1. A LINGUÍSTICA TEXTUAL
1.2 A LINGUÍSTICA TEXTUAL E O CONCEITO DE TEXTO
1.2 A LINGUÍSTICA TEXTUAL E O CONCEITO DE TEXTO
A Linguística Textual é uma orientação possível na análise de textos.
Esta vertente concentra suas atenções no processo comunicativo estabelecido entre o autor, o leitor e o texto em um determinado contexto. A interação entre eles é que define a textualidade de um texto.
O primeiro estudioso a usar essa nomenclatura “Linguística Textual” foi Cosériu (1955). A linguística a partir daí tinha como objeto de estudo o texto, não mais a frase, pois somente através deste se manifestaria a linguagem.
Na época do surgimento da Linguística Textual, o conceito de texto até então era majoritário, grande parte dos estudiosos se dedicavam à análise transfrástica, que já foi explicada no tópico anterior.
No início dos estudos da linguística textual, Marcuschi (1983 apud KOCH, 2010) definia-a provisoriamente como o estudo das operações linguísticas e cognitivas reguladoras e controladoras da produção, construção, funcionamento e recepção de textos escritos ou orais.
Em uma primeira fase dos estudos sobre textos, podemos afirmar que esta engloba os trabalhos dos períodos da “análise transfrástica e da “elaboração de gramáticas textuais” (conceitos já definidos anteriormente) acreditava-se que as propriedades definidoras de um texto estariam expressas principalmente na forma de organização do material linguístico. Em outras palavras, existiriam então textos (sequências linguísticas coerentes em si) e não-textos (sequências linguísticas
incoerentes em si). Segundo Koch (1997) nesta primeira fase, os conceitos de texto variaram desde “unidade linguística (do sistema) superior à frase” até “complexo de proposições semânticas”. A concepção que embasava todas essas definições era a de texto como uma estrutura acabada e pronta, como “produto de uma competência lingüística social e idealizada”.
Stammerjohann (1975, p. 490 apud FÁVERO e KOCH 2005) diz que o termo texto é o conceito central da Linguística Textual e da Teoria de Texto, abrangendo tanto textos orais quanto escritos que tenham como extensão mínima dois signos lingüísticos, um dos quais, porém, pode ser suprido pela situação, no caso de textos de uma só palavra, como “Socorro!” sendo sua extensão máxima indeterminada. De maneira geral, contudo, a linguística textual nesse momento trabalha com textos delimitados, cujo início e cujo final são determinados de um modo mais ou menos explícito. As demarcações mais evidentes são decorrentes de alterações na interação pragmática dos indivíduos que produzem ou recebem um texto. Um sermão, um diálogo, um livro constituem textos devidamente delimitados.
Partindo-se, pois, do pressuposto de que os limites pragmáticos podem ser estabelecidos de acordo com a situação de comunicação, os textos – no plural - podem ser considerados como dados primários da linguística (HARTMANN apud STEMPEL, 1971).
Para Schimidt (1973) apud Koch, (2005)
“texto é como todo componente verbalmente enunciado de um ato de comunicação pertinente a um jogo de atuação comunicativa, caracterizado por uma orientação temática e cumprindo uma função comunicativa identificável”.
Já para Motsch e Pasch (1987) apud KOCH, (2010) “texto é como uma sequência hierarquicamente organizada de atividades realizadas pelos interlocutores”.
Em um primeiro momento o texto foi concebido como:
a. Unidade linguística (do sistema) superior à frase;
b. Sucessão ou combinação de frases;
c. Cadeia de pronominalizações ininterruptas;
d. Cadeia de isotopias;
e. Complexo de proposições semânticas.
Já no interior de orientações de natureza pragmática, o texto passou a ser encarado:
a. pelas teorias acionais, como uma sequência de atos de fala;
b. pelas vertentes cognitivistas, como fenômeno primeiramente psíquico, resultado, portanto, de processos mentais;
c. pelas orientações que adotam por pressuposto a teoria da atividade verbal, como parte de atividades mais globais de comunicação, que vão muito além do texto em si, já que este constitui apenas uma fase desse processo global.
Nas palavras de Koch (2010), o texto deixa de ser entendido como uma estrutura acabada (produto), passando a ser abordado no seu próprio processo de planejamento, verbalização e construção.
O texto pode ser concebido como resultado parcial de nossa atividade comunicativa, que compreende processos, operações e estratégias que têm lugar na mente humana, e que são postos em ação em situações concretas de interação social. Defende-se, a posição de que:
a. A produção textual é uma atividade verbal, isto é, os falantes, ao produzirem um texto, estão praticando ações, atos da fala. Sempre que se interage por meio da língua, ocorre a produção de enunciados dotados de certa força, que irão produzir no interlocutor determinado(s) efeito(s), ainda que não sejam aqueles que o locutor tinha em mira. Dijk (1972 apud BENTES, 2001) afirma que, em um texto, apesar de se realizarem diversos tipos de atos (em uma carta, por exemplo, podem realizar-se atos de saudação, pergunta asserção, convite, entre outros), há sempre um objetivo principal a ser atingido, para o qual concorrem todos os demais.
Dijk (1972) então propõe a noção de “macroato” de fala, aquele que estaria ordenando os demais. Importante ressaltar que essas ações ou esses “macroatos”
estão inseridos em contextos situacionais, sociocognitivos e culturais, assim como a serviço de certos fins sociais;
b. A produção textual é uma atividade verbal consciente, isto é, trata-se de uma atividade intencional, por meio da qual o falante dará a entender seus propósitos, sempre levando em conta as condições em que tal atividade é produzida; considera-se, dentro desta concepção, que o sujeito falante possui um papel ativo na mobilização de certos tipos de conhecimentos, de elementos linguísticos, de fatores pragmáticos e interacionais, ao produzir um texto. Portanto, o sujeito sabe o que faz, como faz e com que propósito faz.
c. A produção textual é uma atividade interacional. Os interlocutores estão obrigatoriamente, e de diversas maneiras, envolvidos nos processos de construção e compreensão de um texto.
Não podemos deixar de fazer referência à conceituação que Koch (1997) dá sobre a unidade do “texto”. A autora não só apresenta a sua própria formulação sobre o que é um texto, mas também a formulação de mais outros dois autores. Apresentam-se agora duas das definições de texto defendidas pela autora, e em uma delas, além da definição de texto, são apresentados os objetivos da disciplina:
Poder-se-ia, assim, conceituar o texto, como uma manifestação verbal constituída de elementos lingüísticos selecionados e ordenados pelos falantes durante a atividade verbal, de modo a permitir aos parceiros, na cognitivas reguladoras e controladoras da produção, construção, funcionamento e recepção de textos escritos ou orais. Seu tema abrange a coesão superficial ao nível dos constituintes lingüísticos, a coerência conceitual ao nível semântico e cognitivo e o sistema de pressuposições e implicações a nível pragmático da produção do sentido no plano das ações e intenções. Em suma, a Linguística Textual trata o texto como um ato de comunicação unificado num complexo universo de ações humanas. Por um lado, deve preservar a organização linear que é o tratamento estritamente lingüístico, abordado no aspecto da coesão e, por outro lado, deve considerar a organização reticulada ou tentacular, não linear: portanto, dos níveis do sentido e intenções que realizam a coerência no aspecto semântico e funções pragmáticas.
Além das definições de textos citadas, é de suma importância considerar-se também o contexto e sua evolução juntamente com a Linguística Textual.
As definições citadas anteriormente fazem-se necessárias para observar-se como o processo de compreensão dos textos evoluiu. Como processar sentido ao que é escrito baseando-se em simples frases, como era feito no início da Linguística? Percebe-se que não é um caminho simples. Hoje, vendo-se o texto como “lugar de interação” entre sujeitos, nota-se que a construção de sentido dependerá de sua organização, pois, o contexto dará respostas a eventuais questionamentos.
Como neste trabalho serão analisados textos de alunos, devemos ter em mente que, quando se fala de texto escrito, é necessário pensar quais mecanismos são responsáveis para que ele seja bem organizado, e quais critérios são suficientes a esta tessitura. A tessitura ou a textualidade de um texto é responsável para que um texto seja considerado texto, ou seja, uma rede de relações responsáveis por unir coerência, coesão e completude, num dado contexto a um determinado uso da língua. Textos escritos precisam ser planejados, é necessário cuidado com a organização textual.
Beaugrande & Dressler (1981 apud KOCH, 2009) consideram sete critérios suficientes à textualidade de um discurso:
Coerência e coesão que se relacionam com o material conceitual e lingüístico do texto; intencionalidade, aceitabilidade, situacionalidade, informatividade e intertextualidade, que tem a ver com fatores pragmáticos envolvidos no processo sociocomunicativo.
A coesão textual, (KOCH, 2009 p. 14) mas não só ela, revela a importância do conhecimento linguístico (dos elementos da língua, seus valores e usos) para a produção do texto e sua compreensão e, portanto, para o estabelecimento da coerência. O conhecimento dos elementos lingüísticos e sua relação, por exemplo, com o contexto de situação também é importante para o cálculo do sentido e a percepção de um texto como coerente.
Em se tratando da coerência, esta, está diretamente ligada à possibilidade de estabelecer um sentido para o texto, ou seja, ela é o que faz com que o texto faça sentido para os usuários, devendo, portanto, ser entendida como um princípio de
interpretabilidade, ligada à inteligibilidade do texto numa situação de comunicação e à capacidade que o receptor tem para calcular o sentido do texto.
Portanto a coerência e a coesão relacionam semanticamente os elementos do texto, está expõe os conceitos no plano lingüístico, aquela os une.
A partir do advento da pragmática, um texto pode ser chamado texto e ter seu sentido visto como tal. Ao tornar-se meio específico da comunicação verbal, percebe-se a existência de uma dada situação, na qual há interlocutores com uma intenção de fazer saber algo e aceitar ou não esse determinado saber. Foram criados os conceitos de situacionalidade, intencionalidade e aceitabilidade, já citados acima. Passamos agora a explicá-los com mais detalhes.
A intencionalidade tem a ver com as intenções do produtor ao construir seu discurso. Pode se informar, convencer, impressionar etc.; ou seja, de acordo com a pretensão do produtor, o texto caminha de determinado modo, visando a atingir determinados objetivos.
Na aceitabilidade, espera-se que o texto tenha sentido e traga conhecimentos ao recebedor; ou simplesmente coopera-se com as intenções de quem o produz2.
A situacionalidade é o próprio contexto, aquilo que faz o texto ser adequado à situação comunicativa. Um texto é mediado por um mundo construído e um mundo real pelo próprio texto; e sua feitura pelo produtor, juntamente com a interpretação do receptor dependem de conhecimentos, objetivos, perspectivas de ambas as partes para a produção do sentido, tudo isso se liga indissoluvelmente ao contexto3.
A informatividade relaciona-se à distribuição de informação no texto e ao nível de previsão ou redundância em que essa informação aparece. Em um texto, é necessário que haja um equilíbrio entre informação dada e informação nova.
A intertextualidade, o dialogismo de Bakhtin, assunto a ser desenvolvido no próximo capítulo, a polifonia4 de Ducrot têm a ver com os modos pelos quais a produção e a recepção de um texto depende de conhecimentos de outros textos por parte de seus interlocutores. Um discurso se constrói ou é percebido como tal em relação a um já-dito do qual faz parte; seu sentido somente é
2 Princípio de cooperação, máximas conversacionais de Grice (1975) apud Fiorin, (2006).
3 Contexto aqui visto como saber sociocognitivo (KOCH, 2006, p. 60).
4 Termo advindo de Bakhtin e desenvolvida por Ducrot (1984) apud Koch (2006).
adquirido, muitas vezes, na relação com outros textos, como um discurso anônimo do senso comum.
1.3 A CONSTRUÇÃO DOS SENTIDOS NO TEXTO
Trataremos agora dos fenômenos da coerência e da coesão textuais.
Segundo Koch (2010, p. 52) a coerência “diz respeito ao modo como os elementos subjacentes à superfície textual vêm a constituir, na mente dos interlocutores, uma configuração veiculadora de sentidos”. Já a coesão, segundo a autora, é descrita como “o fenômeno que diz respeito ao modo como os elementos linguísticos presentes na superfície textual encontram-se interligados, por meio de recursos também lingüísticos, formando sequências veiculadoras de sentido “(Koch, 2010, p.
45)”. Em outras palavras, a coesão textual identifica mecanismos constitutivos do texto e, a partir dele, examina as classes de palavras e sentenças, os conectivos, os processos de ordenação e de retomada do tema, os tempos verbais, entre outros fenômenos.
A coerência está diretamente ligada à possibilidade de estabelecer um sentido para o texto. Ela é o que faz com que o texto faça sentido para os usuários, devendo, portanto, ser entendida como um princípio de interpretabilidade, ligada à inteligibilidade do texto numa situação de comunicação e à capacidade que o receptor tem para calcular o sentido do texto. Por isso será difícil dizer o que é coerência através de um conceito. É Interessante defini-la através da apresentação de vários aspectos, que em seu conjunto, permitem perceber o que esse termo significa.
Michel Charolles, (apud KOCH; TRAVAGLIA, 2009), a partir da década de oitenta, defendia a ideia que a coerência de um texto é um “princípio de interpretabilidade”. Todos os textos seriam, em princípio, aceitáveis. Aqui, “o texto será incoerente se seu produtor não souber adequá-lo à situação, levando em conta intenção comunicativa, objetivos, destinatário, regras socioculturais, outros elementos da situação, uso dos recursos linguísticos etc. Caso contrário será coerente. Vejamos o exemplo abaixo:
“Maria tinha lavado a roupa quando chegamos, mas ainda estava lavando a roupa.”
Uma sequência como a do exemplo acima é vista como incoerente, pois, apesar de cada uma de suas partes ter sentido parece difícil ou praticamente impossível, em função da especificidade de valor das formas lingüísticas utilizadas, estabelecer um sentido unitário para o todo da sequência.
Assim sendo, para haver coerência é preciso que haja possibilidade de estabelecer no texto alguma forma de unidade ou relação entre seus elementos. A coerência é global, por isso o sentido deve ser do todo.
1.3.1 A Linguística Textual e a coerência
Se todos os textos são em princípio aceitáveis, não há possibilidades de uma gramática com regras que distinguem entre textos e não-textos.Com a evolução dos estudos, como já foi mostrado até aqui, não existe a sequência linguística incoerente em si e, portanto, não existe o não-texto. Por isso, passou-se à construção de uma Teoria do Texto ou Linguística do Texto, que é constituída de princípios e/ou modelos cujo objetivo não é predizer a boa ou má-formação dos textos, mas permitir representar os processos e mecanismos de tratamento dos dados textuais que os usuários põem em ação quando buscam interpretar uma sequência linguística, estabelecendo o seu sentido e, portanto, calculando sua coerência.
O estudo da produção, compreensão e coerência textuais tornou-se um campo inter e pluridisciplinar, recebendo contribuições da Psicologia, da Sociologia, da Filosofia, da Teoria da Computação e Informática (estudos de Inteligência Artificial), além da Linguística em geral e de alguns de seus ramos em particular (Sociolinguística, Psicolinguística). Todas essas disciplinas fornecem elementos indispensáveis a uma compreensão global da interação comunicativa feita através de textos linguísticos. Neste momento, é pertinente perguntar o que cabe à Linguística fazer no estudo da produção, compreensão e coerência textuais. Para Charolles (1987 apud KOCH, 2009)cabe aos linguistas “delimitar, na constituição e composição textuais, qual é a parte e a natureza das determinações que resultam
dos diferentes meios que existem nas diferentes línguas, para exprimir a continuidade ou a sequência do discurso”. Lembrando que o que será analisado será o sentido geral do texto. Não iremos restringir- nos no aspecto coesão, porém importante lembrar que esse sentido deve ser do todo, pois a coerência é global.
Assim, o linguista deve fazer análises das marcas de relação entre as unidades de composição textual que a língua usa para resolver, o melhor possível, os problemas de interpretação que seu uso possa gerar. Isto para além da generalidade dos processos psico e sociocognitivos que intervêm na interpretação (da coerência) do discurso. Lembrando que o que será analisado será o sentido geral do texto. Não iremos restringir-nos no aspecto coesão, porém importante lembrar que esse sentido deve ser do todo, pois a coerência é global.
2. O DIALOGISMO
“Ações? O que eu vi, sempre, é que toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada. Palavra pegante, dada ou guardada, que vai rompendo rumo.” (Guimarães Rosa)
2.1 TEMA E SIGNIFICAÇÃO
Neste capítulo abordaremos o dialogismo, de acordo com os estudos e reflexões de Bakhtin. Segundo Fiorin (2006, p.18) “O teórico russo enuncia esse princípio e, em sua obra, examina-o em seus diferentes ângulos e estuda detidamente suas diferentes manifestações”.
Nas palavras de Bakhtin:
Não existe a primeira nem a última palavra, e não há limites para o contexto dialógico (este se estende ao passado sem limites e ao futuro sem limites).
Nem os sentidos do passado, isto é, nascidos do diálogo dos séculos passados, podem jamais ser estáveis (concluídos, acabados de uma vez por todas): eles sempre irão mudar (renovando-se) no processo de desenvolvimento subseqüente, futuro, do diálogo. Em qualquer momento do desenvolvimento do diálogo, existem massas imensas e ilimitadas de sentidos esquecidos, mas em determinados momentos do sucessivo desenvolvimento do diálogo, em seu curso, tais sentidos serão relembrados e reviverão em forma renovada (em novo contexto). Não existe nada absolutamente morto: cada sentido terá sua festa de renovação (2003, p.
410 apud SOBRAL, 2009)
Sobre o mesmo objeto de estudo encontram-se diferentes posições teóricas, as quais possibilitam diferentes olhares.
Dialogia é uma filosofia e não uma teoria científica, ou seja, é um conjunto de conceitos. Bakhtin, segundo Fiorin (2006) não é um teórico do diálogo face a face, interessa-lhe pouco o diálogo tal como é tradicionalmente conhecido. Para ele o diálogo abrange todo o processo de comunicação verbal e não verbal, incluindo o texto falado ou escrito.
O termo diálogo em Bakhtin (2006) designa a grande metáfora conceitual que
organiza sua filosofia; é o nome dado para o simpósio universal que define o existir humano e não para uma forma específica de interação face a face e menos ainda para uma forma composicional do texto:
A vida é dialógica por natureza. Viver significa participar do diálogo:
interrogar, ouvir, responder, concordar, etc. Nesse diálogo o homem participa inteiro e com toda a vida: com os olhos, com os lábios, com as mãos, a alma, o espírito, todo o corpo, os atos. Aplica-se totalmente na palavra e essa palavra entra no tecido dialógico da vida humana, no simpósio universal. (BAKHTIN, 2006, p. 348)
Para o Círculo de Bakhtin, o locutor e o interlocutor têm o mesmo peso, porque toda enunciação é uma “resposta”, uma réplica, a enunciações passadas e a possíveis enunciações futuras, e ao mesmo tempo uma
“pergunta”, uma “interpelação” a outras enunciações: o sujeito que fala o faz levando o outro em conta não como parte passiva mas como parceiro – colaborativo ou hostil – ativo.
Antes mesmo de tratarmos de outras reflexões de Bakhtin sobre o dialogismo é importante que busquemos entender melhor o conceito de enunciado e enunciação.
Bakhtin (1992, apud BRAIT, 2010) acredita que todo enunciado – desde a breve réplica até o romance ou o tratado científico – comporta um começo absoluto e um fim absoluto. O locutor termina seu enunciado para passar a palavra ao outro ou para dar lugar à compreensão responsiva ativa do outro. O enunciado não é uma unidade convencional, mas uma unidade real, estritamente delimitada pela alternância dos sujeitos falantes, e que termina por uma transferência de palavra ao outro, por algo como um mundo “dixi” percebido pelo ouvinte, como sinal de que o locutor terminou. Dentro do pensamento bakhtiniano, as possibilidades de leitura dos termos enunciado, enunciado concreto, enunciação só têm sentido na articulação com outros termos, outras categorias, outras noções, outros conceitos que, mais do que a constitutiva proximidade, conferem-lhes sentido específico, diferenciado de qualquer outra perspectiva teórica. Por exemplo, é o caso de signo ideológico, palavra, gêneros discursivos, interação, texto, discurso, linguagem em uso, atividade, esfera de produção, circulação e recepção, para restringirmos o elenco a apenas alguns.
Por tudo isso devemos dizer que os conceitos enunciado e enunciação, tão largamente utilizados na área dos estudos da linguagem, estão longe de promover um consenso, apresentando, ao contrário, uma grande polissemia de definições e empregos.
De uma forma geral, é possível dizer que enunciado, em certas teorias, equivale a frase ou a sequências frasais. Em outras, entretanto, pode-se afirmar que assumem um ponto de vista pragmático, o termo e, consequentemente, os conceitos por ele gerados são utilizados em oposição à frase, unidade entendida com modelo, como uma sequência de palavras organizadas segundo a sintaxe e, portanto,
De uma forma geral, é possível dizer que enunciado, em certas teorias, equivale a frase ou a sequências frasais. Em outras, entretanto, pode-se afirmar que assumem um ponto de vista pragmático, o termo e, consequentemente, os conceitos por ele gerados são utilizados em oposição à frase, unidade entendida com modelo, como uma sequência de palavras organizadas segundo a sintaxe e, portanto,