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2 A MORALIDADE EM KANT

2.3 A LEI MORAL E A LIBERDADE

2.3.2 A liberdade

Que influência Rousseau conferiu a Kant no modo de fazer filosofia e que se relaciona ao vínculo entre a lei moral a e a liberdade? Para Rousseau, a renúncia da liberdade é a renúncia da qualidade de ser humano, com seus direitos e deveres (, ROUSSEAU, 2001, apud NODARI, 2009, p. 174). Ainda para Rousseau, os seres humanos devem à lei o desfrute que têm da justiça e da liberdade, o que revela que para Jean-Jacques Rousseau a lei não é inimiga da liberdade, antes dá liberdade e a garante (ROUSSEAU, 1962, apud NODARI, 2009, p. 174). Conforme Velkey, Rousseau influenciou bastante a Kant no que se refere à compreensão da lei

(VELKEY, 1989, apud NODARI, 2009, p. 175, nota 345). Kant dá à lei moral formal o nome de imperativo categórico e a razão tem o poder de obedecer tal lei, desde que ela tenha validade como a fórmula e a máxima da liberdade (NODARI, 2009, p. 175). Para Kant, a lei moral em sua propriedade incondicional (na Fundamentação) leva de maneira distinta ao conceito de liberdade (SILVEIRA, 2011, p. 108).

Qual seria a definição de liberdade no pensamento kantiano? Como Kant a concebe dentro da sua filosofia moral na Fundamentação e outras obras? Segundo Charles Taylor (1997, p. 115), em As fontes do self, Kant compartilha o pensamento moderno de que a liberdade é autodeterminação e que o homem estabelece pela própria vontade a lei moral, na condição em separado da natureza:

Não obstante, Kant compartilha a ênfase moderna na liberdade como autodeterminação. Ele insiste em ver a lei moral como emanando de nossa vontade. Nosso espanto diante dela reflete o estatuto de agir racional, seu autor e o ser que ela expressa. Os agentes racionais têm uma posição que ninguém mais desfruta no universo. Pairam acima do resto da criação. Tudo mais pode ter um preço, mas só eles têm “dignidade” (Würde) [...] Kant, insiste enfaticamente na afirmação de que nossas obrigações morais nada devem à natureza. Ele rejeita vigorosamente como irrelevantes todas as distinções qualitativas que definem o superior e o inferior na ordem do cosmo ou na natureza humana. Tomá-las como centrais para nossas concepções morais é cair na heteronomia.

Kant concebe a liberdade como elemento indispensável para a moralidade como concebida por ele, em que o homem é responsável pelos atos dele, que devem ser feitos por coação interna com base na lei moral, lei que procede da vontade humana. Liberdade, em um elementar conceito kantiano, é a propriedade da vontade ser lei para si mesma (FMC, Ak447, BA98, p. 100). Ela consiste em propriedade não só do homem, mas de todos seres racionais (FMC, Ak447-448, BA99-100, p. 101). A liberdade não tem como ser demonstrada ou provada, mas é pressuposta na filosofia kantiana (FMC, Ak449, BA103, p. 104), noção que viria mais tarde a ser rejeitada como demonstra o prefácio da segunda crítica (CRPr, A4, p. 12). A liberdade e a própria legislação da vontade são autonomia na visão kantiana (FMC, Ak450, BA104- 05, p. 105). Da ideia de liberdade se deduz a lei moral na Fundamentação (FMC, Ak453, BA109, p. 109), tese que viria a ser rejeitada mais tarde. A ideia de liberdade é fundamento para a ética do dever kantiana.

Os homens se concebem livres de acordo com a vontade (NODARI, 2009, p. 239). A ideia de liberdade é reputada como chave para o entendimento da autonomia da vontade (NODARI, 2009, p. 239), e isso se realiza porque, como destacou

justamente Taylor, a liberdade se relaciona como identificação com a autodeterminação. A liberdade não consiste em uma concepção da experiência, e, por decorrência, não pode como conceito ou definição ser verificada pela experiência (NODARI, 2009, p. 240). Se ela pudesse ser averiguada pela experiência ou pelo que é empírico, ela se encontraria em harmonia com as leis da natureza, da qual todo acontecimento posterior requer uma causa predecessora (NODARI, 2009, p. 240).

Assim, o conceito de liberdade seria aniquilado, pois haveria como que um determinismo por leis naturais, e assim não haveria espaço para uma escolha real entre opções, fundamento elementar da liberdade. Em Kant não se consegue entender como a liberdade é possível apesar do homem se encontrar sob a necessidade natural (NODARI, 2009, p. 240). Mas se admite a realidade da liberdade com base racional (NODARI, 2009, nota 490, p. 240). A distinção kantiana entre fenômeno e a coisa em si, torna compatível a coexistência entre natureza e liberdade (NODARI, 2009, p. 241). O centro de conflito da terceira antinomia se constitui em conhecer se, no mundo, tudo que ocorre é conforme as leis da natureza ou se é necessário aceitar uma causalidade por meio da liberdade, e a vereda da solução não consiste na exclusividade de uma dessas ideias, mas na inclusividade dessas noções que se dá na ideia de liberdade transcendental conforme a razão transcendental (NODARI, 2009, p. 117-120). Cabe salientar, que enquanto na Fundamentação da metafísica dos costumes, bem como na Crítica da razão prática, o conceito de liberdade é apresentado sob a forma de liberdade da vontade, na Crítica da razão pura, a liberdade é exposta em termos de livre-arbítrio (ALLISON, 1990, p. 31). Essa liberdade é indispensável para pensar a moralidade, particularmente em termos kantianos, a qual se vincula a ética do dever.

Cabe destacar que Rohden tem noções interessantes sobre a relação entre a lei moral e a liberdade. A lei moral é vista como uma maneira de uma causalidade intelectual, ou seja, da liberdade. O respeito pela lei moral se torna um tipo de causalidade. O respeito, “pela consciência da lei moral”, constitui-se na autoconsciência da liberdade. Consciência que se manifesta tanto negativamente enquanto consciência como “independência” humana “de determinações das inclinações”. Ele se revela positivamente enquanto consciência da “autonomia” humana como “razão universalmente autolegisladora”. A consciência moral não estabelece a lei, mas consiste em requisito para que possa aceitá-la como máxima (grifos nossos, ROHDEN, 1981, p. 81). A raiz tanto do dever quanto do valor que os

seres humanos se atribuem pelo cumprimento do dever está na liberdade. Ela se subordina às leis morais simultaneamente em que é sujeita dessas leis autônomas. O interesse pela liberdade por Kant explica o interesse kantiano pelo mundo inteligível, pois na sua perspectiva a liberdade tem dependência do mundo inteligível (ROHDEN, 1981, p. 82). O interesse humano pela liberdade é um “fato racional, universal e último”. Kant entende que a “Providência” dotou o homem de liberdade (ROHDEN, 1981, p. 83).

Ainda conforme Kant no prefácio da segunda crítica, o conceito de liberdade é demonstrado pela “lei apodíctica da razão prática” (CRPr, A4, p. 12). Esse conceito consiste na “pedra angular” do edifício de um sistema da razão pura, e ideias como “Deus” e “imortalidade”, em conexão como o conceito de liberdade, possuem a sua possiblidade provada devido ao fato da liberdade ser efetiva (grifo do autor, CRPr, A4- 5, p. 12). A liberdade consiste em condição para a lei moral, enquanto Deus e a imortalidade não conforme Kant, mas eles são objeto da vontade estabelecida pela lei moral a priori (CRPr, A5-6, p. 12). Pela razão não se pode conhecer nem cogitar sobre a possibilidade dessas ideias, mas pela mesma razão (na forma prática) elas também são essenciais como condições da aplicação da vontade moralmente dirigida ao seu objetivo, por conseguinte, elas devem ser admitidas na relação prática (CRPr, A6, p. 12). Pela razão especulativa não se pode conhecer tais ideias, mas pelo que é essencial em uma razão prática elas são pressupostas ao considerá-las como objeto da vontade. O conceito de liberdade torna tais ideias uma necessidade subjetiva (CRPr, A6, p. 13).

Se verificou a relação entre a liberdade e a lei moral. Também que a liberdade consiste em autodeterminação do sujeito e condição para a lei moral. Constatou-se ainda que o motivo da genuína ação moral está na própria lei moral, e consiste na obediência a mesma. Mas a noção de “motivo” tem sempre o mesmo significado na Fundamentação da metafísica dos costumes?