CAPÍTULO V – A VOZ DOS PROFESSORES
5.3 O CONCEITO DE BOM PROFESSOR
5.3.2 A linguagem do Bom Professor
A linguagem foi, entre todas, a característica mais apontada como importante ao bom professor. Falas, como as apresentadas a seguir, ressaltam a importância de se considerar o ouvinte, a quem a linguagem é dirigida.
[...] fala a linguagem, porque às vezes a gente vai sabendo tanto e se afasta um pouco de como eles enxergam. (E2)
A linguagem Matemática é um tipo de linguagem diferente do que os alunos estão acostumados. (E4)
A referência à prática de explicar bem o conteúdo, também, está relacionada à linguagem, pois a explicação diz respeito à comunicação, à capacidade de, pela linguagem, transmitir o pensamento ao outro de forma assertiva, o que está relacionado ao conceito de adressividade de Bakhtin.
Esse conceito diz respeito ao discurso, que para Bakhtin é uma forma de estabelecer a conexão entre duas pessoas. É a ponte entre os sujeitos do diálogo. O sujeito é aberto aos discursos dos outros sujeitos, pois se modifica com eles. Para Bakhtin o sujeito do discurso não é único, pois o seu discurso considera os outros
discursos. Bakhtin coloca em crise a unicidade do sujeito falante. Ele atribui ao sujeito um estatuto heterogêneo. O sujeito modifica seu discurso em função das intervenções dos outros discursos, sejam elas reais ou imaginadas. Portanto, o sujeito não é a fonte primeira do sentido. Ao dirigir sua palavra aos alunos, o professor, em verdade, fala com eles e não apenas para eles. A linguagem é coletiva e considera as falas de todos os envolvidos que carrega suas realidades. (TODOROV e PORTER, 1990).
Pela fala de um dos entrevistados, foi possível identificar que, em relação à linguagem como característica do bom professor, esta não se restringe à sua modalidade oral. E7 destaca a importância da linguagem escrita ao comentar:
Ele montou um material de punho, deixou claro como a Matemática poderia se relacionar com a Mecânica dos Fluidos. Várias partes da Matemática. Montou material, fez um texto completo original, muito bem escrito. Gosto muito da língua, tinha toda uma correção na parte lingüística que eu admiro. Sou muito ligado à parte do intelecto, da lógica. Gosto muito de um texto bem escrito. (E7)
Essa reflexão traz a lógica, refletida na organização das idéias, como um aspecto da linguagem adequada à boa prática pedagógica.
Entre as referências ao bom professor, dou à linguagem a maior relevância. Pela linguagem damos sentido e direção à palavra. Pela linguagem expressamos nossos pensamentos e contribuímos para a construção do pensamento dos outros sujeitos com os quais nos relacionamos. A linguagem e sua forma definem se nos dirigimos ao outro ou a nós mesmos ou a ninguém ou, apenas, à retórica sobre alguma coisa.
Não quero, com isso, diminuir a importância do saber em si que o professor deve possuir para poder ensinar sobre algo, mas é pela linguagem que esse saber se expressa. Quando Freire (1987) faz referência à “ação editanda”, como uma ação pedagógica intencional, mediante a qual o professor elucida o educando sobre a realidade, imediatamente me ocorre uma ação de transformação do pensamento em linguagem. Uma ação de editar o pensamento, como quem edita uma imagem, um filme, e atribui a ele a palavra.
A aprendizagem de Cálculo, por exemplo, está relacionada às funções mentais superiores que, segundo Vygotsky, são funções mentais complexas, como o raciocínio lógico que se desenvolve a partir das funções elementares pelas interações sociais com outras pessoas culturalmente mais experientes55.
A linguagem, assim como os símbolos e as representações, por facilitar a comunicação e liberar espaço mental para as operações, atua como agente intermediário entre o objeto de conhecimento e o processamento mental. Como ferramenta cultural, a linguagem funciona como agente intermediador entre o processamento mental do indivíduo e o objeto de conhecimento (WERTSCH, 1998).
Considero, portanto, como habilidade imprescindível ao bom professor, a capacidade de se expressar de forma clara, organizada e de múltiplas maneiras sobre o mesmo objeto de estudo.
Confesso que, ao escutar as gravações das entrevistas para transcrevê-las, fiquei surpresa com a linguagem dos professores. Não é preciso entrar em detalhes sobre as diferenças entre o discurso falado e o escrito, portanto, é claro que, a fala quando transcrita, parece estranha. No entanto, dizeres como, “[...] os professores que eu tive, foram aqueles que conseguiram passar [...]” o conteúdo, chamam a minha atenção, pois, o termo passar parece estar muito mais relacionado a uma educação bancária do que a uma proposta transformadora.
Outro aspecto que me provocou na fala de alguns entrevistados foi a organização confusa do discurso. Em alguns momentos tive a impressão de que só entendi o que diziam porque faço parte do meio, isto é, se for seguir o pensamento kuhniano, faço parte do mesmo coletivo. Um exemplo de fala que expressa o que pretendo relatar foi:
Bem diferenciado. Assim, muitos alunos, pelo fato de ser algo novo pra eles, eles... Alguns têm bastante resistência. Uma boa parte, até por uma visão equivocada em relação ao curso em si... Inclusive, até tive um colega que me falou que, sobre o curso de Computação, ele disse pros alunos: _ “Vocês acham um que o curso de Computação é só ficar apertando botãozinho?” Porque a idéia que eles têm é ir direto ao ponto prático. Mas,
55 In Vygotsky’s view the elementary mental functions (e.g. involuntary attention, eidetic memory) result from the
natural line of development and are transformed into higher mental functions (e.g. voluntary memory, logical memory) through the child’s social interaction with more experienced members of culture (WERTSCH, 1985, p.7).
se não tem, assim, não tem o conhecimento mais teórico sobre aquilo, dificulta. Muitos têm essa visão, mas são poucos, a maioria tem resistência. Eles nem sabem o que é aquilo em si, já querem saber pra que serve. Como curiosidade, tudo bem, mas eles têm pouca motivação, os alunos em si. (E4)
O conhecimento que tenho em relação à realidade dos alunos, às reuniões de quarta-feira e às questões da prática docente permitiu a compreensão desses discursos, porém, se não tivesse esse conhecimento prévio acredito que eles pudessem suscitar dúvidas.