2. SENTENÇA E COISA JULGADA
2.3. Limites da coisa julgada
2.3.3. A lide no sistema processual brasileiro
Atribui-se a Carnelutti a tradicional definição de lide, entendida como “um conflito (intersubjetivo) de interesses qualificado por uma pretensão resistida (discutida)”197. A lide, portanto, nessa perspectiva, é a insatisfação de uma pretensão da parte, seja pela simples inércia da outra parte em atendê-la ou por sua efetiva resistência àquela pretensão, o que caracteriza o conflito de interesses, trazido à apreciação do Poder Judiciário por meio do processo.
Enquanto a lide carneluttiana é eminentemente sociológica, na medida em que parte do próprio conflito material exterior ao processo, a doutrina contemporânea procura separar as idéias de lide e conflito de interesses. Esse conflito, assim, fica reservado para o
195 BEDAQUE; José Roberto dos Santos; CRUZ E TUCCI, José Rogério. Causa de pedir e pedido no processo civil. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002, p. 24/25.
196 DINAMARCO, Cândido Rangel. O conceito de mérito..., op. cit., p. 185/186.
197 CANELUTTI, Francesco. Instituciones del Proceso Civil, vol. I. Buenos Aires: Ediciones Juridicas Europa-America, 1956, p. 28.
plano pré-processual, caracterizado pela resistência à pretensão material da parte, enquanto que a lide representa o conflito de interesses uma vez levado à apreciação do Poder Judiciário, com os contornos assumidos no processo, de acordo com os elementos apresentados pelas partes. Disso decorre que a coloração dada à lide não equivale necessariamente à apresentada pelo conflito de interesses, já que a lide será determinada pelos elementos que o autor trouxer ao processo, assim como por aquilo que for deduzido pelo réu em sua defesa, não englobando os fatos que, embora existentes no mundo exterior, não foram, por iniciativa do autor, deduzidos na relação processual. Isso ocorre porque “o conflito de interesses não entra para o processo tal como se manifestou na vida real, mas só indiretamente, na feição e configuração que lhe deu o autor em seu pedido”198.
Por diversas vezes o Código de Processo Civil brasileiro utiliza-se do termo lide, tendo Alfredo Buzaid, na exposição de motivos do Código de Processo Civil de 1973, ressaltado que o termo, quando utilizado, deve significar o mérito da causa e, consequentemente, o objeto do processo:
O projeto só usa a palavra lide para designar o mérito da causa. Lide é, consoante a lição de Carnelutti, o conflito de interesses qualificado pela pretensão de um dos litigantes e pela resistência do outro. O julgamento desse conflito de pretensões, mediante o qual o juiz, acolhendo ou rejeitando o pedido, dá razão a uma das partes e nega-a à outra, constitui uma sentença definitiva de mérito. A lide é, portanto, o objeto principal do processo e nela se exprimem as aspirações em conflito de ambos os litigantes199.
Alfredo Buzaid, assim, identifica a lide com o mérito da causa, o objeto do processo. Tal consideração, entretanto, pode conduzir a equívocos no plano prático, além de conflitar com o próprio sistema processual, uma vez que em casos como o de revelia e reconhecimento jurídico do pedido estar-se-ia admitindo a existência de processo sem objeto, já que, nesses casos, não há o estabelecimento de uma lide, justamente por não haver qualquer resistência à pretensão do autor. É isso o que afirma a doutrina majoritária, como é o caso de Cândido Rangel Dinamarco e Milton Paulo de Carvalho, que vêem na pretensão o objeto do processo, identificando-a com o mérito da causa. Para Dinamarco,
Fica portanto a certeza de que é a pretensão que consubstancia o mérito, de modo que prover sobre este significa ditar uma providência relativa à situação trazida de fora do processo e, assim, eliminar a situação tensa representada
198 LIEBMAN, Enrico Tullio. O despacho saneador e o julgamento do mérito, op. cit., p. 130.
199 BUZAID, Alfredo. Exposição de motivos do Código de Processo Civil, n. 6.
pela pretensão; eis o escopo social da jurisdição, cumprido mediante a eliminação das incertezas representadas pelas pretensões insatisfeitas200.
No mesmo sentido, Milton Paulo de Carvalho destaca:
Realizado o direito de agir, a demanda apresenta como que a matéria-prima do provimento jurisdicional, a ser elaborado no curso do processo. A pretensão nela deduzida não se altera com a defesa e constitui o meritum causae, sendo este, segundo entendemos, o objeto do processo201.
É na pretensão, portanto, que reside o objeto do processo. Essa pretensão é definida por Carnelutti como “exigência de subordinação de um interesse alheio ao interesse próprio [...] a pretensão é um ato, não um poder; algo que alguém faz, não que alguém tem;
uma manifestação, não uma superioridade da vontade”202.
O objeto do processo, todavia, não corresponde à pretensão em sentido material. Trata-se, na verdade, da pretensão processual, a pretensão à tutela jurisdicional, ao provimento a ser emitido pelo magistrado na solução do conflito de interesses levado à sua apreciação, aliada à pretensão ao bem jurídico pleiteado pelo autor. Milton Paulo de Carvalho, citando a opinião de José Alberto dos Reis, diferencia pretensão de pedido, afirmando ser a primeira integrante da relação substancial, e reservando o termo pedido para a pretensão da forma como apresentada no processo:
Em boa técnica jurídica, uma coisa é a pretensão do autor, outra o pedido.
Aquela é um elemento da relação jurídica substancial; este um elemento da relação jurídica processual. A pretensão exprime o direito que o autor se arroga contra o réu; o pedido traduz-se na providência que o autor solicita do tribunal. É claro que a pretensão repercute-se naturalmente no pedido; a espécie de providência que o autor vai pedir ao tribunal deve ser, logicamente, o reflexo da pretensão que se arroga contra o réu203.
O pedido caracteriza-se, assim, pela pretensão processual ou objeto do processo. Nada mais é do que o pedido de resolução judicial formulado perante o Judiciário, por meio da demanda. A pretensão material, de outro lado, é revelada no processo por meio do pedido mediato, e consiste no bem da vida a ser obtido com a solução positiva do conflito levado ao Judiciário. Esse bem da vida, embora com ela não se confunda, faz parte da pretensão processual, na medida em que, como ressalta Milton Paulo de Carvalho, “o
200 DINAMARCO, Cândido Rangel. O conceito de mérito..., op. cit., p. 203
201 CARVALHO, Milton Paulo de. O pedido..., op. cit., p. 52.
202 CARNELUTTI, Francesco. Instituciones...., op. cit., p. 31.
203 CARVALHO, Milton Paulo. O pedido..., op. cit., p. 76.
demandante não pode formular somente o pedido de provimento sem o efeito, sendo este, por sua vez, essencialmente compatível com o provimento, conforme derive da relação de direito material posta para deslinde”204. A questão não passou despercebida por Eduardo Talamini, que, afirmando ser “preferível adotar a categoria do ‘objeto do processo’”, destaca,
O objeto do processo (o seu “mérito”) é constituído pela pretensão processual.
Essa, por sua vez, não se confunde com a chamada pretensão de direito material (atinente à concreta exigibilidade de uma prestação de conduta). A pretensão processual se identifica pela consideração conjugada do mecanismo processual de tutela pretendido (a providência processual concreta) com a situação carente de tutela (a “situação trazida de fora do processo”)205.
Sob este aspecto, o pedido, enquanto pretensão processual, desdobra-se em pedido imediato, representado pela pretensão à tutela jurisdicional e revelado na petição inicial mediante o requerimento da tutela jurisdicional pretendida, e pedido mediato, consubstanciado no bem da vida pleiteado pelo autor. Ou seja, uma vez trazida ao processo, a pretensão material, assumindo os contornos traçados pelo autor em seu pedido, caracteriza-se como pretensão processual, que, por meio do pedido (mediato e imediato) formulado pelo autor e pela conduta assumida pelo réu no processo, traçará os contornos da lide. A pretensão material, assim, poderá não ser totalmente revelada no processo, de modo que o juiz apreciará unicamente o que estiver contido na pretensão processual do autor, sob pena de proferir sentença ultra ou extra petita, como já se ressaltou.
Objeto do processo, dessa forma, é a pretensão processual, caracterizada pelo pedido (mediato e imediato) trazido ao processo pelo autor através da propositura da demanda, instrumento do direito de ação. De acordo com José Carlos Barbosa Moreira,
“através da demanda, formula a parte um pedido, cujo teor determina o objeto do litígio e, consequentemente, o âmbito dentro do qual toca ao órgão judicial decidir a lide (art. 128)”206.
Sendo caracterizada pelo conflito de interesses colocado à apreciação do Poder Judiciário, integrado pela resistência do réu à pretensão processual do autor, a lide compõe-se, como decorre de sua própria definição, das partes, da pretensão, dos fundamentos que sustentam tal pretensão e da resistência do réu à pretensão do autor. Alterando-se qualquer desses elementos, portanto, altera-se a lide, o que gera efeitos na caracterização da coisa julgada, que tem seu alcance restrito às questões que compuseram a lide na qual foi produzida. Além disso, devido à necessária resistência do réu para que se caracterize a lide,
204 Ibid.
205 TALAMINI, Eduardo. Coisa julgada e sua revisão..., op. cit., p. 79.
206 MOREIRA, José Carlos Barbosa. O novo processo..., op. cit, p. 12.
seus elementos mostram-se mais amplos do que os elementos da demanda. A lide, portanto, assumirá os contornos do pedido, bem como dos elementos trazidos pelo réu ao processo.
Carnelutti especificava os elementos da lide nas partes, bem e interesses em oposição, prescindindo, pois, das razões jurídicas invocadas pelas partes para a proteção de seus respectivos interesses. Assim é que, para Carnelutti, a individualização da lide deve ser entendida “de acordo com os interesses em oposição, isolados das razões jurídicas que constituam o fundamento da pretensão”207. Contrapondo-se à teoria carneluttiana, Calamandrei defende que
se a lide é um conflito de interesses regulado pelo direito, parece que a proteção jurídica do interesse e, por conseguinte, a razão jurídica em virtude da qual a parte invoca esta proteção ou se opõe a ela deva ser, por definição, elemento indispensável para individualizar a lide208.
Trata-se, aqui, da causa de pedir. Com efeito, o pedido, embora tecnicamente caracterize o objeto do processo, não pode ser visto isoladamente, mas sim com os contornos que lhe atribuem os fatos e fundamentos jurídicos que o sustentam. Por isso é que, como destaca Eduardo Talamini,
A causa de pedir é elemento indispensável para que a pretensão seja adequadamente identificada, embora a causa de pedir, em si, não constitua o objeto do processo. Permita-se aqui uma comparação: a causa de pedir está para a pretensão assim como a vida de uma pessoa está para essa pessoa. Não se pode dizer que a vida de alguém seja alguém. Um aspecto é o ser, sua essência, seu espírito; o outro, sua experiência. No entanto, não há como tentar compreender o que alguém é ou foi senão compreendendo sua vida, o que fez, disse, pensou, deixou de fazer... Qualquer tentativa de compreensão que prescinda disso, será, quando muito, um simples retrato, um resumo de dados burocráticos (nome, endereço, documento de identificação, telefone...) ou coisa que o valha. Do mesmo modo, a tentativa da compreensão da pretensão processual sem a consideração da causa de pedir incidiria no mesmo defeito209.
Sobre a importância da causa de pedir na delimitação do pedido e, consequentemente, na delimitação do provimento jurisdicional, leciona Cândido Rangel Dinamarco:
207 apud CALAMANDREI, Piero. El concepto de litis en el pensamiento de Francesco Carnelutti, in Estudios sobre el proceso civil, traducicion de Santiago Sentis Melendo. Buenos Aires: Editorial Bibliografica Argentina, 1961, p. 288.
208 CALAMANDREI, Piero, El concepto..., op. cit., p. 288.
209 TALAMINI, Eduardo. Coisa julgada e sua revisão..., op. cit., p. 80.
Isoladamente, o objeto do processo não é suficiente para traçar os limites do provimento jurisdicional a proferir. A regra de correlação entre o provimento e a demanda exige que também sejam respeitados os limites da causa de pedir e da composição subjetiva desta (autor e réu). Essa observação, contudo, não leva a incluir a causa de pedir ou os sujeitos no conceito ou no âmbito do objeto do processo. Uma coisa é definir os lindes da sentença a proferir, que incluem os fundamentos suscetíveis de integrar a motivação da sentença; outra, saber qual a matéria que está sendo julgada, ou seja, qual a pretensão210.
O mesmo entendimento é apresentado por Teresa Arruda Alvim Wambier,
A ‘causae petendi’ tem a função de identificar o pedido, exatamente da mesma forma que os fundamentos do decisório delimitam o seu sentido. Assim, deve entender-se que a identidade entre objeto do pedido e objeto da sentença envolve também a identidade de causa de pedir (da petição inicial) e de fundamento (da sentença). Por isso é que se tem decidido que também será extra petita a sentença que aprecie e conceda o pedido, mas por outro fundamento que não a causa de pedir invocada pela parte211.
Objetivamente, portanto, pode-se dizer que a lide é determinada pelo pedido e pela causa de pedir. O pedido limita o próprio provimento jurisdicional final, sendo, todavia, qualificado e delimitado pela causa de pedir, ou seja, pelos seus fundamentos de fato e de direito.