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5 OS “BASTIDORES” REVELADOS

5.4 A linguagem das histórias

Reitero que as entrevistas narrativas, acima explicitadas, foram realizadas com o grupo de professoras, e possibilitaram, consequentemente, a geração de onze (auto)narrativas.

Sob o risco de tornar demasiado extenso o presente ensaio e porque a primeira entrevista narrativa a ser transcrita mostrou-se, a meu juízo, passível de ser tomada exemplarmente, é somente essa (auto)narrativa que virá a ser abordada, ficando as demais destinadas a um próximo trabalho. Opto, assim, por revelar a interação vivenciada entre mim e a professora, com a franca intenção de continuar a produzir o que, no teatro, convencionalmente, chama-se “bastidores revelados”.

Contrariando um desejo inicial, que traria, na multiplicidade de histórias relatadas, diversas e conflitantes formas de ter, sentir, viver marcas e tatuagens, o que aqui é apresentado é, tão-somente, uma entre outras narrativas, que terá o caráter de ser um recorte de uma história como tantas outras, como um desenho,

como ilustração e, quem sabe, como a tatuagem das reflexões produzidas.

Enquanto, por um lado, é complementar, por ser de natureza complexa, cumpre com a função de deixar em aberta a possibilidade de outras reflexões.

Dessa forma, a não contemplação de todos os caminhos estabelecidos é o que abre a possibilidade da invenção. Se incompleto, tanto maior é o desejo de ação, a partir do que foi alcançado, apreendido ou transgredido. O desafio, embora ainda com o pensamento carregado de incertezas, é me lançar na trajetória que a incompletude e a aparente confusão do que está sendo exposto apontam.

Neste momento inicio a explicitar como se deu a vivência da narrativa realizada com a professora, na qual ocorre uma narração, que eu faço em 1ª pessoa, ao relatar a interação na entrevista narrativa, bem como as reflexões nela e a partir dela suscitadas.

Em geral, tais considerações têm espaço em registros do diário da investigação, eventualmente citadas após o relato ou em notas de rodapé, mas eu penso que, por se constituem partes do processo relatado, não seria conveniente que minhas reflexões figurassem em anexos, ou em retomadas, longe do calor do encontro.

Faço também, em 3ª pessoa, buscando uma onisciência ao escrever sobre a pessoa que me conta suas histórias. Produzo, portanto, uma biografia, mas não distante de quem narra; em cooperação, porque ocorre também a sua (auto)narração (em 1ª pessoa), advinda da transcrição do relato oral, feito na entrevista, o que gera uma (auto)biografia.

A entrevistada torna-se, indiscutivelmente, autora de sua vida relatada oralmente que, ao ser transcrita, passa a compartilhar comigo a autoria da narrativa.

O relato da experiência narrativa, o fenômeno, como dizem os autores abaixo citados, constituiu-se num exercício de compartilhamento da figura do narrador:

ambas narramos aquilo que foi relatado na entrevista, enquanto eu narro a entrevista mesma. “Em el processo de empezar a vivir la historia compartida de la investigación narrativa, el investigador tiene que ser consciente de estar construyendo uma relación em la que ambas voces pueden ser oídas” (CONNELLLY

& CLANDININ, 1995, p.21-22).

Porque a referência é ao processo mesmo de pesquisa, no afã de conhecer essas vidas, o que se tem é a narrativa (auto)biográfica, uma aproximação ao conceito de biografização proposto por Delory-Momberger (2008), que define o

biográfico como uma categoria da experiência, a qual permite ao individuo, nas condições de sua inscrição sócio-histórica, integrar, estruturar, interpretar as situações e os acontecimentos por ele vividos.

Quando queremos nos apropriar de nossas vidas, nós a narramos. O único meio de termos acesso à nossa vida é percebermos o que vivemos por intermédio da escrita de uma história (ou de uma multiplicidade de histórias): de certo modo, só vivemos nossa vida escrevendo-a na linguagem das histórias (DELORY-MOMBERGER, 2008, p.36).

Não foi, se não escrever, na linguagem das histórias, uma narrativa das narrativas que ouvi o que determinou a forma narrativa aqui construída, garantindo à professora o protagonismo de sua complexa individualidade, em relatos permissivos ao que é mutável, não linear, impreciso nos “eus” que a habitam, com suas incoerências, contradições e acasos.

Sendo eu, de um lado a biografar a partir do que ela a mim confiou, compartilho o espaço de protagonista, autorizando-me a refletir em meio à sua narrativa, em algumas vezes com ela, em outras, no momento da escrita, no momento em que a (auto)narrativa – oral – é transposta para a escrita, constituindo-se na (auto)biografia.

Neste estudo, desenvolvi, à maneira do que pensara Corazza (2002), uma prática de pesquisa, quem sabe, uma estratégia metodológica, com o intuito de conhecer os vínculos da narrativa pessoal da professora com as vivências que lhe deram origem. Com a (auto)narrativa produzida em entrevista, foi viável uma aproximações com a trajetória de vida dessa mulher que, nessa trajetória, tornou-se professora. A mim coube, portanto, dar sentido à experiência (Arnaus, 1995, p. 64) que eu queria comunicar por meio do meu relato. Intuí que seria importante para a compreensão da narrativa que estava sendo feita, se narrada desde a interação que ocorria.

Ela, porque se deixando marcar pela experiência, riscou em seu corpo alguns dos sentidos e razões que dá à vida, por isso, o momento de ouvi-la, em ato autopoiético (é na poiesis como narração que os fatos se tornam acontecimentos), a produzir a (re)criação dessa trajetória, que implica um compreender-se a si mesma, ao compreender o ambiente histórico e cultural onde se inscreve, e nesse percurso as marcas que a constituem, desde a infância e início da escolaridade ao momento presente, permitiu conhecer, em algumas de suas facetas mais significativas, um

desenhar de uma figura de si (PASSEGUI e SOUZA, 2008), justificando, assim, a escolha metodológica da narrativa autobiográfica, do tipo história oral de vida, dada a imbricação com a temática da pesquisa.

Para Corazza (2002),

... uma prática de pesquisa é um modo de pensar, sentir, desejar, amar, odiar, uma forma de interrogar, de suscitar acontecimentos, de exercitar a capacidade de resistência e de submissão ao controle; uma maneira de fazer amigas/os e cultivar inimigas/os, de merecer ter tal vontade de verdade e não outra(s); de nos enfrentar com aqueles procedimentos de saber e com tais mecanismos de poder, de estar inseridas/os em particulares processos de subjetivação e individuação. Portanto, uma prática de pesquisa é implicada em nossa própria vida. A “escolha” de uma prática de pesquisa, dentre outras, diz respeito ao modo como fomos subjetivadas/os, como entramos no jogo de saberes e como nos relacionamos com o poder (CORAZZA, 2002, p.124).

Converti-me, como disse Gonzáles Rey, em sujeito intelectual ativo durante o curso da pesquisa, não só por participar das interações, mas por produzir idéias à medida em que surgem elementos no cenário mesmo do encontro, gerando diálogos com teorias de referência, “as quais confronta com os sujeitos pesquisados, em um processo que o conduz a novos níveis de produção teórica” (GONZÁLEZ REY, 2002, p.57). Isso, de modo a mostrar o processo dialético, pendular, vivido desde a entrevista e a narrativa, que têm o atributo de serem aberturas para indagações ou vias de reflexão sobre algo que me parece haver em si como uma urgência a ser compreendida.