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1 DELINEANDO O ENQUADRE TEÓRICO

1.1 A LINGUAGEM COMO MEDIADORA DO PROCESSO DE PC

O acesso ao conhecimento científico – proporcionado, conquistado ou construído coletivamente – se dá por meio de processos de comunicação e tais processos só se viabilizam por meio de um sistema linguístico. É pela instanciação de um “potencial de significados” à disposição dos falantes/escreventes que se torna possível “dar sentindo a nossa experiência”, “realizar nossas interações com outras pessoas” (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004, p. 24, tradução nossa) e construir representações.

Para Fairclough (2003, p. 3), representar é construir em texto o mundo social, uma vez que a linguagem nos possibilita construir representações de “aspectos do mundo físico, do mundo mental e aspectos do mundo social”. Nessa perspectiva, a instanciação de linguagem(ens) é um fenômeno/processo sine qua non da vida em sociedade e, como já observara Bakhtin (2011, p. 261), “todos os campos da atividade humana estão ligados ao uso da linguagem”. A utilização se dá por meio de

enunciados (orais e escritos) associados a uma ou outra esfera da atividade humana, refletindo as condições específicas e as finalidades de cada um desses campos. Tais enunciados podem ser identificados ou reconhecidos “não só por seu conteúdo (temático) e pelo estilo de linguagem, ou seja, pela seleção dos recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais da língua, mas, acima de tudo, por sua construção composicional” (BAKHTIN, 2011, p. 261).

Para Bakhtin (2011), cada esfera de utilização da língua/linguagem vai, ao longo do tempo, organizando seus “tipos relativamente estáveis de enunciados” ou “gêneros do discurso” (BAKHTIN, 2011, p. 262), que podem ser de riqueza e variedade infinitas. À medida que dado campo da atividade humana se desenvolve e fica mais complexo, pode produzir um repertório de gêneros do discurso que vai se diferenciando e ampliando. Nessa complexificação, os enunciados que se constituíram em circunstâncias de comunicação verbal espontânea (uma carta, um diálogo do cotidiano), por ele denominados de “gêneros primários”, podem se tornar componentes de gêneros mais complexos, os “secundários” (romance, novela, reportagem), que “surgem nas condições de um convívio cultural mais complexo e relativamente muito desenvolvido e organizado (predominantemente escrito) – artístico, científico, sociopolítico, etc.” (BAKHTIN, 2011, p. 263).

Quando os gêneros primários se tornam componentes de um secundário, sofrem transformações, ou seja, “perdem o vínculo imediato com a realidade concreta e os enunciados reais alheios” (BAKHTIN, 2011, p. 263). Nessa perspectiva, uma entrevista realizada em um contexto de copresença espacial e temporal, ao tornar-se componente de uma reportagem, conserva a sua forma e o seu significado cotidiano apenas no plano do conteúdo do texto em questão, integrando-se à realidade existente a partir da reportagem como um todo. As inovações podem derivar ou serem constituídas pela associação de gêneros primários ou, ainda, através do refinamento/especialização de gêneros secundários. A produção de novos gêneros discursivos no processo histórico pode levar ao desuso de alguns e ao surgimento de outros.

No cenário contemporâneo, por exemplo, o avanço tecnológico na área da informática está oportunizando o surgimento de novos gêneros discursivos, como, por exemplo, os chats, que reproduzem diálogo cotidiano mediado pelo computador, ou posts em redes sociais que, de certo modo, assemelham-se às antigas discussões em praça pública. No campo jornalístico, o gênero reportagem (secundário), ao ser

interseccionado com diferentes esferas da atividade humana, refina-se, originando um novo gênero, a reportagem especializada (esportiva, política, econômica ou a de PC, por exemplo). Esse gênero singular mantém as características comuns ao texto de reportagem, mas, por outro lado, apresenta determinadas especificidades não só de conteúdo, mas, principalmente, de composição (organização retórica e estratégias discursivas), as quais estão descritas no Capítulo 2, seção 2.3.

Assim, diante da riqueza de gêneros discursivos na sociedade, a relevância dos estudos desse campo nos parece sempre pertinente. A heterogeneidade dos gêneros discursivos amplia as possibilidades de inter(ação) social. Isso, no entanto, não significa, necessariamente, uma vida social mais democrática e igualitária, uma vez que o funcionamento da linguagem e dos diferentes gêneros é um processo complexo que exige competência/capacidade discursiva e pode provocar e/ou refletir relações assimétricas de poder. A posição que um indivíduo assume em dada esfera, campo ou instituição está estreitamente ligada ao poder, isto é, à “sua capacidade de agir para alcançar os próprios objetivos ou interesses, à capacidade de intervir nos acontecimentos e em suas consequências” (THOMPSON, 1998, p. 21).

No mundo social, Thompson (1998, p. 22-25) identifica quatro principais formas de poder: econômico (material e financeiro), político (autoridade), coercitivo (força física e armada) e simbólico (meios de informação e comunicação). O “poder simbólico” – expressão que Thompson adota a partir de Bourdieu (1989) – é exercido por meio da instanciação de linguagem(ens) e refere-se à “capacidade de intervir no curso dos acontecimentos, de influenciar as ações dos outros e produzir eventos por meio da produção e da transmissão de formas simbólicas” (THOMPSON, 1998, p. 24). Nesse sentido, quanto maior for a capacidade/competência nas interações mediadas pela linguagem, maiores serão as chances de êxito dos falantes e escreventes em influenciar a ação dos outros e, por consequência, alcançar seus próprios objetivos. Tendo em mente a complexidade das práticas discursivas, verifica-se a relevância dos estudos a respeito dos gêneros discursivos, especialmente os que são desenvolvidos numa perspectiva crítica como a ACG.

No Brasil, essa abordagem tem, entre seus precursores, Meurer e Mota-Roth (2002). Ao proporem o estudo/ensino da linguagem por meio da análise do(s) gênero(s), salientam que, através deles, “[...] as pessoas adquirem, transmitem e recriam formas de conhecimento, estabelecem relações sociais, constroem e defrontam-se com identidades diversas [...]” (MEURER; MOTTA-ROTH, 2002, p. 12).

Nessa perspectiva, a linguagem, organizada em gêneros e como sistema que medeia as interações sociais, torna-se um instrumento de poder. O empoderamento se dá em função da potencialidade da linguagem de “mediar nossa ação sobre o mundo (declarando e negociando), de levar os outros a agir (persuadindo), de construir mundos possíveis (representando e avaliando)” (MEURER; MOTTA-ROTH, 2002, p. 10).

Desse modo, entendemos que as concepções teórico-metodológicas da ACG que detalhamos a seguir são as mais adequadas para analisar a representação do câncer construída a partir de certas circunstâncias e em determinado momento sócio- histórico – objetivo central deste estudo.

1.2 ANÁLISE CRÍTICA DE GÊNERO E AS CORRENTES TEÓRICAS QUE A