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2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.3 A linguagem oral e escrita: aspectos peculiares

Apesar de apresentarem diferenças em relação à produção, as modalidades falada e escrita da língua não podem ser vistas de forma dicotômica e estanque. Essa visão que opõe linguagens oral e escrita, pensando muito mais nas suas diferenças, é investigada por autores como Vygotsky, Barthes e Marty (ROJO, 2006). Assim, encontra-se o seguinte esquema, que resume as características dessa visão dicotômica, como é possível observar no quadro a seguir:

Quadro 1 – Diferenças entre a modalidade falada e escrita

Fala Escrita

Contextualizada Descontextualizada

dependente (de contexto) autônoma (em relação ao contexto)

Implícita Explícita

não-planejada Planejada

Imprecisa Precisa

não-normatizada Normatizada

Fragmentária Completa

Fonte: Própria autora, 2016 com base em Rojo (2006)

Ao analisarmos os traços característicos de uma e outra modalidade da maneira apresentada acima, reconhecemos o problema que surge em generalizá-los. Ou seja, muitas vezes esses traços se mesclam, ocasionando situações linguísticas como a seguinte: um bilhete, mesmo sendo escrito, pode ser tão informal quanto uma conversa ao telefone, por exemplo, ou uma notícia pode ser transmitida oralmente preservando-se as mesmas características da linguagem escrita.

De fato, a perspectiva dicotômica levou a uma série de crenças sobre a escrita e a oralidade. Tem-se essa percepção tanto do ponto de vista das características das modalidades como do ponto de vista de seus efeitos sociais e culturais.

Segundo Rojo (2006), os mitos ligados às características das modalidades de linguagem são:

a) A fala é desorganizada, variável e heterogênea; já a escrita é lógica, racional, estável e homogênea;

b) A fala não é planejada e tem espaço para o erro; a escrita, além de planejada e permanente, é o espaço da regra e da norma;

c) A fala se dá face a face; porém a escrita serve para comunicar à distância no tempo e no espaço;

d) A escrita se inscreve; a fala é fugaz;

e) E, por último, a fala é expressão unicamente sonora; enquanto a escrita é gráfica.

Sobre os mitos ligados aos efeitos sociais da modalidade escrita, tem-se que essa modalidade da língua dá acesso por si mesma a poder e mobilidade social. Ela leva a estágios mais complexos e desenvolvidos de cultura e de organização cognitiva do indivíduo.

É possível desconstruir essas ideias analisando melhor os contextos em que as modalidades são inseridas. Não se pode dizer que a fala, mesmo sendo conversa cotidiana, possui sempre as características de ser desorganizada, variável e heterogênea. Claro que ela se diferencia da escrita, mas por possuir outro tipo de organização, atrelada ao gênero textual e

ao contexto. Assim, a escrita também pode assumir várias formas de organização, de acordo com o contexto e o gênero.

Quanto à ideia de fugacidade que a fala supostamente possui, não se pode afirmar isso, se considerar que ela pode ser gravada, e a escrita pode não ser tão permanente, se os dados copiados ou arquivados forem perdidos.

Atualmente, não é possível diferenciar a fala e a escrita tomando como base a questão da distância, pois a fala pode atravessar o espaço por meio de conversas telefônicas, por exemplo, ou pelo bate-papo do computador. Observa-se, assim, como os novos meios de comunicação, aliados à mídia, ajudaram a abalar esses mitos.

Nos mitos culturais e sociais, sabe-se que, por mais que a cultura letrada, ao longo dos tempos, tenha atribuído mais importância e valorização à linguagem escrita do que à oral, o domínio dessa modalidade não garante mudança de classe social e/ou poder. Por outro lado, considerar as culturas orais como desorganizadas, simples e primitivas significa não levar em conta que seu funcionamento é apenas diverso do das culturas letradas, não significando que os indivíduos que nelas vivem sejam limitados (ROJO, 2006).

Outro ponto questionável da perspectiva dicotômica é em relação à afirmação: a fala é o espaço do erro, enquanto a escrita é o espaço da norma. Decorre daí um dos pontos cruciais das pesquisas realizadas nesse estudo, que é o reconhecimento da diferença entre os denominados erros da língua oral e os erros identificados na escrita. Segundo Bortoni- Ricardo (2004), os chamados “erros” da fala são, na verdade, variações inerentes a esse espaço, pois é da própria natureza da fala proporcionar esse recurso aos seus falantes para que ajustem a fala ao contexto situacional em que ela está inserida, garantindo a função que pretende desempenhar. Além do mais, a autora destaca a importância do professor identificar o tipo de “erro” na fala do aluno: são diferenças dialetais ou erros de decodificação na leitura.

Na escrita, o erro tem uma natureza distinta sendo avaliado de forma negativa. Não se pode nem chamá-lo de desvio, porque a ortografia que codifica a língua não admite variação. A ortografia “cristaliza” as diferentes formas de falares para facilitar a comunicação entre os usuários da língua.

O modo de falar de uma pessoa é diferente dependendo do lugar e do tempo em que é realizado. Devido à natureza rápida que a fala possui, com seu fluxo contínuo, poderão ocorrer processos fonológicos que causam mudanças na modalidade oral da língua, com o passar do tempo. O lugar físico e social em que a fala é produzida, também é fator determinante para a variação linguística. Por conseguinte, para evitar os efeitos desse

fenômeno, foi inventada a ortografia, com o objetivo de sistematizar a maneira de escrever cada palavra da língua.

A modalidade oral da língua é atualizada frequentemente pelos seus usuários, enquanto a modalidade escrita se mantém sem alterações, devido aos critérios de natureza ortográfica, o que ocasiona um distanciamento da fala para escrita. Percebe-se, então, que a criação da ortografia veio auxiliar o sistema de escrita alfabética, pois se encontrou um ponto de equilíbrio entre o ideográfico e o fonográfico, já que a imagem visual que se tem da escrita começa a ser levada em consideração, além da imagem acústica da palavra. Sobre isso, Cagliari (2001, p. 150) diz que “ O sistema alfabético só funciona quando perde a sua natureza fonética e passa a ser interpretado como um compromisso com o sistema ideográfico”. Ressalta-se então o aspecto ideográfico que a norma ortográfica impõe, pois a imagem visual da palavra leva também ao significado dela, e não somente os aspectos fonéticos que a constituem.