2 A CRIANÇA AO LONGO DOS TEMPOS: VALORIZAÇÃO E RESPEITO À
3.1 A LINGUAGEM COMO INSTRUMENTO DE INTERAÇÃO
O ser humano comunica-se através da linguagem de diferentes formas, passando inicialmente da linguagem não verbal à linguagem verbal, ou seja, desde o choro ao nascer, a movimentos gestuais e expressões corporais conforme cresce e se desenvolve. E é a partir da linguagem que o indivíduo se reconhece humano, nas relações sociais coletivas desenvolvidas ao longo da história, a partir da necessidade de interações cotidianas e troca de experiências (CAMBÉ, 2016).
Duarte também destaca que:
[...] assim como a linguagem e os instrumentos, a objetivação das relações entre os seres humanos significa o acúmulo de experiência, síntese de atividade humana; de tal forma que cada indivíduo, apropriando-se dessas objetivações passa agir no âmbito das condições sociais, isto é no âmbito das condições que não resultam da natureza, mas, sim, da história da atividade de outros seres humanos (DUARTE
apud CAMBÉ, 2016, p. 489).
2 Nesta pesquisa, são utilizadas tais definições de acordo com estudos recentes de Zoia Ribeiro
Prestes (2010), que defendeu sua tese de doutorado a respeito das traduções equivocadas dos termos utilizados por Vigotski. Portanto, no texto constam as definições da autora, de nacionalidade russa, que traduziu e fez as correções dos termos citados pelo autor.
Logo, inicialmente, o homem buscou maneiras de se expressar e se fazer entender, utilizando uma linguagem muito rudimentar. Comunicava-se através de sons, grunhidos, expressões e gestos. Após um longo período de evolução, passou a fazer registros em cavernas por meio de signos que representavam suas ideias e o mundo à sua volta, sendo, portanto, esses signos dotados de significado, tendo como objetivo principal a comunicação social. Essa afirmação encontra-se em Santaella:
No entanto, em todos os tempos, grupos humanos constituídos sempre recorreram a modos de expressão, de manifestação de sentido e de comunicação sociais outros e diversos da linguagem verbal, desde os desenhos nas grutas de Lascaux, os rituais de tribos “primitivas”, danças, músicas, cerimoniais e jogos, até as produções de arquitetura e de objetos, além das formas de criação de linguagem que viemos a chamar de arte: desenhos, pinturas, esculturas, poética, cenografia etc. E, quando consideramos a linguagem verbal escrita, esta também não conheceu apenas o modo de codificação alfabética criado e estabelecido no Ocidente a partir dos gregos. Há outras formas de codificação escrita, diferentes da linguagem alfabeticamente articulada, tais como hieróglifos, pictogramas, ideogramas, formas estas que se limitam com o desenho (SANTAELLA, 1983, p. 2).
Ao nascer, o ser humano tem como primeiro ato de vida a linguagem. Logo, os adultos, à sua volta, compreendem suas vontades e necessidades a partir de sua primeira forma de expressão. Esse ato inicial vem munido de significado e, conforme os dias passam, o bebê aprende a se comunicar via expressões e movimentos. Contudo, no estágio inicial de desenvolvimento da criança, ainda não existe vínculo entre palavra e pensamento, como afirma Vigotski
Também, no estágio inicial do desenvolvimento da criança, poderíamos, sem dúvida, constatar a existência de um estágio pré-intelectual no processo de desenvolvimento do pensamento. O pensamento e a palavra não estão ligados entre si por um vínculo primário. Este surge, modifica- se amplia-se no processo do próprio desenvolvimento do pensamento e da palavra (VIGOTSKI, 2001, p. 396).
Ao longo do tempo, a criança se apropria da palavra, vinculando-a ao seu significado por vias associativas, segundo defende o consagrado autor:
A compreensão da linguagem consiste numa cadeia de associações, que surgem na mente sob a influência de imagens semióticas das palavras. A expressão do pensamento na palavra é um movimento inverso, pelas
mesmas vias associativas, dos objetos representados no pensamento às designações verbais desses mesmos objetos (VIGOTSKI, 2001, p. 401).
Para ele, a criança começa a desenvolver a linguagem, a partir do momento do seu nascimento, contudo isso ainda não afeta o desenvolvimento do pensamento. Reações sobre a definição da voz humana se iniciam no terceiro mês de vida e o desenvolvimento das funções da linguagem começam a ter novos sentidos a partir dos dois anos. Por volta dessa idade, a criança “faz a maior descoberta da sua vida”: a de que “todas as coisas têm um nome” (VIGOTSKI, 2001, p. 108). E nesse momento, a linguagem passa a fazer parte de seu intelecto, ela começa a ter dúvidas, a perguntar sobre as coisas que a cercam, desenvolvendo e enriquecendo seu vocabulário rapidamente.
Em relação à linguagem, Martins (2016) destaca que ela é desenvolvida pela captação sensorial e conquista representação por meio da palavra, a partir das operações práticas, convertendo-se em operações teóricas. Com isso, o pensamento, visando à descoberta das conexões existentes entre os objetos e fenômenos da realidade, se institui como ideia.
[...] a construção da imagem subjetiva da realidade e, consequentemente, a construção do conhecimento, tem sua origem nas sensações e percepções – todavia, não se limita a elas. Na superação da mera captação sensível, duas funções se destacam, carreando todas as demais, sendo elas: linguagem e pensamento (MARTINS, 2016, p. 1574).
Também o raciocínio é desenvolvido, levando a criança a se apropriar dos conceitos (MARTINS, 2016). Portanto, é função do adulto mediador oportunizar a ela momentos de estimulação: conversar e narrar para o bebê o que está sendo feito com e para ele, relatar o que está acontecendo ao seu redor, brincar de faz- de-conta, estabelecer diálogos em que a criança possa se expressar de maneiras variadas, brincar com jogos de palavras, construir combinados, recontar histórias, dentre outras atividades que desenvolvam a oralidade e a linguagem verbal e não verbal.