2.1 Linguagem e escrita
2.1.2 A linguagem como reveladora do ser-para-outro
O objetivo desse capítulo é mostrar a importância do exercício dialético entre escritor- leitor para o surgimento da literatura. A concepção sartriana da prosa se baseia em sua instrumentalidade que permite a comunicação, fazendo do escritor um ser-para-outro e, dessa maneira, tem por característica revelar mais essa característica ontológica do ser humano, mostrando que a separação entre os reinos do Em-si e do Para-si é muito tênue e não pode ser compreendida como um dualismo incomunicável, já que sendo também um ser-para-outro, o Para-si se apresenta ao mundo como um objeto, passando-se para uma outra consciência como um Em-si. Nesse sentido, a linguagem está entre as primeiras manifestações em direção ao outro, conforme se pode ler na citação abaixo de O Ser e o Nada:
A linguagem não é um fenômeno acrescentado ao ser-Para-outro: é originariamente o ser-Para-outro; ou seja, é o fato de uma subjetividade experimentar-se como objeto para o outro. Em um universo de puros objetos, a linguagem não poderia de forma alguma ser “inventada”, pois presume originariamente uma relação com outro sujeito; e, na intersubjetividade dos Para-outros, não é necessário inventá-la, posto que já é dada no reconhecimento do outro. Pelo simples fato de, não importa o que faça, meus atos livremente concebidos e executados a meus projetos rumo a minhas possibilidades adquirirem lá fora um sentido que me escapa e experimento, eu sou linguagem. Nesse sentido – e somente nesse – , Heidegger tem razão ao declarar que sou o que digo. Tal linguagem, com efeito, não é um instinto da criatura humana constituída. Tampouco é uma invenção de nossa subjetividade; mas também não devemos reconduzi-la ao puro “ser-fora-de- si” do “Dasein”. Faz parte da condição humana; é originariamente a experiência que um Para-si pode fazer de seu ser-Para-outro, e, posteriormente, o transcender desta experiência e sua utilização rumo a possibilidades que são minhas possibilidades, ou seja, rumo às minhas possibilidades de ser isto ou aquilo para o outro. A linguagem, portanto, não se distingue do reconhecimento da existência do outro. O surgimento do outro frente a mim como olhar faz surgir a linguagem como condição de meu ser.123
Essa extensa citação traz a fundamentação ontológica da linguagem como condição própria do Para-si, que, de uma forma ou de outra, deve se fazer Para-outro. Gerd Bornheim observa como é curioso que O Ser e o Nada tenha reservado apenas dois breves trechos para a reflexão acerca da linguagem. A citação acima esconde um problema que é a tentação de reduzir a linguagem à expressão de Heidegger: “sou o que digo”. Segundo Bornheim124,
123 SARTRE, J. P. O Ser e o Nada, op. cit., p. 464-465. 124 BORNHEIM, G. Sartre, op. cit., p. 266.
Sartre não utiliza tal expressão no mesmo sentido de Heidegger, que compreende o dizer como a expressão da condição histórica do homem no mundo. Ao colocar a linguagem como prerrogativa do ser-para-outro, Sartre compreende a linguagem como característica fundamental da intersubjetividade humana e “o ser da linguagem passa a determinar-se pelo modo de ser da intersubjetividade”125. Destarte, a linguagem é a responsável por colocar o indivíduo como objeto para o outro, convertendo-o em ser-para-outro. Aqui se percebe a dependência do homem em relação ao outro que se torna o responsável pela existência da linguagem e como aquilo sem a qual essa manifestação não existiria.
A concepção sartriana de linguagem é bastante ampla, pois não se limita apenas à expressão oral, mas a toda expressão humana frente ao outro que, por ser consciência significante, pode dar um sentido às expressões daquele que pretende se comunicar. Isso explica em parte o fascínio provocado pelo olhar do outro e a preocupação em aparecer bem como “objeto” frente àquele que pode dar um significado para as nossas ações. Por isso, ser- para-outro significa fazer-se objeto do outro em detrimento da própria liberdade, tal como o item sobre a má-fé pôde bem ilustrar. Mas, aqui há uma diferença importante. O homem é sempre um ser-para-outro e, por isso, a linguagem é importante por romper o solipsismo oriundo do isolamento do ser. Nesse sentido, o homem que se comunica não quer possuir a opacidade do Em-si, tal como aquele que se refugia na má-fé pretende fazer. Sobre isso, explica Bornheim:
Sartre pensa, de saída, a linguagem como relação intersubjetiva; aqui se restringe o problema a um meio de comunicação. Segundo: a linguagem é considerada como relação sujeito-objeto. Se o homem se faz objeto ao olhar do outro, é porque a própria linguagem tem caráter reificante; o olhar do outro se impõe como princípio de minha objectidade, e essa objectidade se vê como que confirmada e estabelecida pela linguagem. Isso quer dizer que a linguagem se exaure em ser objeto, ou seja um instrumento, um meio de que lança mão o homem para se comunicar. Essas duas idéias – comunicação e instrumento – permanecem estreitamente associadas: a linguagem é um instrumento que serve à comunicação.126
A experiência alienante da linguagem é a condição própria de sua existência enquanto manifestação humana. Para Sartre, por caracterizar-se exatamente em ser-para-outro, o problema da linguagem faz-se análogo ao problema dos corpos em sua ontologia fenomenológica e “as descrições válidas para um caso o são para outro”127. É importante
125
Id. ibid., loc. cit.
126 Id. ibid., p. 269.
salientar que estas considerações sobre linguagem encontraram muitos opositores, pois caem, segundo seus críticos, num grave reducionismo das funções da linguagem e da comunicação128.
Como o interlocutor de Roquentin disse na epígrafe deste capítulo, sempre se “escreve para alguém” e por isso, a literatura, enquanto comunicação, precisa do outro, que surge na figura do leitor. O escritor é aquele que se faz objeto não no sentido da má-fé, visando ocultar sua liberdade através de uma essencialidade que lhe é exterior ou querendo ser reconhecido como objeto para o outro, mas um ser-para-outro que, fugindo da característica própria do Em-si, visa afetar o outro de alguma maneira e, através disso, agir na realidade em que está situado. Portanto, a linguagem, e aqui a literatura, só pode se concretizar dentro de um processo dialético, dando literalmente “a vida” ao romance, assim como o outro, com sua consciência desvendante, pode trazer “à vida” o gesto daquele que se comunica imbuindo-o (ou atribuindo-lhe) de significado.