a euforia por ibope. Os meios de comunicação acabam “decodificando” o linguajar técnico jurídico, transformando-o em linguagem simples e de maior compreensão pela população (GOUVEIA, 2015, p. 02).
Dessa forma, “a mídia acaba agindo como se juiz togado fosse, proferindo veredictos, julgamentos e condenações antecipadas contra suspeitos e acusados que ainda não passaram por investigação e sequer foram condenados” (ZOCANTE; REIS JÚNIOR, 2010, p. 18).
No caso específico do Tribunal do Júri, essa influência é ainda mais importante, uma vez que trata sobre o futuro de um ser humano. Nos dizeres de (Prates; Tavares, 2008, p. 38) “crimes dolosos contra a vida, via de regra têm atraído o sensacionalismo da mídia, induzindo muitas vezes o Conselho de Sentença a fazer valer a opinião pública em detrimento de sua livre convicção”.
De acordo com Raquel Werneck P. Valverde, em seu entendimento:
Como o tribunal do júri trata justamente sobre crimes dolosos, que tem grande repercussão, traz justamente o sentimentalismo da sociedade, a revolta e opiniões sobre tudo o que acontece no mundo do crime. Muitas vezes a mídia condena sem ter a certeza, com apenas especulações de que realmente é verdadeiro tal fato que está sendo noticiado, mas
não imagina a influencia que pode ter sobre os pensamentos das pessoas, que deveriam julgar apenas baseado em fatos reais, narrados no decorrer do processo e não em apenas especulações já preconcebidas antes mesmo do julgamento (VALVERDE, 2014, p. 12).
Castro (2014, p. 33) entende que “a mídia tira do acusado a oportunidade de exercer plenamente o seu direito de defesa, pois, diante da mídia, com suas notícias sensacionalistas, inútil é o discurso do advogado no plenário no intuito de convencer os jurados”.